Luiz Geraldo Mazza
Hora das câmaras municipais
Houve um momento, na história de Curitiba, em que um vereador, revoltado com a alta dos preços, pronunciava um discurso contra aquele absurdo, e mereceu, num aparte, a explicação de que aquilo decorria da Lei da Oferta e da Procura. De imediato ele teria reagido mais veemente ainda perguntando o que estavam afinal fazendo ali naquela Casa de Leis que não a revogavam?
É mais folclore do que realidade, mas pertinente diante da insistência de vereadores, na ânsia de ampliar seus espaços legislativos, perderem a noção dos limites da instância em que atuam, pretendendo até mexer em normas de caráter nacional. Incrível que não exista nas câmaras gente capacitada em suas bases burocráticas, procuradoria por exemplo ou órgão equivalente, para filtrar esses absurdos.
Pois agora o vereador Jair César quer, com a melhor das intenções, impedir que menores façam tatuagens ou se adornem com ''pierce'' sem autorização e a presença dos pais e isso em lei municipal. Matéria comportamental dessa ordem numa sociedade mutante não pode ficar adstrita ao âmbito do campanário.
Ademais, há o desconhecimento da parte do sensível legislador sobre a extrema dificuldade de impor um ordenamento familiar que já foi revogado pela praxe, ainda que se tenha a máxima razão em condenar as novidades. Os pais já não controlam os filhos adolescentes (ao contrário, deseducam-nos, como de certa forma também os professores) e não será uma postura municipal, isolada, posto que pedagógica, que vai resolver a pendência.
Não é por falta de leis que andamos mal nessas questões. O Estatuto da Criança e do Adolescente está aí com todas as suas generalizações codificadas se revelando impotente para chegar ao ''vir a ser'' desejado da máxima harmonia e do respeito a essas faixas etárias. Ademais, o que a televisão mostra é em sentido contrário, adverso, bastando lembrar a apologia do abominável feita ainda recentemente na série global ''A Presença de Anita'' com a exaltação de uma ninfeta com fúria uterina.
Um discurso, uma mesa-redonda, debates com educadores e pais, seriam mais úteis do que o projeto, mesmo que se reconheça que o seu enfoque já permitiria uma abordagem em cima de um assunto menos relevante do que tantos outros como a tragédia dos menores abandonados, das gangues, do tráfico de drogas que os utiliza. Aliás, normalmente se mimetiza, disfarça-se demais o problema: faz-se uma cruzada, por exemplo, contra o trabalho infantil, quando um deles e dos mais aberrantes está aí à frente na prostituição das crianças e adolescentes, hoje motivo até de pacotes específicos de turismo em alta escala no País.
BIZARRICE
Como dizia o mestre Carlos Drummond de Andrade: ''Enquanto o poeta estadual discute com o poeta municipal, o poeta federal tira ouro do nariz''
AXIOMA Rafael Greca, aborrecido com a reação de alguns vereadores, ao monumento dos 500 anos, que custará mais do que o projeto do novo traçado das linhas férreas, reagiu: ''São vozes dissonantes das trevas.'' Se eles são as trevas, o Greca certamente é a luz, valorizada com a falta de energia.
GLOSA Hermas Brandão, presidente do Legislativo, ao ser perguntado por que atendia a tantos políticos, respondeu que como almoçou com Ciro Gomes ontem poderia fazer o mesmo com Lula amanhã.
Bem melhor que a maioria dos políticos que ''almoçam'' um adversário possível para evitar que sejam ''jantados''.
EPIGRAMA Começa no Paraná a reengenharia do tucanato regional: sai o haulicismo e entra a vilania.
SPRAY O novo ''teaser'' de Curitiba agora é ''social'', o que é mais apropriado do que a ecologia porque essa, sem levar em conta o homem e suas relações com o meio, é retórica. - O pior é que o timbre ''social'' se revelou ontem, na sequência do despejo da Vila Audi, pura retórica: os invasores foram removidos para Contenda onde não havia nem um sistema para assisti-los e relocá-los. - Curiosa é a decisão prefeitural de fazer o despejo quando se mostra frouxa com invasão da área de preservação dos mananciais, como se já não bastasse a sordidez da Represa do Iraí. - Esposa do Teixeirinha, aquele líder sem-terra morto em Campo Bonito, pode receber indenização antes de iniciar-se o processo em torno do fato em si, com quatro mortes (o líder do MST e três PMs). - Se depender do vice-presidente do PMDB nacional, deputado federal Cesar Schurmer (RS), o diretório do Paraná vai ter dor de cabeça ao insistir em fazer o papel de dissidência. - Pelo jeito, o senador Alvaro Dias deveria ter informações privilegiadas ao alertar Requião sobre o risco de enfrentar crise parecida com a do PSDB local. - Usuários da Estrada da Graciosa se queixam do excesso de trechos em reparos. E alguns, mais revoltados, atribuem o fato a uma imposição para que se use a BR-277 pedagiada nos deslocamentos do planalto ao litoral. Pode ser paranóia, mas irrita.
FOLCLORE Adeptos de José Richa, preocupados com a paranóia em Nova York contra os árabes por causa da ação terrorista, sugerem que ele faça plástica no nariz para evitar constrangimentos. Afinal, eles não sabem que Richa é apenas turco lento e não um truculento como muitos dos seus adversários no Paraná.
CROMO Se Pablo Neruda nos deu a noção sensorial, de cheiro, forma e gosto, em sua ''Ode à Cebola'', haverá algum mineiro que cante o pão de queijo?
AFORÍSTICO Depois de Nova York e outras, será difícil falar em amor.
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