Apanhamos do Maranhão



Até hoje, volto a repetir, nem Ney Braga, que foi a nossa maior figura dos últimos 50 anos, teve as condições de Jaime Lerner como expressão nacional para encarnar uma liderança possível de alcançar a presidência ou a vice-presidência da República. Ninguém jogou fora, dispersou tanta energia e potencial com uma prodigalidade compulsiva como o nosso governador.

De Lerner se pode dizer que foi o anverso do Midas, aquele rei que tocava nas coisas e as transformava em ouro. Na verdade, ele tem sido o anti-Midas, pois pega em ouro e o transforma em coisa.

Não fosse o seu desastrado governo e o desgaste que se acentua em cima de questões como a do leilão da Copel ou essa adversidade que foi a retirada de campo da Chrysler, aliás há muito tempo esperada, certamente seria um nome na galeria do PFL em condições de comandar ou subcomandar uma chapa nacional. Só um insensato acharia que alguém como Roseana Sarney, a despeito do prestígio interno inegável, teria melhores condições do que Lerner em termos normais.

Lerner jogou fora um trabalho de longo prazo, dentre eles a mitologia, com algum assento na realidade, do grande urbanista, do adequador de cidades, que o favorecia em escala nacional. Quando se aproximou de Brizola para cuidar de uma possível reengenharia do Rio ou tratar do ano 2000, percebeu-se o quanto ele acumulara de prestígio entre intelectuais e boêmios cariocas por força das iniciativas que tomara em Curitiba e para as quais os convocara, dentre elas as celebradas e imaginosas ''Parcerias Impossíveis''. A turma do Pasquim era uma das bandas de música de Lerner, isso sem falar na corporação tanto dos arquitetos como de engenheiros, áreas politizadíssimas.

Isso também gerava ciumeira no festivismo do Rio de Janeiro e de certa forma serviu para bloquear espaços de Lerner. Lembro que ele ficou num escritório, no qual não dispunha sequer de um mínimo de condições materiais para trabalhar.

Militares, especialmente, botaram muita fé em Lerner e Saul Raiz, que eram apontados como exemplos de renovação, juventude e competência dos novos quadros que a conjuntura revelava. Quem hoje vê o seu governo terminar antes do tempo e de forma melancólica, não pode atinar como perdeu uma oportunidade tão preciosa para tirar o Paraná da mediocridade com que tem sido tratado.

Lerner apostou demais na ideologia da moda, quanto tratada como fundamentalismo, o novo cosmopolitismo: jogou pesado e agora caminha para o ostracismo se não tivermos algo como um milagre com a derrama de dinheiro da Copel, cujo valor mínimo para o leilão é apenas mais um escândalo dentre tantos, uma rotina, o respirar normal desse ciclo em exaustão.


AFORÍSTICO


A oposição pensa que a fúria basta. Esse o seu limite


BIZARRICE O governo paranaense está preocupado com um feito da avicultura: as galinhas estão botando mais ovos do que o normal, batendo todos os recordes. Com isso há mais oferta de matéria-prima para hostilizar o governador e os seus secretários em suas andanças pelos novos caminhos. Terno amarelo, pessoal. Daí o hábito funciona como o avental branco para o pessoal da área de saúde.


AXIOMA Se o PSDB regional for entregue ao Hermas Brandão, como se anuncia, oferece-se um argumento forte aos resistentes porque estaria evidenciada a opção pelo lernerismo. Isso não anula o fato de que os alvaristas colocam o campanário acima da estratégia nacional do partido, o que é um absurdo.


GLOSA Quem disse que políticos não ousam aparecer no centro de Curitiba é porque está por fora. Ainda ontem deu para ver dois deles na Cruz Machado, só que fartamente despistados de ''drag queen''.


EPIGRAMA Afinal esse estilo durão do PSDB nacional não lembra um pouco o que os senadores Alvaro Dias e Roberto Requião aprontam por aqui no que diz respeito aos seus domínios partidários?


SPRAY Gustavo Fruet é, disparadamente, o mais bem qualificado deputado federal do Paraná em termos intelectuais. Suas intervenções são verdadeiros ensaios de filosofia e ciência política. - Nesse momento, porém, Fruet enfrenta desafio dos mais duros na condição de presidente da CPI do Proer. Independente, mas sem rompantes demagógicos, já levantou a matéria substancial: coligiu os tópicos relativos ao Proer que havia na CPI do Sistema Financeiro e também as decisões do STF. - O Paraná até que vem se destacando nas CPIs: Requião se saiu bem na dos Precatórios, apesar dos rompantes policialescos e Alvaro Dias se dá bem na do Futebol e com as vantagens da cobertura da Globo. - Um absurdo acaba de ocorrer em Cascavel: a Câmara Municipal votou e o prefeito sancionou a Lei 3.278 que proíbe anúncios de negócio do sexo (saunas, acompanhantes etc) nos jornais. O curioso é que se atribuiu à Secretaria de Comunicação Social a missão de fiscalizar e apertar os veículos. Jornais da região reagem e vão à Justiça. No meio do caminho pedem a interferência do sindicato patronal dos jornais e revistas. Essa não prospera.


FOLCLORE E os políticos que estocam, nesse momento, cadeiras de rodas e dentaduras para a distribuição no ano que vem, no furor da campanha eleitoral, o que são? Não há como responder a essa pergunta sem um palavrão.


CROMO ''Na praça se faça fluente// (voz cortante de trovão)// um Maiakovski insurgente// num outdoor de rebelião//'' De um poema de Mário Stasiak.



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