Luiz Geraldo Mazza
O Brasil enfrenta numerosas greves e, como sempre, do setor público: a do INSS, entrando no segundo mês, e gerando problemas graves aos segurados; as locais, tanto dos mestres do 1º e do 2º graus como das universidades estaduais revelam baixa adesão para algo que mal se iniciou.
As greves da Universidade Federal perderam o pique pelos escassos retornos apresentados numa década. São de uma pobreza espantosa em resultados que apenas servem para desmoralizar um instrumento de luta relevantíssimo dos trabalhadores. Com a suspensão do ano letivo pelo Conselho Universitário, bem mais eficaz do que a greve, ainda que revelando a quebra da hierarquia e o império da pior forma de cumplicidade e demagogia, o populismo dominando a área do saber, o governo teria um interlocutor menos passional para dialogar.
Mas o governo não pode, além de papo jogado fora, acertar coisa alguma, porque o País tutelado, que transformou seu presidente num capataz dos monitores do FMI, não tem qualquer margem de barganha, o que se repetirá mesmo com a hipótese da vitória do PT.
Greves rápidas como a última dos bancários podem ter alguma eficácia, ainda que poucas classes, como a desses trabalhadores, encontre-se de tal forma engessada no processo. Trata-se de profissão em extinção diante de avanços como o da moeda de plástico, caixas automáticos e agências liofilizadas que lembram mais um laboratório de análises clínicas do que um banco. Aduza-se a essa parafernália a informática e cujas operações não se tornam mais frequentes apenas pela inexistência de segurança e fidelidade.
Na semana que passou, a segunda maior central do País iniciou a campanha unificada pelo reajuste salarial num quadro pré-depressivo em que dentro em pouco obter a preservação do emprego já será um milagre. O propósito é generoso, afinal há uma tremenda desigualdade em poder de mobilização dos sindicatos, mas já se sabe que os resultados serão pífios simplesmente pela impossibilidade de haver qualquer ruptura nesse cenário.
Fazer greve, reagir, seria uma forma desesperada de mostrar-se vivo e ainda resistente, de tentar romper o círculo de ferro de uma situação duríssima. O fato de o governo - tanto o federal como estadual - ficar isolado, não significa que foi derrotado, embora acumulando energia negativa para 2002.
CABO DE GUERRA Nessa disputa das universidades (e várias das nossas entraram na onda da suspensão do ano letivo) com o governo estadual ou federal, dá para lembrar do personagem criado por Jô Soares e que funcionava como garçom. O cliente ia definindo o prato desejado, ingredientes sofisticados aos quais o funcionário delicadamente oferecia sugestões complementares em torno de vinhos e sobremesa e daí perguntava: ''E se não tiver?''
Mais ou menos o que ocorre com essas greves e o governo. E se não tiver grana, como atender as demandas? Lerner se agarra na venda da Copel para dar folga ao caixa e Fernando Henrique se preocupa com as metas acertadas com o FMI. Só um completo idiota acha que não estamos diante de tiranos perversos que não se dispõem a ouvir o grito rouco das ruas.
A luta, se é que ela de fato existe, lembra um cabo-de-guerra, onde não há a hipótese de o governo levar a pior, a não ser no Ibope e na credibilidade. E é desigual porque o agito das greves (ou ela seria uma forma trágica do pior dos imobilismos?) coloca o reivindicante como um portador da Dança de São Vito diante de um catatônico, uma estátua.
DO ORIENTE As tensões no Oriente Médio não são de hoje. Nos anos 40, houve uma passeata da comunidade árabe em Curitiba e os manifestantes iam gritando pelas ruas para que os patrícios fechassem as lojas. ''Fecha! Fecha!'', e com a palavra de ordem iam obtendo adesões. Aí a massa chegou diante de uma das principais lojas, o ''Louvre'' (o slogan dizia ''Rei das sedas, imperador dos preços'') do empresário Miguel Caluf.
O dono da loja foi até lá, trepou numa cadeira e passou a discursar em árabe e com a máxima veemência. Às primeiras palavras, aplausos frenéticos e depois, aos poucos, o entusiasmo arrefeceu e o grupo se dissipou. Alguém da polícia política, que acompanhava a ocorrência, quis saber que milagre o empresário fizera para dissuadir a multidão.
Aí veio a explicação: o orador abriu o seu discurso de que passeatas são importantes, mas insuficientes para mostrar a solidariedade aos irmãos oprimidos e que para responder as agressões só havia uma saída: a das armas. Palmas frenéticas e muita excitação se seguiram à frase. Aí o orador fez um desafio: ''Vou abrir um livro ouro para comprar armas com tantos contos de réis''. Nesse momento, cabeças balançando, incrédulos, os manifestantes se mandaram.
AINDA A GREVE Numa das últimas vezes que Luiz Carlos Prestes esteve em Curitiba, bem depois da anistia, perguntei-lhe num papo que antecedia uma entrevista na TV Independência se o confronto interno se tornasse agudo que medida poderia ser tomada e o herói da Coluna gloriosa, aí mais burocrata do que guerreiro, agarrou-se na greve geral como a panacéia última. A resposta foi bem melhor, posto que inviável historicamente, do que aquela outra que ele deu em março de 64, poucos dias antes da ''Redentora'', quando, convicto, fez um desafio: ''A direita que tire a cabeça de fora!'' Ela tirou e levou tempo para sair.
JADER Mais uma vez se prova no Brasil que soluções políticas parecem mais eficazes que as jurídicas, o que não é bom para a higidez institucional. Assim foi com Collor, com os anões do Orçamento, com ACM e Arruda. E o será com Jader.
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