Luiz Geraldo Mazza
Sustentei sempre que o ''front'' adequado da luta contra a privatização da Copel deveria ser no Judiciário e, de preferência, na área federal. Por que nessa instância? Simples: pela circunstância de mover outros entes públicos envolvidos no processo da desregulamentação do setor elétrico, todos do âmbito federal como a própria agência reguladora, a Aneel. Se um dirigente da área como o presidente do BNDES, Francisco Gross, vem a Curitiba e manifesta o maior cetismo em torno do leilão, posto que o desejo das privatizações tenha naquela instituição uma de suas alavancas, percebe-se o porquê do fator federal se impor com tanto significado.
A concessão de liminar, parcialmente, pela Justiça Federal, em ação popular, considera que houve lesão grave na questão da informação e da publicidade e consequentemente capaz de contaminar os atos subsequentes e até o fechamento do contrato com a vencedora do leilão. Um dos pontos claros, documentalmente comprovado, é o de que nem metade das interpelações foi levada em conta na audiência pública.
É rica, igualmente, a doutrina invocada para justificar a relevância do ritual impugnado em que vários autores interpretam textos de lei sobre a importância do sentido de participação. Como se considerou insanável a lesão havida, a decisão exige que se retome a audiência pública, contra a qual obviamente o governo vai se opor pela urgência do tempo e a sua obstinação em bater o martelo no dia 31.
Outros questionamentos serão feitos tanto na Justiça estadual como na federal e justamente no instante em que os prazos se afunilam. O fato de serem viáveis novas desistências em função da crise internacional e da recessão, levando ainda em conta o colapso energético interno e a queda livre do valor das ações da Copel, cria uma espécie de ''background'' muito mais forte e denso do que a passionalização do tema na via política. Os políticos detestam essa realidade, todavia sabem que ela é verdadeira.
O grupo jurídico que dá apoio ao Fórum Contra a Venda da Copel promete ir longe na vigilância do assunto, mesmo na hipótese de ser consumado o leilão. O cronograma não acaba no dia 31, se o absurdo for ultimado, já que depois há a oferta de ações aos funcionários da Copel, a liquidação financeira,
estendendo-se até dezembro. ''A guerra se vence de batalha em batalha'' - diz Guilherme Amintas, coordenador jurídico do fórum. E vejam: ele o declarou ainda antes da decisão da 9ª Vara Federal ser conhecida.
POLÍTICA Há quem se irrite quando afirmo como inócuas as agitações, que não levam a lugar algum, do tipo ''impeachment'' de Lerner ou essa bobeira festiva do plebiscito. Os que assim argumentam acham que o agito conscientiza e serve para isolar o governo. O governo, nessa questão, sempre esteve isolado. As pesquisas da Rede Globo regional o demonstraram, pela hostilidade de mais de 90% da opinião pública. Na Boca Maldita, ninguém mais suporta a mesmice das palavras de ordem, dos devotos sem votos em berreiro permanente, daqueles vídeos do PMDB tentando aureolar seu candidato, Requião, como o mocinho do filme, como já o foi em 90 com a Balada do Teixeirinha como se merecesse o tratamento de um épico de John Ford.
Não se nega que a operação visa o lado emocional, pois nenhuma das partes soube explicar por que se deva vender ou manter a estatal. A publicação das imagens dos que votaram a favor na tevê é legítima, faz parte do jogo, mas não tem o caráter fulminante imaginado. Quando das Diretas-Já, objetivo bem mais badalado do que a Copel, porque mobilizava o Brasil, houve aquele placar exibindo os que votaram contra o Projeto Dante de Oliveira. A maioria deles se elegeu e a execração só serviu, episodicamente, como um susto, nada mais. Pode repetir-se agora e com a maior naturalidade.
RETALIAÇÃO A iniciativa do situacionismo em discriminar prefeitos de oposição no tocante a verbas e convênios é de um primarismo que dispensa comentário. Uma canalhice a mais dentre tantas do nosso cotidiano. O pior é declará-lo abertamente o que é mais estúpido do que os governantes anteriores que faziam exatamente essa discriminação, mas não o afirmavam com tanta empáfia.
TROTSKISMO Fazia meus comentários na CBN Curitiba quando um dirigente do Instituto Liberal, como se estivesse com nostalgia da Guerra Fria e meses antes dos atentados terroristas, começou a repetir clichês do passado e até dizendo que essa ou aquela oposição eram trotskistas. O atraso era de tal ordem que chegou a irritar. Mostrei que a velharia era simétrica aos também perdidos no espaços que defendem o Estado com elefantíase.
Quando, porém, vi, em função do bioterrorismo, a atuação dos calhordas que se comprazem em fazer trotes, um divertimento sadomasoquista, também me lembrei dos liberalóides e sugeri que por darem trotes quem sabe não fossem todos eles trotskistas?
ÁGUA Vem aí o tarifaço, escandaloso, da água, essa água que tem cheiro, gosto e cor. Começa em dezembro. Outro dia, um mestre universitário me dizia, a respeito dos temores sobre atentados, que se um europeu ou americano visse a Barragem do Iraí, diante dos padrões a que está acostumado, acharia uma piada o risco dos ataques com antraz.
FARSA ''Façam o que eu digo, não façam o que eu faço.'' Uma penitência que assentaria bem no PT seria a repetição dessa frase umas mil vezes por dia. Especialmente depois da fraude da eleição interna que pretendia operar como um paradigma. Virou, de fato, a expressão real do PT: um PFL que ainda não chegou para valer ao poder e segue na dissimulação do ''puritanismo'' vitoriano.
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