Luiz Geraldo Mazza
Nada como um 7 de Setembro para refletir sobre a dependência do Brasil, hoje realçada no cotidiano e visível nas esganaduras armadas pelos credores, via monitores do FMI. Esse caso da Copel, e até do seu valor traído e subtraído, é clássico: engessada pelos limites do Banco Central que a impedem de buscar recursos no exterior, foi condenada à privatização. Não se trata, como se vê, de uma decisão voluntária de governo e da sociedade e sim de uma imposição negociada no sufoco pela União, hoje transformada em capataz dos interesses transnacionais. Seremos, em pouco, se tudo continuar com essa lógica, algo bem parecido com a nossa vizinha Argentina. Menos no futebol, é claro.
Formalmente livre, primeiro da Coroa Portuguesa, o Brasil só o será em termos efetivos quando, ao lado da conquista política, hoje comemorada, obtiver as de natureza econômica e cultural. A nova configuração geopolítica, a inexistência de espaços de manobra como os proporcionados pela Segunda Guerra Mundial (afinal geraram condições para a política de ''substituição de importações'', que nos assegurou maior raio de autonomia) e os da Guerra Fria (esses garantindo maior mobilidade e até melhor embasamento de barganha com a sua política externa independente sob Jânio-Jango e já enunciada por Kubitschek quando este não se curvou às imposições do FMI) aguçam essas contradições.
Somos um país sob tutela, não aquela referida pelo Direito Internacional, em função da dívida externa e dos investimentos transnacionais, já que não temos uma poupança interna digna desse nome. Apesar de alguns avanços (vitória parcial no caso da quebra das patentes de remédios contra Aids e alguns feitos na Organização Mundial do Comércio) aplicam sanções contra o Brasil (taxação do suco de laranja) que não podemos exercer contra o Primeiro Mundo em casos análogos, o que também não deixa de ser uma condição de poder e hegemonia.
A alienação da Copel se funda na crise de Estado brasileira (este sem meios de financiar-se, daí também a entrega das estradas para o pedágio) e ainda numa especificidade paranaense de ''caixa'' estourado que se tenta resumir ao problema da previdência, quando esse é apenas um dos seus aspectos. Da mesma forma que para o capitalismo só há uma forma de moderá-lo pela democracia, o mais participativa possível, é indispensável que se queime todos os cartuchos da Copel, os mais relevantes aqueles que possam ser levados ao Judiciário e nas duas instâncias, a federal e a estadual, sem desprezar as mobilizações de caráter político, mesmo que pareçam inviáveis como a luta pelo plebiscito.
GLOSA
Se o governo estadual avaliasse a Copel pelo mesmo critério a que se atribui de valor o preço seria pelo menos o triplo, uns R$ 30 bilhões
BIZARRICE A ''Jeniffer'' do sequestro de Patrícia e Silvio Santos ao enunciar que pretendia transformar o dinheiro do resgate em cestas básicas em favor dos pobres usou a moral clássica dos nossos políticos nos mil drenos intermediários, que fazem vazar recursos da área social, no trajeto do Tesouro até a suposta área assistida.
AXIOMA Mais alambrado no Centro Cívico: primeiro Lerner estimula a baderna, permitindo o circo dos sem-terra por meio ano no Centro Cívico e depois resolve botar grades para reduzir manifestações. De qualquer forma, o cenário é bem o do País sequestrado pela violência e quem quiser se aproximar dos poderes deve observá-los a distância como se estivesse no zoológico. O animal é quem está fora e não dentro dos palácios, obviamente.
EPIGRAMA Para o secretário Miguel Salomão, do Planejamento, tudo está nos trinques no Paraná: tanto o fechamento da Chrysler quanto a venda da Copel. Ele continua como Pangloss, personagem voltaireano, que vivia sempre no melhor dos mundos, um otimista incondicional.
SPRAY A Chrysler de Campo Largo era uma titica de mosca no cenário das empresas automotivas, mas atingida por uma quadra recessiva mundial e também brasileira. Já deveria ter fechado há mais tempo. - A indústria nipônica vai demitir, segundo estudos do mercado automotivo, 175 mil trabalhadores nos próximos quatro anos. - Razões abrangentes operaram no caso da Chrysler e dentre as nipônicas afetadas está a Nissan, consorciada da Renault, e que pode ser atingida em função do quadro negativo, alterando-se o cronograma anunciado para operar no complexo de São José dos Pinhais. - Lembrando da advertência do senador Alvaro Dias, com estudo prospectivo do setor para o terceiro milênio, seria o caso de perguntar agora: quantos milhões de veículos estariam neste momento sem mercado nos pátios das montadoras?
FOLCLORE O Fórum das Entidades Culturais de Curitiba divulga moção de repúdio a Cassio Chamecki, presidente da Fundação Cultural de Curitiba. Repete acusação que já havia sido feita quando de sua nomeação a de estabelecer confusão entre a administração da coisa pública e a gerência de empresas particulares. Estar assediado por fóruns é, pelo jeito, vocação desse governo. Se olhar esses fóruns (esse e o da Copel, por exemplo) como aquele do Judiciário no Centro Cívico, tudo permanecerá na inércia à espera provável da implosão de tudo.
CROMO Quem acredita na sazonalidade dos frutos fecha os olhos, em qualquer circunstância, para o horário de verão.
AFORÍSTICO A oposição vê o governo, lá por dezembro, aos andrajos, e o governo se vê como um Papai Noel muito mais gordo do que se imagina.
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