Nem tudo que é do mundo da contemplação e do lazer é fútil. Sua utilidade acaba se impondo no mundo prático. Desfrutar o ócio é uma forma de ponderável utilidade. Uma rosa, embora aos pragmáticos não pareça, é útil. Paul Lafarge, francês cubano, irreverente, genro de Marx, saiu à frente do badalado Domenico di Masi, com a doutrina do ócio criativo com seu instigante livro ''O direito à preguiça''.
O texto se incorporava à luta prioritária dos trabalhadores pela limitação do horário de trabalho que geraria muitos mártires como os que deram origem ao 1º de Maio em Chicago. O tempo útil do trabalho seria de oito horas e necessárias ao trabalhador mais oito horas de sono e outras tantas de lazer. A moderna industrialização libera ainda mais horas ao trabalhador do que nos tempos a que se referia Lafarge.
É verdade que a futilidade e o supérfluo na sociedade capitalista implicam em valor. O supérfluo, por exemplo, é de uma operacionalidade que não se limita ao fato de atender a economia segmentada dos mais ricos. Em administração, uma regra de racionalidade obriga ao questionamento do custo-benefício das coisas.
Os Jogos Mundiais da Safadeza são um exemplo de desperdício, ainda que apoiado num discurso aparentemente verdadeiro: o de ativar a Costa Oeste. Muita gente ganhou dinheiro, alguns até sem concluir as empreitadas; nunca se soube quanto o governo aplicou naquilo porque jamais se conheceu o balanço do folguedo, cercado de mistérios e denúncias não explicitados.
Este governo é o campeão dos absurdos. Pois agora lançaram uma publicação luxuosa e colorida em forma de ''gibi'' para mostrar às crianças por que a Copel vai ser privatizada. Catecismo primário como forma de convencimento, com linguagem imprópria ao mundo infantil, tenta fazer o gênero ''vinde a mim as criancinhas'' quando não souberam sequer (e havia argumentação sólida para tanto) explicar aos adultos o porquê da desestatização num modelo nacional.
E tanto não souberam que agora se batem para recuperar o tempo perdido com os anúncios engraçados e caricatos já bloqueados pela Justiça, mas ainda no ar como se a liminar concedida não tivesse validade.
Não há loucura nisso aí, mas muito método: as gerações futuras saberão melhor defender o leilão da estatal do que as atuais e pelo jeito a preocupação do governo é o futuro que ele extermina com extraordinária competência e humor. É absurdo para desbancar Becket e Yonesco.
AXIOMA
Gastar dinheiro à toa, um estilo de governo. É à toa e ninguém autua

BIZARRICE Versão da fábula ''Lupus et agnus'' (''O lobo e o cordeiro'') de acordo com a concepção do gibi a favor da privatização da Copel.
- Como posso ser acusado, Senhor Lobo, de estar aumentando o nível de turbidez da água se eu, um humilde cordeiro, estou a jusante e o senhor a montante da cachoeira?
Na efabulação a razão do lobo se sobrepõe a do cordeiro. O lobo acaba faturando o lanudo. Tal qual se dá com as razões desse governo ligado na prodigalidade compulsiva e fora de qualquer controle.
GLOSA Fábio Campana contou uma história incrível do governo: a contratação de um babalaô da Bahia para o descarrego geral diante do baixo-astral dominante. O atleta ligado em orixás entrou em pane quando o avião teve dificuldade para aterrissar em Curitiba e os intestinos se soltaram. Sugere que o secretário ligado nessas anda de medalhinha no pescoço dada por um ''bruxo'' e tem um corpanzil. Vai ser mais fácil acertar na Sena do que descobrir de quem o jornalista está falando.
EPIGRAMA Cada povo tem o governo que merece. E isso não se dá também com as corporações como a dos delegados de polícia, por exemplo?
SPRAY O caso da revista em quadrinhos denominada ''Paranazinho'', que defende a privatização da Copel, não é o primeiro a revelar-se inútil para a finalidade a que se dispôs: já tivemos até a recriação das figurinhas das Balas Zequinha e o uso de personagens de Walt Disney para ajudar na arrecadação. - O chamado custo-benefício na área de propaganda é insondável porque vale tudo. Lembro de uma tolice de gênios marqueteiros que botaram a gralha azul como símbolo do Banestado e como se não bastasse ainda colocaram uma delas em gaiolas em cada agência do estabelecimento. Essas pessoas fazem o que bem entendem. Em país civilizado, com um mínimo de conservacionismo, os autores seriam presos. Aqui poderiam até ganhar prêmios. - Na crise universitária se percebe que o governo FHC domina de tal maneira a situação que obriga a massa reivindicante a lutar não pelo aumento que aspira, mas pelo salário do mês vencido e que foi cortado. É a prova de mais um bloqueio e que torna a greve inútil.
FOLCLORE A revista em quadrinhos do governo feita para defender o leilão da Copel, sob a forma de gibi, segundo seu autor, é uma forma de levar os pais a se interessarem por uma história infantil entregue aos filhos. Está bem com a cara do governo: o uso do caminho (ou descaminho) tortuoso e oblíquo. Seja no pedágio ou na propaganda, tudo com a mesma marca digital.
CROMO Na calha o tamborilar, outra vez, da chuva. Dizer que o tempo é plúmbeo e de chumbo é a redundância do excesso de água e escassez de imaginação.
AFORÍSTICO A novela terminou e já se iniciou outra e o governo continua. Não há distração que nos devolva a tranquilidade.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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