Luiz Geraldo Mazza
Vivemos um momento contra o raciocínio. É que a ideologia, esse demônio da alma, volta a permear todas as coisas com o seu reducionismo calhorda, de tom maniqueísta, como se vê na exortação norte-americana contra os inféis para reagir à humilhação, traiçoeira e covarde, mas ainda humilhação, sofrida.
A Petrobras voltou a aprontar e agora na Baía de Paranaguá, como já o fizera na de Guanabara e no Rio Iguaçu, com o derramamento de nafta que colocou em risco não apenas o navio adernado como todo o complexo portuário e a população do entorno.
Agora só falta um desses imbecis, que se julgam iluminados, sugerir que tais acontecimentos, por sua frequência, parecem orquestrados por um esquema de manipulação e sabotagem dirigidos para obter o velho sonho de todo ''entreguista'' (êta linguagem antiga): o de privatizar a estatal que o Roberto Campos, falecido, chamava - com boa intenção pedagógica, mas excesso de crueldade - de Petrossauro. Algo como atribuir à direita americana o ataque às torres geminadas e ao Pentágono para fomentar a corrida armamentista.
Que tal tirar esse manto de sacralidade (essa fantasia de que a empresa é a expressão da soberania nacional e clichês equivalentes) da Petrobras e submetê-la, o quanto antes, a uma radiografia das mais abrangentes para derrubar mitos que a sustentam como os que a ameaçam?
Um detalhe é preciso ser levado em conta: nenhuma embarcação entra ou sai do terminal sem o apoio da praticagem. E quem conhece o ambiente e as suas características (batimétricas, acidentes) é o prático, dono de um cartório e um dos marajás da estrutura portuária brasileira. Uma atividade pública há muito tempo privatizada. Portos modernos ''off shore'' o dispensam, isso sem falar na sofisticação do monitoramento das cargas.
EPIGRAMA
Quando petroleiros ameaçam greve procuram os jornalistas. Ontem chegou a nossa vez de saber detalhes sobre a nafta. Não sabiam nafta. Vai ver todos estavam com afta
BIZARRICE Índio quer apito e Greca não quer ''pito''. Mas levou o segundo em público do governador Jaime Lerner que declarou o óbvio: quem cuida da sucessão é ele, mais ninguém. Rafael é impaciente, determinado e é do agito: não se dará por achado. E terá apoios como o de João Elísio que, se entende mesmo de seguro, sabe porque se mostrou entusiasmado com a fala de Rafael.
AXIOMA Ridícula a sugestão do Palácio Iguaçu de que as notícias das desistências de empresas do leilão da Copel visariam simplesmente baixar o valor das ações. Só há uma coisa inaceitável: o desespero, muito próximo da irracionalidade, do governo em insistir no leilão. Não há como aceitá-lo.
Outra bobeira palaciana (ou palhaciana) seria a afirmação de que sobrará a empresa de maior cacife. Ora as de maior expressão pularam fora. Ou teriam dito ''cacique''? Afinal, a forma como o processo está sendo encaminhado. Com todo o jeito de uma ''pajelança''.
GLOSA Atleticanos e coxas vestidos de branco em sinal de paz. Só falta agora proibir os palavrões e trocá-los por hinos religiosos e litanias. Imaginaram os coxas cantando ''queremos Deus, ó insensatos'' e os atleticanos retrucando com ''um anjo descendo de um raio de luz// feliz Bernadete que à fonte o conduz//''.
SPRAY Dona Fani, a primeira-dama, foi a Maringá para levar cheque a programa de creches. No aeroporto, o prefeito José Cláudio a avisou que não fosse à Câmara Municipal e ao centro da cidade que seria hostilizada. Só falta agora a ala ''hard'', que ganhou a eleição do PT e não levou, pedir o enquadramento do prefeito por esse tipo de colaboracionismo. - Aliás, outra mancada deu a Câmara Municipal de Curitiba se intrometendo em assuntos domésticos do Legislativo de Arapongas por causa da história (ou seria histeria?) do vereador Sérgio Onofre da Silva que participou de manifestações contra o governador Lerner e correu o risco de perder o mandato por iniciativa da maioria. - Imaginem se as Câmaras do interior começam a entregar os podres da rapaziada local com partilha de carros terceirizados (que a oposição na campanha finge combater e no poder o desfruta) e assessores e ainda vincula os acertos anteriores com o sindicato dos transportes coletivos. - Em oito meses, o Paraná liderou o crescimento na produção industrial do País com índice de 5,8%. No acumulado de doze meses chegou a 4,8% entre os três maiores com Rio e Minas. Detalhe: ainda é a agroindústria que pesa juntamente com o setor químico (leia-se Petrobras), nem tanto a ver com as mudanças de perfil econômico recentes. - O presidente do BNDES, Francisco Gross, mostra o quanto o governo predador está errado ao dizer que ninguém, no mundo inteiro, com essa crise, tem disponibilidade para o preço mínimo da Copel já embutido de ágio. Todas as pessoas sérias, como Ermírio de Moraes, por exemplo, falam a mesma coisa. Mas a compulsão é bem mais forte do que qualquer apelo à racionalidade. Urge terapia de choque.
FOLCLORE Só uma coisa alimenta o Palácio Iguaçu: o triunfalismo, desde que não seja o de Rafael Greca declarando que vai ser candidato e ganhar. Dados do IBGE sobre o desempenho industrial eram comemorados. Nos primeiros oito meses do ano o Paraná saiu na frente. Aí um desses assessores inconvenientes lembrou que a Bosch tinha demitido 130 trabalhadores. A resposta veio em trocadilho, bem ao gosto de jogos florais: mas isso não passa de um deBosch. Como ensina um sábio: diante da situação-limite, sem saída, faça sempre uma piada.
CROMO Todos de branco no estádio: e a camuflagem para o antraz em pó?
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