Difícil é discutir ética num cenário de guerra. Aí se igualam o terror oficial (Vietnã, Coréia, bombardeio de Hiroshima e Nagasaki) com o outro dos suicidas e homens-bomba (camicases da Segunda Guerra Mundial, anarquistas radicais ou muçulmanos dispostos à morte) e especialmente o quadro de barbárie das ações recentes em Nova York.
É verdade que nos exércitos regulares, formais, há a preocupação para reduzir as baixas a índices toleráveis. O soldado luta com a esperança de não morrer, vê o companheiro de trincheira cair, mas ainda assim continua acreditando na sua transitória imortalidade. Já as falanges suicidas atuam com a idéia preconcebida da morte, do sacrifício pessoal necessário, o que torna esse tipo de operação mais econômica do que a outra processada dentro dos cânones e, por isso mesmo, mais inesperada e audaciosa.
Mas é possível transplantar o raciocínio para os atos de resistência como esse dos funcionários em greve, sejam previdenciários, mestres universitários ou de qualquer outra categoria como os petroleiros, a bola da vez. Um exemplo: é ético impedir os vestibulares quando milhares de jovens estão no aguardo dessa oportunidade, o que afeta massa de interesses numericamente superior à dos grevistas? Pelo menos a delicadeza do tema merece reflexão, já que em greves anteriores, todas frustradas, também houve idêntica ameaça, felizmente não consumada, face à manutenção de um mínimo de bom senso.
Que a greve é justa nem se discute. Pelas experiências anteriores dá para prever um novo insucesso, apesar da demagógica atitude de conselhos das universidades interrompendo o ano letivo e esperando com isso jogar o governo contra a parede. Isso, aliás, demonstra que o populismo assembleísta quebra, antes de tudo, o fundamento da hierarquia, sem a qual inexiste universidade.
A greve, mesmo quando inevitável, como se dá agora, tem efeitos colaterais: os jovens que terminam cursos estão angustiados e aqueles que tentam entrar se encontram sob colapso. Se tudo isso pode ser tocado com respeito à ética é fácil demonstrar que a proposta de sabotagem aberta, como se deu em tratativas no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) de Curitiba, é o extremo da intolerância. Cogitou-se de abrir os resultados dos gabaritos para ''melar'' o vestibular, algo como o médico e o padre entregando segredos de consultório ou confessionário.
Condena-se o imobilismo da autoridade que se recusa a abrir negociação, embora se saiba que o Estado brasileiro é hoje uma capatazia do FMI e por isso detém raio mínimo de autonomia para negociar. O Estado é catatônico diante de uma clientela convulsiva ameaçada concretamente pela fome e dando sinais de perda de controle e noção de limites do que se pode ou não fazer.
BIZARRICE
Eleições internas do PT pretendiam ser um exemplo de democracia para o Brasil e agora há troca de acusação de fraude de lado a lado. Pode-se hoje traduzir a sigla PT como o Partido do Tapetão
AXIOMA O PT é tão pluralista que está em todas as escalas cromáticas nos seus grupos, subgrupos e tendências: o vermelho, o rosa (a dissidência rosa-choque é reduzida) e o laranja, esse com grandes perspectivas de crescimento.
GLOSA Convidaram um deputado oposicionista para discursar sobre o célebre caso do babalaô que se borrou e que vinha fazer ''descarrego'' (outro, é claro) no Palácio Iguaçu. O cara alegou que respeita candomblê e umbanda e temeria ficar com o ''encosto''. Por enquanto suporta o da sua liderança, que também não acata despacho judicial, mas respeita aquele dos encruzos.
EPIGRAMA Há uma certa analogia entre secretários de Lerner que tudo justificam (seja a prorrogação dos incentivos fiscais para as montadoras ou a desistência das empresas mais poderosas do leilão da Copel) e o taleban radical: a postura é muito semelhante aos suicidas, certos de que vão ao céu pelo martírio.
SPRAY Se se confirmar a especulação de que a alemã RWE teria desistido do leilão da Copel ficaria claro que as mais importantes, e por motivos claros de risco no investimento, pularam fora. - Na hipótese da confirmação teríamos 40% de desistências, o que é bastante expressivo. - Paraná em matéria de informação lembra muito o que ocorre nos Esteites depois dos ataques terroristas: tudo o que se refere à Copel é filtrado e pasteurizado. - Outra bem nossa: o último boletim de Análise Conjuntural do Ipardes entra nessa toada ao dar destaque às exportações do Paraná no semestre, ocultando o fato de que em dólares a importação foi bem maior. Um dos pontos de estrangulamento é justamente com os bens de capital e tudo o que se relaciona com as montadoras. Esconder é mais feio do que sentar. Sentar na informação. - O prefeito Cassio Taniguchi é um refém ao mesmo tempo de Lerner e de Gionédis, aquele por tê-lo imposto a permanência no PFL e este por dominar numericamente o seu secretariado. É ambivalência para ninguém botar defeito, explicitada na ficha da mulher e do filho no PSDB.
FOLCLORE Na eleição do Clube de Oficiais da PM há quem veja uma espécie de código político em cada uma das candidaturas. Venceu o tenente-coronel Nemésio Xavier, diretor do Depem, e isso foi interpretado como uma vitória de Requião dadas as ligações de amizade do militar com o senador e que até impediram sua primeira posse no setor. ''Tá tudo politizado'', pode-se dizer em paródia funkeira.
CROMO Na bolinha de gude o olho da criança se liga na fantasia e na esperança.
AFORÍSTICO Aguentar esse governo por mais um ano vai ser soda.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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