Luiz Geraldo Mazza
Não é de agora o viés privatizante do governo, e especialmente de Lerner. Um documento pago pelos cofres públicos municipais denominado ''Uma experiência de planejamento urbano'', constituído por uma luxuosa coleção, transformou-se em material de divulgação do Instituto Jaime Lerner, organização privada que atendia clientes em todo o País.
Quando foi convocado por Leonel Brizola para colaborar com o seu governo no Rio de Janeiro, o caudilho, que hoje chama Lerner carinhosamente de ''Judas'', ajudou indiretamente a promover a ''mobília urbana'' de Curitiba, especialmente o sistema de transporte coletivo. Pois à época, por incrível que possa parecer, o arquiteto registrou a patente de todos os feitos na área do transporte como se não pertencessem ao município e, sim, à sua coleção particular de ''grifes'', fato que foi abordado pela imprensa nacional (''Folha de S.Paulo'') e a local (esta ''Folha'' e ''O Estado do Paraná'').
Pois agora o Estado acaba de doar a marca ''Jogos Mundiais da Natureza'' ao Comitê que organizará a promoção a pretexto de ativar a Costa Oeste. Até hoje reina o mais absoluto segredo sobre a prestação de contas daquela iniciativa cercada de suspeitas de irregularidades, algumas delas apuradas pelo Tribunal de Contas do Estado como o pagamento por obras inacabadas como as do Parque da Barragem e de um modo geral o abandono e deterioração das bases náuticas.
Certo de que uma investigação em profundidade revelará novas facetas da desídia e da corrupção, o governo tem resistido de todas as formas ao mais singelo pedido de informações no Legislativo, e a sua base aliada se eriça ante a possibilidade de a oposição pleitear uma CPI para o caso.
A fronteira entre o público e o privado é tênue demais e a forma como se dá o processo de leilão da Copel valoriza, sobremaneira, um tipo de clientela nas várias sociedades com grupos locais e de fora nas quais a estatal é minoritária nas ações, o que está sendo examinado na Justiça. Mesmo quando hiperestatizado, o poder tem como privilegiar um núcleo de prestadores de serviço e empreiteiros, como sempre acontece. Quando isso se faz sem qualquer cautela licitatória - e esse é o caso das numerosas associações montadas a pretexto de agilizar a privatização e o pós-leilão - tudo se torna mais grave.
GLOSA
O pragmático ex-tucano ao receber a rosa, símbolo do PDT, tornou-se meio poeta e exclamou, lá do fundo da alma: ''Eu, hein rosa?''
BIZARRICE Brizola chamou os irmãos Dias de ''apóstolos dedicados'' e se amanhã houver um revertério, como se deu com Lerner, pode chamá-los de apóstatas. Afinal, o que é um apóstolo arrependido (e tanto Lerner como os Dias já mudaram várias vezes de partido, estes mais do que aquele) se não um apóstata?
AXIOMA O PMDB tentou minimizar a ida de Alvaro e Osmar para o PDT com mais um agito na Boca Maldita que não saiu por causa da chuva. O PMDB, com o quadro mais recente do assentamento das forças políticas, está engripado. Requião ficou prisioneiro da situação que ajudou a criar: corre o risco de virar estepe do PDT com Alvaro para o governo ou a vice-Presidência e mesmo com a hipótese de Osmar na sucessão de Lerner. Se um peemedebista estiver sorrindo, urge verificar se não se trata de sequela de um derrame com um rictus permanente no rosto.
EPIGRAMA Se o governo enfrentou até a operação das esposas de PMs, dá para imaginar que não vai frouxar o garrão com os professores, tanto os do 1º e 2º graus como os universitários. Não tem mais o que perder: já é tão arrasado como o Afeganistão.
Quando Requião era governador houve uma greve de servidores e ele aplicou um ''gancho'' de três dias nos grevistas, o que os inibiu para outras manobras.
SPRAY A cada momento surge uma novidade relativamente à Copel: agora se busca descobrir o passivo ecológico da empresa como forma protelatória do leilão. - De fato, quando das primeiras usinas (e estávamos em pleno regime militar e o papo ambiental não dava liga) nem se falava em Relatório do Impacto no Meio Ambiente (Rima). - Assim mesmo colocamos em discussão nesta ''Folha'' em vários textos e reportagens os problemas que poderiam ser criados na Usina do Capivari-Cachoeira. - Por sinal que no momento da cheia da bacia de acumulação tivemos problemas ecológicos como os decorrentes da formação de algas densas que, por não serem filtráveis, atingiam as turbinas no coração da serra, isso sem falar na mortalidade da fauna aquática. - À época, a Copel fez tentativas diversas para encarar a anomalia, entre as quais a de oxigenação da água por bombeamento e também de combate biológico, que pelo menos foi cogitada. - De 86 para cá o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) exige compensações (5% do investimento em áreas de preservação) e aí a Copel atendeu. Ocorre que juristas da área ambiental acham que a ''licença'' seria renovável de dois em dois anos e aí valeria a imposição da lei recente para as demais 14 usinas.
FOLCLORE Se os políticos e técnicos fizessem no passado tanta cobrança em cima da Copel, certamente ela não teria acumulado tantos defeitos, inclusive o de pretender, muitas vezes, monitorar o próprio governo.
CROMO Inimaginável uma tela de Pancetti de uma praia como Matinhos ou Caiobá.
AFORÍSTICO O governo estadual está na UTI à espera do plasma e do sangue. Dos nutrientes enfim, da Copel.
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