Luiz Geraldo Mazza
Tido como símbolo aziago, o urubu parece estar ameaçando pousar no Palácio Iguaçu. Talvez isso justifique a preocupação de algumas figuras do governo em confiar em ''despachos'' e ''descarregos'' para afastar o baixo-astral. Não bastasse tudo o que está acontecendo desde que o governo derrubou o projeto que impedia a venda da Copel como o descontrole da base aliada, hoje inimigo sem rosto como fanáticos de Bin Laben, tivemos o puxão de orelha do presidente do Tribunal de Contas, conselheiro Rafael Iatauro, solicitando explicações sobre a prorrogação da isenção do ICMS às montadoras em função do discurso do senador Osmar Dias.
Como uma desgraça nunca vem só, está havendo desistências de participação no leilão da Copel em função do novo quadro gerado pela tensão internacional e a recessão que mina o mercado mundial, isso sem considerar a recorrência da crise energética no País. Primeiro foi a estatal francesa que levou vantagem na privatização da Light no Rio como capitânea do consórcio vencedor (só com dinheiro do BNDESPar foi possível bater o martelo), tirando o time, e depois vieram as outras como a espanhola Endesa. E daí em diante, especulações vinham aos borbotões e não havia como represá-las, pois o dique - a fala do governo - carece de um mínimo de credibilidade.
O urubu é o símbolo do Flamengo que, no momento, ajusta-se simetricamente ao desempenho do clube de maior torcida do País. Agora passa a ser também o de um governo que tanto se bateu para fazer do tucano a sua referência, embora com maior rigor esteja representado pelo chupim, o vira-bosta, aquele que faz com que seus ovos sejam chocados por um ''laranja''.
Se a venda da Copel não se consumar o governo fica pior do que pianista de ''saloon'' no meio de um tiroteio e isso se dá num momento de queda livre do valor das ações da estatal. Daí se compreende a convocação do babalaô da Bahia que teria sido chamado para melhorar o astral palaciano e que acabou se dando mal com problemas no jatinho oficial e outros de caráter intestinal. Diz-se que há o maior mistério para regularizar nos atos oficiais a viagem do bruxo, porque se não bastasse o vexame, ainda o avião sofreu avarias não tão graves quanto a que afrouxou os esfíncteres do mediador do Além.
GLOSA
Ações da Copel tinham caído 10% e recuperavam-se ontem em 7,4%. Com a saída da norte-americana AES, o valor desceu para um patamar de 3%. Urucubaca é grande: se até babalaô entra em incontinência intestinal tudo pode acontecer.
BIZARRICE
O secretário Miguel Salomão, do Planejamento, costuma argumentar sobre as isenções fiscais que não há perdas porque não se pode abrir mão daquilo que não existia. E diz tratar-se de estímulo ''incremental''. Já o caso do ''bruxo'' configuraria um quadro ''excremental''.
AXIOMA
A eleição é como a claridade para o Conde Drácula: sugere-se que ela é incompatível com o obscurantismo. Dá para ver o que houve nas eleições do PT que sai rachadíssimo da disputa entre André Vargas e Padre Roque. A eleição faz bem, mas sempre traz choque anafilático.
EPIGRAMA
Roque venceu por 4.295 a 4.009 de André nas eleições do PT que pretendiam ser paradigmáticas. Só que meteram a mão nos feitos do padre com impugnação em 13 municípios. Agora, depois do tapetão regional, haverá a manifestação do tapetão nacional. O PT, nosso melhor partido, tem um grave defeito: só enxerga os defeitos dos outros, não os seus. Golpe e corrupção alheias são intoleráveis, os dele contam com indulgências plenárias. Aliás, é para o que deverão recorrer se tiverem dado um golpe no padre. Quem sabe só o admitam no confessionário. Para uso público, não.
SPRAY
As ações da Copel caem, duas empresas de porte desistem do leilão (a Endesa, espanhola, e a AES, americana) e o governador Jaime Lerner acha que está tudo bem, bastando ler o noticiário econômico. Mais um Pangloss. - O PMDB quer vê-lo fora do governo. Com essas afirmações de que tudo está legal se comprova que está por fora, em outra galáxia, e não pode ser tirado do lugar em que não está. - Beto Richa se afasta da Secretaria de Obras de Curitiba e entra em seu lugar o filho do Euclides Scalco. Sai o filho do ex-governador e entra o do seu ex-chefe da Casa Civil. Num Estado que tem dois senadores irmãos, a fraternidade é a regra. - Padre Gustavo Pereira Filho fez ontem 91 anos e será homenageado hoje com jantar no Madalosso. Está aí um ecumênico e que é um símbolo de paz por sua capacidade de agregar os contrários desde os tempos de capelão universitário. - Dia 16, às 10 horas, Teatro Fernanda Montenegro, Waldez Luiz Ludwig faz palestra sobre ''Gestão do Capital Intelectual'' num fórum do Conselho Regional de Administração. - Código de Saúde do Paraná, relatado pelo deputado Ribas Carli, aprovado em primeira discussão, assegurará melhor coordenação do sistema. - Está aí um trabalho bom do governo: vilas rurais de Apucarana fornecem itens da merenda escolar nas escolas municipais, atendendo 18 mil alunos.
FOLCLORE
Americanos no Afeganistão jogam primeiro as bombas e depois comida e um rádio ''de corda''. Mais ou menos o que o governo paranaense fará: primeiro submete os funcionários estaduais à fome e depois da venda da Copel dá um aumentozinho. E ameaça: se não vender a Copel, atrasa o 13º.
CROMO
Na valeta a céu aberto afloram as folhas de agrião e mais do que isso por vezes se vê o reflexo da lua em olhar mortiço e gorduroso.
AFORÍSTICO
É preciso que chova muito sobre o Palácio Iguaçu: água benta.
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