A novela e a vida
Não se sabe ainda qual o final que a novela ''Porto dos Milagres'' vai dar ao prefeito Félix Guerreiro, candidato ao governo da Bahia. A Globo cogitou de uma espécie de ''plebiscito'' na base do ''Você decide'' para ver que decisão o público reservaria para o personagem vivido por Antonio Fagundes na eleição baiana. Convenhamos que a despeito de toda a carga de perversidade e
mau-caráter, não seria impossível de o povo escolhê-lo porque o arquétipo se ajusta ao que estamos acostumados a ver: discurso de moralidade e até religiosidade e prática de corrupção.
Félix Guerreiro ora lembra FHC na história do apagão, ora ACM nas tramas paroquiais, ora Garotinho no apelo religioso. Uma espécie, portanto, de mosaico de tonalidades. Se os políticos não estivessem em maré de degradação iriam certamente condenar a caricatura que a TV Globo, nossa maior expressão na indústria cultural, faz diariamente nesses capítulos da sordidez dos golpes como gravações de fitas e até de vídeos, um usando o artifício contra o outro.
Obviamente, o herói da trama, o pescador Guma, agregador da ''parte baixa'' da cidade (haja alegoria de luta de classses, hoje infelizmente reduzida a isso no mundo, apesar da doutrinação de Erich Hobbsbawn, o comuna que não se verga) vai ser o vitorioso até porque, além do discurso visceral da mudança social, é apadrinhado de Iemanjá. Só que no imaginário da plebe essa visão do Guma acaba favorecendo o PT, posto que Lula, seu símbolo maior, não passe de um político profissional, muito bem pago para isso, afastado das lides obreiras há muito tempo. Capacete e macacão só pra campanha eleitoral, relógio ponto e carteira de trabalho - todo esse mundo claramente exorcizado.
Só nas novelas é que o povo e o pobre levam a melhor. Aí, e é claro, depois da morte na fruição do paraíso e da eternidade. O povo e a pobreza são apenas alegações para efeito de discurso. Para opor-se à tecnocracia de Lerner, por exemplo, o PMDB prometeu uma Curitiba ''Bela e Justa''. A beleza degradou e a justiça, anunciada em discursos histéricos, nunca veio. É sempre assim.
O ADVENTÍCIO Quando o Paraná era uma sociedade extrativa e fechada havia clara resistência ao adventício. Alguns a cultivaram mesmo depois que o Estado já estava urbanizado e, de certa forma, integrado com as ações de Ney Braga. Há um momento, no entanto, em que ''importamos'' figuras nacionais para que disputassem eleições por aqui. Os casos de Jânio Quadros, em 1958, estimulado por Souza Naves, para disputar a Câmara Federal pelo PTB e o do líder Plínio Salgado, da Ação Integralista. Curiosamente, foi o grande momento de Ney Braga e do PDC que encarnava. Jânio, obviamente, saiu à frente com 78.810 votos, seguido de Ney com 57.099 (fato que provocou ciumeira terrível nos que seguiam Munhoz da Rocha, seu ex-cunhado e que o lançou na política, elegendo-o como o primeiro prefeito de Curitiba autônoma), Accioly Filho com 56.392 e Plínio Salgado com 50.628.
A morte de Souza Naves, que facilmente se elegeria pelo PTB ao governo, abriu o caminho para Ney vencer as eleições em 1960 e manter uma dinastia que seria rompida por José Richa, de sua criação também, em 1982 e, de certa forma, retornaria com Lerner, hoje no segundo mandato.
Em 1965, primeira eleição direta depois do golpe militar, tentou-se usar contra Paulo Pimentel o argumento de que era adventício, paulista, por enfrentar uma expressão da oligarquia interna na figura de Munhoz da Rocha. Não pegou em função da energia e determinação de Ney Braga. Paulo foi quem inaugurou o ciclo de governantes do interior, embora seu adversário viesse de Paranaguá. Vieram Richa e Alvaro Dias e depois um metropolitano com Requião.
Curiosamente, a maior figura que o Paraná já teve no governo era justamente um baiano, o conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcellos, que foi presidente do Conselho de Ministros, uma espécie de ''premier'' na monarquia, governador de vários Estados e ocupante de diversos ministérios.
CENTRO DE LAZER Muita gente se espanta com a sofisticação do bordel da novela ''Porto dos Milagres'' e especialmente com o padrão de beleza das mulheres. Londrina, especialmente nos anos 50 e 60, era nesse campo inconfrontável em termos nacionais. Houve uma novela global que, usando nomes fictícios, fez abordagem sobre o tema encarnado por Beti Faria e em cuja biografia, na parte ficcional, havia uma passagem no segundo maior pólo do Paraná.
Laura foi uma dessas figuras que iriam encerrar o seu ciclo na mais elegante das casas de São Paulo, o celebradíssimo La Licorne. Nesse caso, a realidade superou a ficção, com a exposição de mulheres que tinham carros de último tipo e de alta cilindrada. Outra expressão da ficção, e que procuraram imitar, foi o cenário da Boate Bataclan. Londrina extrapolava tudo o que se possa imaginar e com cenas mitológicas como a do avião da FAB que transportou as mulheres por falta de vôos em linhas comerciais.
O ''LIXÃO'' Firmado o consórcio intermunicipal para a localização do Aterro Sanitário que virá com o esgotamento do existente na Caximba, e isso depois da desistência aberta de Rio Branco do Sul, cujo município havia sido indicado pelos técnicos da Comec, há quem pretenda demonstrar, no combate ecológico, que o complexo atual está despejando chorume diretamente no Rio Iguaçu através de um canal que contorna as cavas próximas. Segundo os ambientalistas que examinaram esse material haveria quantidade surpreendente de metais pesados.
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