Luiz Geraldo Mazza
Anúncios classificados, como se viu ainda nesta semana, constituem uma área apropriadíssima para mensagens secretas, gozações e perfídias. Quando o País se abriu para a democracia com a eleição direta de governadores fez-se uso desse meio para afirmações, especulações e provocações. Aqui houve uma dessas, sacaníssima, contra o candidato da Arena a governador, Saul Raiz: um anúncio colocava a sua mansão, no Jardim Social, se não me engano, à venda por um preço inacreditavelmente baixo, o que deixou a família em pânico diante das ligações, já que fora indicado o telefone da residência.
O mais recente saque - o de que a empresa americana Duke Energie venceria o leilão do dia 31 que pode não passar de um sarro em cima de tema sério para deixar o ambiente mais carregado de energia - se insere num tipo de expediente muito empregado para envolver negócios, política, ameaça e até questões de traço mais íntimo, familiar. Consta que em Curitiba dos anos 50 houve o aviso de um crime: o assassino se referia a uma cadela de nome Joana e que teria abandonado três filhotes ainda não desmamados. Esse código teria sido a senha para o homicídio que pouco depois ocorreria.
Quando escrevia crônicas, logo no início da carreira, lá por 1950 (neste ano tivemos a eleição vencida por Getúlio Vargas no Brasil e Bento Munhoz da Rocha Neto aqui no Paraná), produzi alguma coisa sobre um anúncio intitulado ''Cabo Eleitoral'' no qual se punha em oferta uma quantidade apreciável de votos como se fosse um mangueirão. Lembro a ousadia - se é que não se tratava de sarro dos mais intrigantes - de que o anunciante fazia a proposta e pedia que a resposta viesse sob a forma de carta para um determinado endereço.
Nesses tempos de paranóia, em que se esquadrinha ligações telefônicas a países muçulmanos, os classificados vão virar moda para investigações, ainda mais depois desse exercício, especulativo ou gozativo, que apontou o ganhador da licitação da Copel. No meio daquelas orações por uma graça recebida, venda de vestido de noiva, troca de automóvel, quem sabe encontremos a sorte, um número que pode indicar o primeiro prêmio da Loteria Federal ou ainda a sequência completa da Sena vencedora. Jamais, porém, haverá aquela ansiedade em descobrir significados outros como fazíamos nos tempos de adolescente diante das cartas de namoradas, reais ou imaginárias (amadas à traição), que recebíamos e que faziam o coração pulsar. É desse tempo uma crônica (por onde andará?) em que comparava o carteiro que trazia essas mensagens como um anjo uniformizado e não poucas vezes imaginei até um libreto de balê entre o apaixonado que aguarda o funcionário que lhe traz mensagens tão misteriosas e por isso mesmo ricas, trabalhadas pela cabeça e o coração do destinatário.
A INVERNADA O Centro Cívico de hoje nada tem a ver com o ambiente que o precedeu e isso não apenas nessa violenta e estúpida intervenção que foi a colocação das cercas e alambrados. O espaço foi modificado pela engenharia: a área em que está o Palácio Iguaçu era o cimo de um morro aplainado com ações de terraplenagem. Foi graças a essas obras que o Paraná descobriu e explorou as suas jazidas de mármore. Durante muito tempo uma senhora mantinha no pasto uma vaca e que conferia à modificada paisagem um tom bucólico.
No lado esquerdo da Assembléia Legislativa e Tribunal de Justiça havia o mato do Quirino. Saímos das peladas do campo do Paraná (mais ou menos na área em que está hoje o prédio do Tribunal do Júri) e íamos tomar banho num bolsão de água mineral que havia naquele matagal. Alí havia frutinhas, hoje praticamente extintas, como ''São João'' (que parecia um balãozinho), uma amora que chamávamos de ''veludo'' por sua maciez e as outras mais conhecidas como a guavirova, ameixa amarela.
Numa das gestões de Aníbal Khury (e foram tantas) ele mandou fazer prospecção na área e acabaram reencontrando o veio daquela água mineral alcalino-terrosa que hoje abastece aquela repartição. A água foi reencontrada, mas jamais o será o nosso tempo, feito de sonho e poesia.
ANALOGIAS E essa analogia agora entre Osama bin Laden, ex-aliado americano na hora de expulsar os soviéticos do Afeganistão, e o Antonio Conselheiro, o líder dos fanáticos do Arraial de Canudos, começa a prosperar em função, clara, dos arquétipos em conflito: a civilização (a República, no caso brasileiro) contra o primitivismo; o poder bélico da riqueza contra os pobres (não dá para comparar a miséria do líder Antônio Vicente Mendes Maciel, o beato, com o rico organizador do Taleban).
As imagens da paisagem sáfara, arenosa e dobrada do Afeganistão não se confunde com aquela do norte da Bahia. Num caso o messianismo que convocava os escravos recém libertos e sem perspectivas para a aventura e no outro a razão da defesa territorial que já funcionara contra a invasão soviética. À cada filme ou fotografia da miserabilidade dos afegãos se acrescentará o horror dos ataques e mesmo que se aceite a retaliação pela violência do ataque terrorista a Nova York não se evitará, mais uma vez, como já ocorrera no Vietnã, que haja o crescimento do anti-americanismo, especialmente na América Latina, pelo fato de aqui persistirem cenários muito próximos dos proporcionados pela guerra.
Sabemos que num ponto sensível não se confirmará a analogia entre escaramuças do fim do século retrasado com as de agora. Não haverá certamente um gênio como Euclides da Cunha para um relato denso das ocorrências e que fizeram de ''Os Sertões'' uma obra monumental da literatura brasileira.
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