Luiz Geraldo Mazza
O rei e o pequeno príncipe
Não é preciso ser miss para ler ''O Pequeno Príncipe'' de Saint-Exupery. Trata-se de uma obra sensível e carregada de metáforas. Uma vez, convidado pelo arquiteto Lubomir Ficinski, que havia sido contratado para reciclar o sistema viário de Goiânia, a fazer um audiovisual sobre as propostas, não hesitei em recorrer a uma cena da obra em que um rei de um planetinha plantou um baobá, uma das mais maiores árvores do mundo naquele miniespaço, e que o acabou desagregando e destruindo com a fase adulta da planta. Um esforço para raciocinar em cima das escalas de trânsito e das cidades.
Quando o governador Jaime Lerner tentou ontem minimizar a saída da Chrysler do Paraná, lembrei de um outro quadro de ''O Pequeno Príncipe'' o daquele rei solitário que tinha a volúpia de mandar e quando o visitante espirrava ele dava ordem para que não o fizesse. E ao final, conformado, simplesmente para que imperasse, acabava impondo que o suposto vassalo passasse a espirrar, mesmo que a crise tivesse acabado. Lerner tentava inutilmente sugerir que o acidente de percurso não tem a dimensão imaginada, quando não se discute a expressão em si da montadora, que operava numa escala artesanal (menos de 300 trabalhadores), mas o símbolo que representa diante das expectativas criadas pelo próprio governo com o novo perfil industrial.
É insuportável tolerar tanta mistificação. Os segredos idiotas, diga-se de passagem criados em torno dos protocolos das montadoras atraídas, ajudaram a desenvolver a idéia de que finalmente a classe operária do Paraná iria ao paraíso. Não foi e nem irá. Esse tipo de investimento agrega tecnologia, sem dúvida, destacando-se como intensificação de capital, mas poupa mão-de-obra e a remunera mal.
Basta ver que no caso da Renault o governo tinha participação séria, com os R$ 400 milhões aplicados, e que foi caindo e chegará a quase nada com os aumentos de capital, já que a Viúva está com os cofres vazios e não pode manter a sua cota como sócia dessa história mal contada no início e que surpreenderia na hipótese de um final inesperado e indesejado.
Se não temos como segurar em nossas mãos a Refripar como contingência do tal mercado globalizado, absorvida que foi pela Electrolux (já que a lógica do capitalismo é essa), a troco de que poderíamos esperar que a Chrysler (hoje engolfada numa crise específica, sem falar na conjuntura interna e externa de desaquecimento e recessão) permaneceria por aqui? E assim vai ser com os casos de freio na produção com férias coletivas e desemprego evidentes em todas as demais empresas do setor, fato que se estende a toda malha produtiva.
Se a cada ocorrência dessas houver um discurso como o de ontem vai ser algo mais insuportável que o sequestro do Silvio Santos porque aí ficaremos como reféns, impotentes, aguentando um papo intolerável e pegajoso.
BIZARRICE
Os áulicos do governo, como Nelson Justus, são tão subservientes que repetem o conceito do próprio Lerner de que vai ser bom para o Paraná a saída da Chrysler. Se a saída é boa (aliás, esses propalados R$ 120 milhões deveriam ser auditados porque a grana a receber pode ser bem maior) por que a entrada e com tanto foguetório?
AXIOMA Lembro de um alertamento do senador Alvaro Dias quando se badalava a chegada das montadoras: um estudo macroeconômico admitia que ainda na primeira década do terceiro milênio haveria uma sobra de mais de 17 milhões de veículos nos pátios das indústrias. E, vejam bem, que ainda não se atinava com a hipótese de uma recessão internacional, hoje mais do que desenhada, visível, inclusive, na queda da atividade econômica nos Esteites.
GLOSA Sabidamente lento nas decisões (vide o episódio recente de Joel Coimbra na Procuradoria-Geral e o do acampamento do MST), Lerner aparece em público para admitir o que vinha negando no caso da Chrysler e já com uma programação para os R$ 120 milhões que a montadora deveria ao Estado para aplicar em estradas. Que rapidez! É o que quase sempre falta no ataque brasileiro.
EPIGRAMA Há pessoas que babam e nem notam quando falam em dinheiro. Em alguns a baba é tanta que dá para o eufórico usá-la como meio líquido para nadar.
SPRAY Jaime Lerner nem pintado é aceito na nova estrutrura regional do PSDB, conforme líderes nacionais e locais. - A fração alvarista vai espernear na Justiça e é possível que tenhamos cenas como a de tucanos acorrentados para impedir que os novos entrem na sede partidária. ''Prometeu Acorrentado'' é uma boa referência literária e filosófica. - O presidente nacional do PSDB, José Aníbal, deve pintar por aqui para acompanhar o ato da ocupação. - O que Alvaro Dias disse a Requião é pertinente: se o PMDB nacional decidir em convenção pela manutenção da aliança nacional com o PSDB e o PFL na sucessão, a hipótese de uma intervenção no regional não estaria descartada. - Por falar em Requião, ele denunciou, quando da chegada da Chrysler, que a empresa matriz só tinha US$ 1 na sociedade aqui montada. Por aí se vê a utilidade do segredo nos protocolos que até lembravam, tamanha a reverência e cautelas, aqueles abominados ''Protocolos dos Sábios do Sião''.
FOLCLORE Hermas Brandão poderia assumir o comando do PSDB regional, do qual já foi secretário. Está com idéia de jerico: levar Emília Belinati para o partido. Por que não leva também o marido e o filho deputado? Vai acabar sofrendo uma intervenção antes de ocupar o ninho tucano.
CROMO A retórica da MPB é de lascar: a serpente de seda dos teus braços...
AFORÍSTICO E o nariz dos homens públicos, apesar de tudo, não cresce.
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