Se o governador paranaense não tiver um mandato parlamentar, dificilmente irá escapar de constrangimentos na Justiça, razão pela qual muitos o aconselham a pelo menos sair para deputado federal, hipótese de menos risco do que encarar a majoritária ao Senado. Há quem veja naquela sua frase sobre a necessidade de mudar a representação paranaense na Câmara Alta como indicador de que usaria esse argumento para respaldar sua pretensão.
Mesmo com a garantia da imunidade, cujo conceito tende a mudar por imposição dos novos tempos, não escapará de processos, posto que dificilmente os tenha na mesma intensidade do seu ex-adverso Requião. E o cronograma dessas questões é longo, bastando dizer que a roubalheira da Leasing Banestado até agora ficou limitada à patologia de Sergipe e do ex-governador João Alves. Só dessa área há 25 notícias-crime.
Exemplo de demora pode ser enriquecido com a lembrança de que somente no ano passado o Ministério Público Federal enquadrou a equipe do Banestado do governo Alvaro Dias por crime do colarinho branco, descontos procedidos num empréstimo de empresários, procedimento comuníssimo no meio bancário e também nos casos da Copel. Nesse caso, três governos depois.
Recentemente, o noticiário nacional, em cima ainda do caso Jader Barbalho, mostrava que o senador paranaense Roberto Requião era o campeão absoluto de processos. Ainda na semana passada, ganhou um, pelo voto do ministro Nelson Jobim, movido pelo ex-secretário Giovani Gionédis, acusado por Requião de ter colocado o seu escritório de advocacia a favor da RWE, empresa alemã, no leilão da Copel.
Há ainda um outro fator que muda o quadro da impunidade: a ação do Ministério Público que nesta semana, aqui no Paraná e Santa Catarina, desbaratou uma gangue especializada em roubo de automóveis. Curiosidade: um dos desmanches fechados em Paranaguá operava como oficina do Porto. E lá até havia um carro da autarquia. É justamente o Ministério Público que está pegando no pé de todos esses figurões da política que vão de Paulo Maluf ao Barbalho e aqui mesmo há inúmeros procedimentos em cima do atual governo.
Se alguém falar, porém, em blindagem hoje no Palácio Iguaçu, o entendimento será o de que se trata da venda da Copel, a obsessão máxima, mesmo quando desistem do leilão as empresas mais fortes e também o consórcio nacional formado pelos grupos Votorantim, Bradesco e Camargo Corrêa. Isso já não é blindagem e sim desespero e mergulho na irracionalidade.
GLOSA
Depois da venda da Copel, Lerner poderá, como Luis XIV, repetir ''depois de mim o dilúvio''? Pode ser também que depois de tudo se monte não a arca de Noé, mas a de Noel, Papai Noel, o velhinho do Natal
BIZARRICE A desistência de quatro participantes (a alemã RWE pode ser a próxima) do leilão da Copel encontra a guarda pretoriana do governo (Lerner, Ingo e, sobretudo, o Miguel Salomão, o que mais justifica) pronta para dizer que nada disso é relevante. É como se o governo americano, depois do ataque terrorista, argumentasse que afinal só haviam sido atingidos três objetivos.
AXIOMA O desmanche em Paranaguá funcionava como oficina do Porto e lá se encontrava um carro, bem como notas fiscais da autarquia, na hora em que o Ministério Público o fechou. Apesar de ter havido até incêndio da PIC na área policial nada se apurou sobre todas as denúncias da CPI nacional.
EPIGRAMA Fato extremamente curioso é o de o Ministério Público Estadual em sua eleição para a lista tríplice dos indicados para assumir a Procuradoria-Geral de Justiça apontar, preferencialmente, gente do gabinete. E os outros, como esses homenageados de Londrina, não têm oportunidade ou há um pacto que a todos obriga?
SPRAY Ontem, na oitava página de classificados da ''Gazeta do Povo'' havia uma mensagem cifrada, provavelmente ligada à licitação da Copel. Sob o título ''Pato Elétrico Yank'' dava o recado ''ganha presente dia 31/10/01''. Continha a assinatura das iniciais GAC e o codinome Akinaton. - Ora, a data é a do leilão, que as pessoas de bom senso pedem para transferir ante o quadro atual de escassez de energia e as numerosas desistências, da maior estatal paranaense. - Pelo título ''Pato elétrico'' sugere-se em trocadilho que a vencedora seria a Duque, pois Duck é pato. - Na ''Gazeta'' seguidamente, a despeito de todas as cautelas, aparecem mensagens. Já houve algumas sobre altos funcionários do Tribunal de Contas em viagens ao exterior. - Uma das clássicas, de muitos anos passados, ofertava num tempo de eleições sob o título ''Cabo eleitoral'' um mangueirão cívico, isso é um colégio eleitoral à venda. À essa época as leis eram muito frouxas na área, hoje isso seria inadmissível como confissão de crime eleitoral. Poderia ser gozação, o que pode estar ocorrendo com a sugestão do leilão. - O jornalista Jânio de Freitas ganhou um Prêmio Esso de Jornalismo dando, em código, num classificado o resultado antecipado da licitação da Ferrovia Norte-Sul no governo Sarney. - Consta que em Curitiba houve o anúncio de um crime em classificado cifrado em que se tratava uma esposa como se fosse uma cadela que tivesse abandonado os filhotes não desmamados.
FOLCLORE ''Jingle Bell, Jingle Bell, já vendi a Copel.'' Tem gente sonhando que esse vai ser o canto de Natal do governo Lerner.
CROMO E essa fronteira que me separa fisicamente de você quem de nós afinal a criou, tornando essa aproximação a engenharia do impossível?
AFORÍSTICO O Juízo Final do governo sabemos qual é, a não ser que antes do fim deste mês haja ''juízo, afinal''.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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