Curitiba é tão pobre em monumentos que quando constroem um dá guerra. Assim foi com o gigante nu da Praça 19 de Dezembro (mestre Raul Rodrigues Gomes chamou-o de obscenonstruosidade), com o cavalo vomitador na frente da Igreja do Rosário, com os anjos bailarinos e agora com o representativo dos 500 anos, de Sérgio Ferro.
Apesar da irritação de alguns intelectuais quanto ao fato de pretenderem figurar no homem nu o ''paranaense'' e cuja postura lembra a de um jogador de palitos (''porrinha'') já que mantém as mãos fechadas para trás como quem guarda importantíssimo segredo, a cidade o acabou acolhendo e de tal forma que tanto o Coritiba, este obviamente por mais vezes, como o Atlético, já o vestiram com a camisa e a faixa de campeão.
Uma das inutilidades da bronca (e esse pessoal da área cultural é sensitivo como a planta e se eriça com a maior facilidade) é discutir essa questão dos privilégios a esse ou a aquele artista. Assim foi até na Renascença, sempre com os seus mecenas. O Sérgio Ferro, curitibano que mora em Paris, seria o autor, e logo alguns concorrentes, a maioria sem o talento do escolhido, chia. Esse artista é a um só tempo um clássico no rigor da forma como moderno no emprego de elementos abstratos que valorizam o conjunto.
Ora, um grande artista, nome nacional, o Poti, era um desses privilegiados e às vezes até com exagero que prejudicaram a qualidade dos seus murais e painéis pela frequência com que aparecem em Curitiba como aquele meio forçado na Praça das Nações ilustrando a caixa d'água do Alto da Rua XV. Banalizar um estilo, uma concepção, é o risco da mesmice. No Centro Cívico, um mural do Rogério Dias (que no caso esqueceu do monotemático passarinho) é muito rico em cores e formas e surpreende pelas dimensões, uma vez que o artista entra nessa pela primeira vez e com bom desempenho.
O que precisava ser discutido em Curitiba é a arte kitsch de edificações modernosas, apesar dos efeitos visuais que produzem. O empenho em ''vender'' esse estilo é de tal ordem que o time de Jaime Lerner tentou forçar a escolha do Jardim Botânico na condição de símbolo da cidade. Graças à reação do pessoal da Universidade Federal (a reação foi dos ex-alunos, do repórter Cid Destefani, do jornalista Cunha Pereira e alguns radialistas) o monumento destacou o prédio histórico. A vontade do poder teve que ser partilhada, mas normalmente não é assim.
A cidade é pobre em monumentos, e Rafael Greca foi um dos que mais contribuíram para melhorar esse aspecto, posto que de discutível gosto como no caso do Farol do Saber e acertando na reforma do Cemitério Municipal, ainda que lembrando um café-concerto, valendo, no entanto, pelos fragmentos poéticos e a escultura da ''Pietá''. Prejuízo no painel de Franco Giglio, cujas pastilhas continuam a evidenciar que a obra de arte degrada como o corpo.

MODISMO A barbárie dos pilotos suicidas em Nova York parece ter deflagrado por aqui o apego ao vandalismo. Houve quem prometesse queimar o monumento dos 500 anos do Brasil, valendo-se do fato de que será de madeira. Deveriam bater com cassetete de madeira na cabeça desse tipo de crítico de arte.
Na reação de vereadores oposicionistas, o primarismo de lembrar o rigor das prioridades quando a grana do projeto é ''carimbada''. Outra coisa: o mundo do homem não é só comida e trabalho. Lembro de uma foto na capa do ''Estadão'' em que aparece a madona etíope na tragédia da fome coletiva, a criança quase morta grudada aos seios esgotados. Ela exibia um objeto de adorno no pulso. Para os ''racionalistas'' seria um desperdício.

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