Luiz Geraldo Mazza
O fim da história
Quando da queda do Muro de Berlim não poucos analistas, dentre eles Fukuyama, simplificando o nó dialético de Hegel, teorizaram sobre o fim da história. A crença de que a Guerra Fria se esgotara acaba se fundando numa visão bem acomodada da sociedade militarmente hegemônica, diga-se a regida com a maior tranquilidade pelos Estados Unidos da América do Norte. Os inusitados eventos de ontem causados pela ação terrorista em vários pontos daquele país, simplesmente mostram a inutilidade da soberba militar e a vulnerabilidade de um sistema de segurança que no caso independeria de uma rede de antimísseis, de aparatos, enfim, da Guerra nas Estrelas para neutralizar a ousadia.
O fundamentalismo religioso, manifeste-se onde se apresentar, é uma arma de um potencial muito maior do que o de todos os equipamentos bélicos à disposição das chamadas grandes potências. As cenas repetitivas dos atos de retaliação de Israel contra os palestinos, a impotência dramática de usar pedras contra armas sofisticadas nos distúrbios, têm servido para aumentar o ódio na região e com isso acumular energia para ações cada vez mais ousadas e temerárias como as que alcançaram o feito máximo como obra-prima de horror. Um aviador suicida (e dos camicases da Segunda Guerra Mundial com os aviões ''Zero'' de lá para cá evoluíram de uma forma exasperada) dribla qualquer rede de segurança e torna inúteis os antimísseis.
O terrorismo não tem analogia com a guerrilha que tantos problemas criou para os Esteites no Vietnã. A guerrilha é uma luta de movimentos e, de uma certa maneira, também informal, mas centrada em outro código. Já o terror, sob qualquer das suas formas, é a barbárie revelada. A Itália soube combater as Brigadas Vermelhas e também a Máfia e tudo dentro da democracia. Agora, no caso específico das ações ontem desencadeadas, isso não vai acontecer porque se trata de ataque externo e provavelmente redundará em retaliação, bem ao estilo ianque, e que apenas acentuará o caráter ''santo'' e depurador de novas empreitadas extremistas e covardes, ainda que produza, para os fanáticos, mártires a caminho da transcendência na eternidade, o que é anedótico.
BIZARRICE
Um dos conselheiros de Lerner, ao comentar o terror havido, viu o seu lado interessante, segundo uma anedota da praça: ''Depois do sequestro de Silvio Santos, esse é um acontecimento mais forte para tirar a Copel de foco''
AXIOMA Há uma compensação em ser brasileiro: aqui o puxa-saco é o mais temido dos terroristas para os chefes de Estado, porque pode levar seu ritual ao pé da letra e no agrado à autoridade atingir a raiz do problema.
GLOSA A Électricité de France (EDF) saiu à francesa do leilão da Copel. Como é também estatal, deve estar sabendo por que o faz.
EPIGRAMA A cada paralisação da produção das montadoras no Paraná, haja ou não férias coletivas, o governador terá que vir à cena para dizer que tudo aquilo é provisório. Só que o seu governo, pelo peso, parece permanente.
CORÉIA Que coincidência é essa de o governo paranaense, via Polícia Militar, comprar jaquetas (lembram da onda criada por causa do adiantamento ao importador?) e depois as motonetas, de baixa utilidade, da Coréia?
SPRAY ''O mundo hoje mudou'' dizia ontem o Guilhobel Camargo, estudioso de situações apocalípticas, lembrando o trecho da profecia de Nostradamus sobre a cidade nova que amanhece em chamas. - Na verdade o mundo muda todo o dia, apesar de os fatos de ontem terem maior expressão do que o ataque a Pearl Harbor pela aviação nipônica na Segunda Guerra Mundial por causa do aspecto alternativo, terrorista, de toda a operação. - Ficou evidenciado que a malha de segurança dos Estados Unidos é pior do que o ''tigre de papel'' a que Mao Tsé-Tung se referia sobre a essência do capitalismo. Isso já se evidenciara na tragédia de Oklahoma City, obra de um voluntário também, que destruiu um prédio federal e matou centenas de pessoas. - Acertando símbolos do sistema de poder americano como o das torres geminadas em Nova York e o Pentágono, bem como o Capitólio, em Washington, a ação terrorista paralisou o mundo e seus efeitos são inimagináveis, pois nem a extensão dos prejuízos materiais e humanos foi possível contabilizar. - Placa no Calçadão de Morretes ao lado do Rio Nhundiaquara: ''Somente quando for envenenado o último rio, cortada a última árvore e morto o último peixe o homem se dará conta que não poderá comer dinheiro.'' Segue o alertamento: preserve a natureza.
FOLCLORE Um dos brasileiros que estavam em Nova York ontem no meio da tragédia era José Richa, ex-governador, um dos escalados para a tropa de ocupação do PSDB regional. No meio da tarde foi concedida liminar na 1 Vara Cível de Brasília em favor do também ex-governador Alvaro Dias para que o diretório nacional se abstivesse de ações, especialmente contra o senador sob o fundamento de que houve cerceamento de defesa e de que a matéria (a expulsão) não estava pautada e muito menos o ex-dirigente havia sido intimado. Para os ansiosos que já contavam com a ocupação do diretório regional, o episódio não foi um traque baiano diante da tragédia nova-iorquina.
CROMO Na tevê, o dia inteiro a fumaça tóxica do drama em Nova York. E lá fora, como contraponto, o trinado da sabiá-laranjeira negando o fim do mundo.
AFORÍSTICO Até agora, sob estupor, o mundo se mantém sonâmbulo.
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