Luiz Geraldo Mazza
Uma queda anunciada
Vamos raciocinar sob hipótese em função do que ''pintou'' no noticiário desta semana: admitamos que junto com o fechamento da Chrysler de Campo Largo viesse em seguida o bloqueio à venda da Copel ou pelo menos a sua protelação para outras calendas em função de decisões administrativas e judiciais. Dava para repetir a piada clássica do sujeito que cai do 25º andar e ao passar pelo 10º admite, silogisticamente, que até ali tudo estava nos conformes.
Não há ato sem risco da mesma forma que inexiste remédio sem efeito colateral ou choque anafilático. Ao apostar na abertura da economia, enxergando apenas o lado positivo desse cosmopolitismo desgarrado, o governador não esperava que, em curto prazo, o modelo adotado de criar todas as facilidades para a instalação das montadoras (oferta de área, recursos de infra-estrutura, subsídios fiscais, dilação tributária) oferecesse para a oposição um argumento tão forte. Se as férias coletivas dos trabalhadores e também as demissões, que não foram poucas, decorrentes de pressões conjunturais de mercado, já se constituíam num fantasma a negar a ida do proletariado ao paraíso havia agora razões bem mais pesadas.
Enquanto a oposição rolava de rir, já que estava com uma paranóia tremenda de que com a ''bufunfa'' da Copel o governo se recuperasse, quem iria sofrer para valer seria o funcionalismo estadual que na certa entraria numa etapa de vacas magras com atrasos de salários, o que perto de fim de ano é dramático, fato já evidenciado na sinalização do atraso enorme no pagamento do terço das férias dos barnabés, pagos a longuíssimo prazo.
Com a Chrysler fechada, mas o leilão da Copel mantido, ainda haverá bala na agulha da situação e em generosa disponibilidade, capaz de devolver a euforia à base aliada, transferindo-se a síndrome depressiva para a oposição.
APELIDOS 1 Na semana passada, falei sobre essa característica litorânea, não apenas parnanguara, de apelidar. O tema é atraente e justificaria um ensaio. Claro que há muitos dos casos com características folclóricas e que aparecem, ao mesmo tempo, como ocorridos em lugares diferentes. Um deles é a história da aposta que um sujeito fez no sentido de que não levaria apelido e permaneceu, durante um dia praticamente inteiro, a olhar, de vez em quando, da janela do hotel em que se hospedara para a rua e dar uma panorâmica na praça e ver se alguém o observava. E foram tantas as vezes que tirou e colocou a cabeça para fora da janela que virou o ''Cuco'', o passarinho do relógio.
Sujeito com bexiga no rosto é o ''Reboco de Igreja Velha''. O nosso ás da fotografia Kraw Penas, da nossa brava gente, está a serviço no Estádio Nelson Medrado Dias, na Estradinha, em Paranaguá, e é chamado de ''Vera Verão''. Um goleiro do Rio Branco, conformado com a própria feiúra, faz treinamento em saída de gol e de repente perde completamente o equilíbrio, pois um gaiato o marcou com um dos mais terríveis e apropriados apodos ''Brinquedo Assassino'', aquele da série de filme de horror da televisão.
APELIDOS 2 Há também apelidos de mau gosto e que seriam inaceitáveis hoje com a busca do ''politicamente correto'' como o do ala da seleção de basquete de Ponta Grossa, meu contemporâneo de universidade, baita jogador e figura doce, o Elias, e que por causa da sua condição de negro era ''Chiclete de Onça''. E outros ainda que mexem com defeitos físicos como o de ''Apaga Rastro'' para o cidadão que puxava uma das pernas ou o de ''Jacu Mal Atirado'' para o que sofrera um derrame e ficara com sequela grave condenando um dos braços.
O cara com problema de motricidade e que arrasta os pés ao se movimentar na rua corre o risco de ser provocado ''Perdeu o skate?''
O apelido, mesmo quando impiedoso, acaba absorvido. Como se dá com o caso do Coritiba que aceitou o ''Coxa Branca'' com normalidade para suavizar a sua origem germânica, apesar da eclosão dos ódios da Segunda Guerra Mundial. E assim o ''Porco'' do Palmeiras e por muito tempo o caso do ''Boca Negra'' o apelido da torcida do Ferroviário e do Colorado que precederam o Paraná.
É que ''Boca Negra'' foi uma tribo com sinais possíveis de antropofagia dos anos 50 e 60. Coxas e atleticanos assim tratavam o seu concorrente. Aí um artista gráfico fez um bebê índio, de traços delicados, com um ossinho humano adornando-lhe o pescoço, e a torcida ratificou o apelido. Aceitou-o com ternura.
SAUDADE Curitiba não tinha quero-quero nos anos 40, mas também não havia sabiá dando sopa nas ruas e jardins como agora. A casa dominante, mesmo nas imediações do centro, era de madeira. Havia quem tomasse banho no Rio Belém onde o escritor Dalton Trevisan, em crônicas surreais, falava de uma coisa, ainda aquele tempo concreta: os lambaris de rabo vermelho.
A temperatura era em média uns 7 graus mais baixa e geava até em setembro. Isso não nos impedia de tomar banho, após a saída da aula de ginástica do Ginásio Paranaense (os mestres eram o Custódio, beque do Britânia, e o Heredia Navarro, que nem sabíamos que era poeta), no tanque do Grega (ou Greca) que ficava mais ou menos no local em que hoje se ergue o Parque Pinheiros.
Numa tarde carregada, magnetizada, no campo do Paraná, Centro Cívico, onde estão a prefeitura e o Tribunal do Júri, peguei uma sucata da Fundição do Mueller, que era lançada nas imediações, e joguei para o espaço, tentando o movimento de bumerangue. Entrei em pânico: um mini raio coriscou o espaço e derrubou aquele imaginário disco voador, não existente nem em Flash Gordon.
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