O governo conseguiu irritar a oposição com seus anúncios (que na campanha da Prefeitura de Curitiba seguindo a mesma linha deram resultado positivo) sobre os adversários da venda da Copel. Há um erro de cálculo: não apenas barbudos e gordos do sindicalismo e da política estudantil são contra o leilão, mas sim a esmagadora maioria da sociedade paranaense que pode até estar mal informada, o que não a impede de manter essa posição.
Como o emocionalismo domina o pedaço e o governo foi incompetente na mostra das razões que o levam a privatizar a estatal (poderia tê-lo feito com um mínimo de habilidade, mostrando a imposição do modelo, o bloqueio de qualquer tipo de empréstimo nacional ou internacional) decidiu, ainda que de forma um tanto tardia, explorar o lado caricatural da zanga do basismo, o espírito iconoclasta, negativista, faccioso e a crença no voluntarismo - o de que as massas, quase sempre estúpidas, conduziriam a história, daí cultivarem o mito das barricadas que aqui é exercido com selvageria e sem a elegância francesa.
A zanga já foi a marca da geração beat nos Esteites e que se espalhou pelo mundo entre outras coisas na literatura de Jack Kerouac. Entre adolescentes era comum, como se saíssem de linha de produção, essa postura existencial que não encontrava catarse nem nas drogas mais incrementadas como o LSD. Há um pouco de tudo isso nos grupos radicais, às vezes com o diferencial de formas extremas de estoicismo, a paixão pelo sofrimento e o martírio como expressão máxima do bem viver.
Ora, o que predomina na sociedade de consumo é justamente o hedonismo, nada parecido com aquele dos tempos clássicos de Epicuro (a busca do prazer pela prática da virtude), visível na fruição dos prazeres do sexo, de certas formas de arte, mas, sobretudo, do consumo. Só as pessoas mais sombrias, como se estivessem a reproduzir rituais originais dos franciscanos, hoje certamente menos sofridos, apegam-se a isso. Não é incomum vê-las nas manifestações dos sem-terra, como se estivessem decalcando o papel dos seguidores de Antonio Conselheiro. Como eles, atrás de uma utopia retrô, do recuo na história.
O anúncio governamental é uma provocação, nada mais, superficial como o discurso sem fundamentação técnica do pessoal do fórum pró-manutenção da Copel tão endeusada quando jamais foi submetida a qualquer enfoque crítico. Ridículo o papel do PMDB, ao tentar contestar a produção, quando é visível que pelo menos essa caricatura (a de barbudos, truculentos, língua presa) é claramente dirigida ao PT, posto que cada vez mais dominado pelos palatáveis, educados e bem trajados da linha Sameck, Vanhoni, enfim a esmagadora maioria.
AXIOMA
Antes chamavam os petistas de ''petelhos'', seus fundamentalistas de ''petecostais'' e seus radicais de ''petecantropos erectus''. Até os críticos já os aceitam normalmente. Por sinal que muitos já têm um ar de pefelistas
BIZARRICE A Força Sindical tinha programado assembléia-comício na Praça Rui Barbosa ontem para a campanha salarial conjunta e a chuva atrapalhou. Hoje o PMDB promete mostrar na Boca Maldita o vídeo ''A Batalha da Copel'' e pelo jeito entra água na festa outra vez. Deuses contra as ''boas'' causas.
GLOSA Ontem houve o primeiro assalto de ônibus depois da abertura da Ponte da Amizade. Como se vê, o fechamento impedia essas ocorrências, e que agravavam, é claro, o problema social dos assaltantes.
EPIGRAMA No Paraná, o oportunismo político foi duramente castigado: quem fica agora com a filiação do Antonio Belinati, que foi recebido em festa no PFL? Ele não segue a mulher e nem ela a ele. Será que o mesmo acabará se dando com o prefeito Cassio, cuja esposa e filho se filiaram ao PSDB?
SPRAY O presidente nacional do PSDB, José Anibal, achava que a turma que iria ocupar o partido no Paraná era mais ligeira. Viu que não é, e por essa razão transferiu a vinda a Curitiba que deveria ser hoje. - Ontem, durante todo o dia, José Anibal se manteve em contactos políticos em Campina Grande (PB). Otimistas do Paraná achavam que ele estava em Campina Grande do Sul, ao lado de Curitiba. - Os alvaristas armaram uma ''guerrilha'' para dificultar a ocupação não apenas da sede partidária como do espaço: vão ampliar o número de dificuldades formais e que exasperarão, por certo, os ansiosos governistas. - Alvaro Dias está rindo com tudo isso, mas é o último a rir, como frisa o dito popular. Em 94, ele ria, e quem riu por último foi Lerner; e em 98 riu bastante, junto com o governador, graças ao ''acordo branco''. - O PSDB alvarista alega que Hermas Brandão foi expulso do partido por dupla filiação (no PTB também) e que sofreria uma ''capitis diminutio'' para retornar. Brandão nega, afirmando que presidia o PSDB naquela ocasião. - José Carlos Martinez e ex-diretores da TV Independência foram derrotados na ação popular movida pelo ex-deputado Samuel Rodrigues sobre a transação que envolvia a TV Carimã (Cascavel) e os grupos da CNT e de Mário Petrelli no Tribunal Regional de Porto Alegre.
FOLCLORE Segundo fiéis escudeiros do alvarismo no PSDB, o ingresso do situacismo será tão fácil como dominar o Afeganistão.
CROMO De dia as árvores têm gargantas e gorjeiam; à noite o ruído dos grilos.
AFORÍSTICO Conselheiros do Tribunal de Contas não podem fazer política, mas um deles era do conselho político da campanha municipal e agora outro, como ''ponte'', vai acertar as diferenças entre Lerner e Richa. Acerto de contas?
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