Luiz Geraldo Mazza
A sessão de ontem da CPI da Telefonia mostrou, uma vez mais, o quanto se pratica de hipocrisia no cotidiano. Todo o mundo está cansado de saber que tanto a Polícia Civil como a Militar operam em estreita colaboração com os empresários, especialmente aqueles mais visados pelo crime como os bancos. A tentativa de negar que houvesse a cessão de PMs para fazer grampo no HSBC é insustentável como de resto o próprio Banestado só chegou a descobrir o que a gangue oficial aprontou na Leasing através de um escritório de detetives que usou largamente a censura dos telefones para chegar aos resultados obtidos.
Claro que em termos de imagem, até a idéia de uma P-2 soa desconfortável, mas que se trata de uma necessidade de qualquer regime por mais aberto que seja ou pareça. Aliás, com a paranóia que se seguiu ao ataque terrorista em Nova York já se iniciaram as medidas restritivas da liberdade, inclusive na imprensa, e de repente a emenda que a garantia como cláusula pétrea ''dança''. Tudo é uma questão de parâmetro, pois é sabido que os sistemas de controle naquele país são mais sofisticados do que os de previsão de atentados.
No Brasil, ao contrário dos Esteites, somos mais acostumados à supressão das liberdades, daí porque não temos a noção de equilíbrio entre os princípios da autoridade e da liberdade que afinal se completam. Percebe-se no dia-a-dia brasileiro que movimentos sociais (sem-terra, estudantes, sindicalistas) perderam a noção dos limites impostos pelo convívio democrático e daquilo que a legalidade impõe no Estado de Direito.
É uma fase que decorre de uma ruptura (a derrubada do regime militar) e que terá acomodação numa sociedade melhor posicionada. Convenhamos que hoje a liberdade está mais na moda do que a autoridade. Certos excessos como o da ocupação de prédios já não sensibilizam por sua manifesta inocuidade bem como as greves do setor público que se tornam vulgares e banais, perdendo a mística que a aponta como ''ultima ratio''.
No caso dos grampos houve extrapolação: vigiar sindicalistas é recurso primário dos anos de chumbo e aí a autoridade se excedeu no zelo em defender um interesse privado. Aliás o maior problema brasileiro é delimitar as lindes do público e do privado, causa de todas as negociatas, locais e nacionais.
BIZARRICE
Alvaro Dias marcou para sábado no Teatro Fernanda Montenegro a sua assinatura na ficha de um partido. Poderiam chamar o espetáculo, na base do teatro do absurdo, de ''Esperando Godot'' ou então a pirandeliana ''Seis personagens em busca de um autor'' que parodiaria a situação das legendas correndo atrás de um sem partido, com muitos votos e até ''ex-votos''
AXIOMA ''De fato, se um só homem da aristocracia queixou-se abertamente de que você, ao decretar que 'não se aprovaria dinheiro para os jogos', tirou dele 200 mil sestércios, então quanto dinheiro não seria gasto, se o montante de todos os que promoveram jogos em Roma fosse restituído, prática que já havia sido adotada?!'' Carta de Marco Túlio Cícero ao irmão Quinto Túlio que liberou a Ásia do imposto edilício sobre os jogos. Depois não querem que se idealize o passado: imaginaram uma carta dessas de um Algaci Túlio para outro sobre os Jogos Mundiais da Safadeza? Dá para calcular quantos sestércios foram despendidos na festa da Costa Oeste no primeiro governo Lerner.
GLOSA Para evitar o golpe de malandro de parque na votação do plebiscito da Copel, Hermas Brandão colocou a condição mínima: a oposição arrumar 28 votos. No Brasil, como dizia aquele democrata radical, é mais fácil mudar o regime do País do que um Regimento Interno do Legislativo.
EPIGRAMA O PT, com suas eleições internas, provou, apesar de todos os riscos, que a melhor terapia para os conflitos está na democracia e nos votos. Se continuar, porém, tentando fazer o palatável o tempo todo, ao chegar ao poder, estará reluzente e gordinho que nem o PFL.
SPRAY Alvaro Dias ganhou mais um round na sua guerra contra o PSDB nacional: a 4 Vara Federal lhe concedeu liminar contra o funcionamento da comissão provisória. Que está, provisoriamente, fora de campo. Essa vai longe. - E o senador Requião assestou mais uma frase bem no seu estilo: a de que as pesquisas seriam tão verdadeiras quanto os cabelos do senador Alvaro Dias. Ao não se poder enfrentar uma realidade, faz-se uma frase que, mesmo quando espirituosa, expressa apenas impotência. - Se há um empresário no Paraná beneficiado pelo governo é Salomão Soifer: o Shopping Mueller é uma agressão a regras de urbanismo, política de usos do solo e à lei das unidades de preservação. Pois bem: agora há assaltos e sequestros no estacionamento daquela organização. Um deles, ainda ontem, denunciado na CBN Curitiba. Nesse caso que o governo deveria agir não o faz. - Mas há um outro em que ele, governo, omite-se que é o caso de uma edificação histórica, atrás do shopping, que foi até Palácio Episcopal. Hoje é sede de um nominado Jockey Club Carazinhense que explora jogos eletrônicos e que está no complexo pertencente ao mesmo empresário que também é dono do parque de contêineres do Porto de Paranaguá e titular da exploração do Parque Nacional do Iguaçu.
FOLCLORE Antes que Onaireves Moura e o próprio Lerner tentassem faturar, isolados, a manutenção do jogo do escrete nacional no Couto Pereira, Alvaro Dias, como presidente da CPI, também fez a intervenção em igual sentido. As anteriores dele privilegiaram o Atlético, de quem se diz torcedor, e agora uma acariciada no Coritiba pega bem. E nos coxas não vai nada?
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