Luiz Geraldo Mazza
Teatro, o local apropriado
Teremos hoje finalmente no Teatro Fernanda Montenegero, a Lulu Luxemburgo da novela, a apoteose da assinatura das fichas do PDT pelos senadores Alvaro e Osmar Dias. Bem ao gosto do irmão mais velho, a cena ganha um tom claríssimo de metalinguagem como se fosse um comício liofilizado para a mídia.
Claro que todo esse pessoal que rumina o distanciamento do governo estadual há tanto tempo e que se frustrou com as promessas acenadas e não cumpridas do abominado ''acordo branco'' vai estar lá como alguns insistem em permanecer no PSDB para fazer o papel de cavalo de Tróia na agremiação que se prepara para receber as hordas invasoras do Palácio Iguaçu e adjacências.
Vivemos na sociedade do espetáculo (e foi ela que timbrou e absorveu todos os lances da barbárie em Nova York) e especialmente os políticos se acreditam atores do processo brasileiro, alguns shakespeareanos, outros lembrando mais as criações de Molire e até os textos de teatro mambembe.
Aureolado pelo bom desempenho nas pesquisas, o que afinal a essa altura tem significado relativo (basta lembrar que no pleito de 94 Alvaro tinha a média de 60% e Lerner menos de 10%, e depois este lhe aplicou uma tunda em primeiro turno), o senador, hoje privilegiado na mídia por sua atuação na CPI do Futebol, espera fazer desse ato um fator de arranque de sua candidatura e de aglutinação de mais gente no partido de Brizola.
Como o oportunismo é a marca de todos em política, aprestam-se outras legendas em se coligar com um puxador de votos. Só que o PDT, até então singelo, depois da saída de Lerner, vai sofrer um inevitável processo de inchaço, o que deixará bastante irritados os ''históricos'' e que seguraram o partido na debandada do grupo do atual governador. O que poderia significar euforia pode acabar num quadro de depressão.
Há quem veja nisso tudo vantagem para Requião, que está melhor estruturado e disporia de mais tempo no rádio e na tevê. O pior para o governo é que Alceni Guerra, chefe da Casa Civil, quer botar uma camisa-de-força em Cassio Taniguchi, o único situacionista em condições de competir, como vinculado ao PFL, e o proíbe de ingressar no PSDB, além de ameaçar até FHC. Como se vê, não é preciso estar no palco para as cenas hilariantes da política. Renato Aragão já perdeu, há muito tempo, a coroa de maior trapalhão para os palacianos.
BIZARRICE
Segundo o PMDB, o partido lideraria as intenções de votos no Sudoeste, conforme a pesquisa da Geppetto. Gepeto não era o pai do Pinochio? Pinochio era aquele boneco humanizado, cujo nariz crescia à medida que mentia.
AXIOMA O programa eleitoral do PT parecia anúncio do cigarro Hollywood. Se continuar nessa busca de ser palatável, o partido vai repetir o que houve por aqui com Ângelo Vanhoni, que perdeu burramente uma eleição em que fazia o papel incrível de elogiar e aceitar a ''lavagem cerebral'' do lernerismo.
GLOSA Todo mundo quer se abraçar no dinheiro (será que sai?) que a Chrysler vai devolver ao governo estadual. Lerner, sem ouvir outras áreas, decidiu que tudo iria para as estradas, o que agradou, sobremaneira, Nelson Justus, titular dos Transportes. Agora, motoristas e cobradores, vítimas de assaltos em escala frequente, querem a grana para a Segurança; e os municípios, através das suas associações, pedem participação. Em casa que falta pão todos brigam e ninguém têm razão. Como se vê, todo o mundo está matando cachorro a grito.
EPIGRAMA O PMDB continua o mesmo: programou para hoje na Boca Maldita exibição de um vídeo sobre o que chama de ''A batalha da Copel''. O mocinho, é claro, é o senador Requião falando de cima de um caminhão contra Lerner. Enquanto isso, lá no Teatro Fernanda Montenegro haverá a festa de Alvaro e Osmar. Pelo nível dos dois espetáculos e do governo que temos merecemos a posição que ocupamos em nível nacional. Não nos levam a sério. E nem podem levar.
SPRAY Derrota do projeto de iniciativa popular contra a venda da Copel acabou gerando o imobilismo no Legislativo. Não há jeito de haver deliberação em torno dos numerosos projetos da pauta. - Como se não bastasse, alguns deputados da base aliada acusam o governo do não cumprimento de acordos, o que aliás é uma tradição. - Com o bloqueio à proposta do plebiscito, Câmaras Municipais estão programando sondagens que não têm qualquer valor legal e muito menos alteram o quadro. Se visam desgastar o governo perdem tempo. Não há mais como baixar a sua taxa de credibilidade. - Quem tem mais Ibope: o Leonel Brizola, que vem aí para a festa dos irmãos Dias, ou o vídeo do PMDB na Boca Maldita? - É o que se vai apurar, pois na Boca Maldita ninguém mais aguentava o carro de som e a discurseira, embora a maioria esmagadora tivesse posição contrária ao leilão. - Nelton Friedrich, comandante do Fórum Popular, um dos ocupantes do microfone em toda a onda, deve ir para o Teatro Fernanda Montenegro como brizolista que já serviu Lerner e o fará certamente com os irmãos Dias que ficarão dominando a legenda.
FOLCLORE Conversa de políticos com dupla interpretação:
-Indicado ao governo você disputa?
-Digo, claro que digo.
CROMO Chove: as estátuas choram na praça, as ninfas do repuxo vibram.
AFORÍSTICO Cada vez é mais apropriada a frase de que a política é algo parecido com as ruas suspeitas e que comprometem os que nelas passam.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.





