Luiz Geraldo Mazza
Olha-se a Copel hoje como se encara um condenado à morte. Isso para a maioria dos paranaenses, como os plebiscitos, inúteis e tão claros quanto as pesquisas, estão demonstrando. Em Guarapuava deu mais de 96%, como era esperado, e isso deve repetir-se à exaustão. Já para o governo a aproximação da data do leilão é motivo de vibração e euforia que permitiria ajustar o ''caixa'', tirá-lo do ''vermelho'' e capitalizar o Fundo de Previdência, reduzindo-se de saída mais de R$ 90 milhões mensais da folha do funcionalismo.
A luta é contra o relógio. Mais de 70 ações foram intentadas para evitar o leilão e espera-se que desse chumbo perdigoto uma pelo menos emplaque. Se o governo superar essa barragem de fogo, quem deve passar a preocupar-se será a oposição que está dividida (narcisismo é arma bem mais forte que a ideologia) e não encontra parceiros generosos dispostos a abrir mão de postulações. Tanto que Requião pediu isso a Alvaro Dias e não obteve resposta.
Não será de espantar que as três concorrentes resolvam associar-se em um só grupo para arrematar a jóia da coroa a preço de banana, posto que o otimista Miguel Salomão afirme que no preço mínimo já está embutido apreciável ágio. As firmas encarregadas do processo de modelagem da venda são internacionalmente conhecidas e colocadas, obviamente, acima de qualquer suspeita quanto aos critérios empregados, incluindo aí o dado da avaliação patrimonial, contestado pela oposição que não oferece, no entanto, alegações consistentes.
Se para a oposição o drama da Copel lembra o sentenciado no corredor da morte, para o governo se trata justamente do contrário: uma vitória bem maior do que os dois períodos de governo conquistados por Lerner, algo com o sinal de uma salvação administrativa, gerencial e política. A luta está reduzida ao campo judicial e percebe-se que mesmo as mudanças havidas no quadro partidário não alteram o equilíbrio das forças em choque. Votos como os que saíram da base aliada para o PMDB (Ricardo Chab, por exemplo) estão de tal forma ''amarrados'' que o quadro persiste imutável.
BIZARRICE
O Consórcio Vale do Rio Doce-Votorantin, habilitado para o leilão da Copel, tem o nome de ''Maromba''. No dicionário (Aurélio) está lá: ''Atitude dúbia de quem não quer se definir, aguardando os acontecimentos''. Há acepções ácidas que vão do figurado ''sistema que se sustenta com dificuldade'' até os brasileirismos ''esperteza'' e ''malandragem''
AXIOMA Deu-se relevo demais ao fato de o secretário de Justiça, Tato Taborda, haver mostrado inconformismo com as más condições de atendimento do posto do Itaú no Palácio Iguaçu. O raciocínio é singelo: se na sede do governo a coisa não funciona, dá para imaginar o que ocorre a distância.
GLOSA O Inri Cristo, alegando que a sua Kombi é o seu templo, pleiteia isenção do IPVA, uma vez que as igrejas a obtêm relativamente ao IPTU. Há quem ache que deva ser atendido porque é, mais do que ninguém, ''filho de Deus''.
EPIGRAMA A logomaquia dos políticos: não há antraz que a dissolva.
SPRAY O Fórum contra a venda da Copel acha que sua atuação não se limita ao leilão. Sua equipe de advogados permanece atenta nos desdobramentos que irão até dezembro. - No momento é preciso, segundo o advogado Guilherme Amintas, concentrar as energias na tentativa de impedir o ato de privatização no dia 31. - Como temos uma semana para evitar o pior e o governo detém equipes de advogados preparadas para as contestações necessárias, a essa altura os fatos políticos (a não ser que tragam inovações como mudança abrupta na correlação de forças no Legislativo estadual) já não contam com força para alterar a marcha dos acontecimentos. - A bancada do PSC na Câmara de Curitiba, revoltada com o pedido de demissão de Manfrin pelo governo, que contesta o fato, fez o exercício que lhe cabia de contrapressão e ainda na noite de anteontem conseguiu reverter a queda do chefe de Gabinete. Quando menos se espera, os trapalhões atacam para valer. - Prestigiada a posse de Rafael Greca de Macedo na Academia Paranaense de Letras. Escolhido quando ainda era ministro, há quem o imagine como um possível governador de fardão. - Afora o estudo de Dennisson de Oliveira, professor de História da UFPR, que avaliou as amarras que ligam o poder econômico ao político no caso específico de Lerner, é escassa a bibliografia local sobre o tema. A família Gulin, por exemplo, detém quase o monopólio do transporte coletivo em Curitiba por explorar o eixo norte-sul e agora um dos membros da família, o Donato, é um dos chefes da Tradener, hoje acoplada à Copel num empreendimento contestado na Justiça. - Há ainda casos como os de Salomão Soifer (Shopping Mueller, Terminal de Contêineres) e da DM (do empreiteiro Darci Fantin) também associada da Copel.
FOLCLORE Uma bomba no edifício das Varas Cíveis. Está mais para redundância do que para um atentado, pois o prédio, ao lado daquele do Fórum inconcluso, é uma evidência de como o Judiciário anda mal equipado.
CROMO ''Enquanto os companheiros, em revoada,// arrojam-se, sequiosos de amplidão, pelo espaço sem fim,// só ele, asas partidas, pássaro ferido,// jaz imóvel, inerte, olhar perdido na planície azul.//'' Carmen Carneiro
AFORÍSTICO Se não sair o leilão da Copel será como o fim do mundo para o governo que agoniza e espera o sangue e o plasma da privatização.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.





