O universo dos frasistas
Há um dado comum entre Roberto Requião e Jaime Lerner: o amor à construção de frases. Em Lerner, a piada é amena sem ser cáustica. Já no senador é impossível qualquer contenção. Ele consegue fazer uma blague sobre a aliança entre o PPS e o PTB de Martinez incrível: ''O enlace entre a Coluna Prestes e o pistoleiro Ferreirinha.'' Ora, o Ferreirinha, que de fato existiu e estava vinculado às ações da colonizadora da família Martinez, foi um empulhação teatralizada e que se constituiu no maior, pelo menos até agora, estelionato eleitoral da história paranaense. Para construir a piada, o senador isolou a sua condição de beneficiário com aquela farsa que determinou a sua cassação temporária e que no mérito até hoje não foi julgada ''por perda de objeto''.
Lerner é mais refinado. Porém, às vezes, a caricatura é contundente como ao comparar, em termos de elegância no vestir e no postar-se, o senador Alvaro Dias como um ''maitre'' de restaurante de estrada. Ainda recentemente, Roberto Requião, falando sobre Alvaro e a sua insistência em que o candidato do PMDB (se nele ingressasse) deveria sair de uma pesquisa, houve a afirmativa de que esses Ibopes seriam tão verdadeiros quanto os cabelos do senador proponente.
Mexer com o aspecto das pessoas, se calvo ou gordo, é recurso primário, mas inevitável. Dá para lembrar da acidez de Carlos Lacerda ao referir-se a um ministro de Café Filho, Napoleão Alencastro Guimarães, e que aparecia na lista dos mais elegantes: ''Tem a postura de um senador romano e o cérebro de Primo Carnera'', um italiano desengonçado a quem deram o título de campeão mundial de box. De todos os campeões de saques dessa ordem, ninguém supera Emílio de Menezes, que fez o epitáfio de um orelhudo (e olhe que nós os temos aqui em nossa política nos dias atuais) metido a conquistador e que teria levado uma surra de um marido inconformado. Estava lá na quadrinha ''de uma orelha fez a cova e de outra fez a tampa''.
Certa ocasião, num local público (Casa Romário Martins, em Curitiba), Lerner fez maldade com o jornal ''Correio de Notícias'' que estava naufragando. Ora, para qualquer jornalista a morte de um jornal, abstraindo-se a competição, é um drama. Mas Lerner tascou: ''Era um jornal standard que se transformou em tablóide e só não virou selo porque não colou.'' Irritado, embora nada tivesse a ver com o jornal aquele tempo, repliquei: ''Quem nasceu para Jaime Lerner jamais será um Jaime Ovalle.'' Ovalle, poeta, amado pelos intelectuais do Rio, era um frasista excepcional, humano e cristalino.
AXIOMA
A Ponte da Amizade novamente bloqueada, agora com o cerco de milhares de brasileiros que podem perder o emprego em Ciudad del Leste, tem tudo para mudar. É a Ponte da Discórdia e do Desencontro
BIZARRICE Tony Garcia jantou com o Tony Garotinho e já se imaginou socialista. Ele poderia ingressar no partido triunfalmente com um macacão obreiro, capacete da Copel na cabeça e um celular ao ouvido para grampos. Para manter a autenticidade e dar o contraponto, ele entraria na festa com a sua já famosa e reluzente Ferrari.
GLOSA Falava-se ontem na Assembléia Legislativa que o governo tinha dado um novo calote nos deputados: as promessas lembram uma promissória que só vence depois do leilão da Copel. Cada vez que isso acontece, Ingo Hubert some.
EPIGRAMA O senador Alvaro Dias pretende entrar no PDT, mas deixando o PSDB como uma Chechênia, um terreno minado. Evita o autoritarismo de Requião ao qual não deseja subordinar-se e fica sob o comando do caudilho Brizola.
SPRAY A cidade pode subordinar-se a empreendimentos privados? Não devia, mas isso em Curitiba é a regra. Sobre o assunto já houve até tese universitária, hoje transformada em livro, do professor Dennisson de Oliveira sobre as vinculações do poder econômico nas decisões do lernerismo em Curitiba. - Pois agora o empresário Salomão Soifer, cujo shopping condicionou decisões urbanísticas, especialmente circulação, quer construir passarela sobre a Mateus Leme (incentivo construtivo em função de doação de área que pertencia ao moinho no Rebouças) para acesso a um novo estacionamento. - Aliás, essa é uma constante na proteção a unidades escolares e a supermercados como se esses fossem os valores prioritários da cidade. - Podem ocorrer acidentes de percurso na privatização da Copel em decorrência de fatores externos, segundo analistas de mercado. Um fato será inevitável: o ágio cai e isso tem a ver com as torres de Nova York, como se admite. - A ansiedade de Lerner também tem explicação: se não vender a Copel fica enredado nas malhas da Lei de Responsabilidade Fiscal como o Absalão bíblico guindado pelas melenas nos galhos de árvores. - A ida de Alvaro e Osmar Dias para o PDT aborreceu Requião: tira poder de fogo do ex-velho de guerra que tentava aliciar os senadores. Esvazia o potencial e faz de Requião um candidato ao risco, seja ao Senado ou ao governo. - Depois de onze anos, no dia 28, no Tribunal Regional de Porto Alegre será apreciada uma ação popular contra a venda da TV Carimã de Cascavel para o Grupo Martinez e depois transferida à TV Independência. Tem assinatura de morto na parada. O relator do feito é o juiz Eduardo Picarelli.
FOLCLORE Cogita-se de nominar juízes do antigo Tribunal de Recursos de desembargadores federais. Apropriado, pois que são os deputados em Brasília se não vereadores federais ou até despachantes em maioria?
CROMO Batizar criança com água do Iraí leva jeito de sacrilégio.
AFORÍSTICO Alvaro e Osmar são do socialismo moreno desde criancinhas.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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