A empatia de Macunaíma



Depois do show de quinta-feira com o sequestro e a libertação de Silvio Santos, quando prestamos a mais absoluta vassalagem à sociedade do espetáculo, bem na padronagem em que a viu Guy Debord, deu para perceber em setores do público uma estranha aproximação com o autor da trama como se lamentasse que a polícia não tivesse aquela capacidade de organização. Embora televisivo, o evento era ''rádio-visual'', ainda porém nos domínios da chamada Galáxia de Marconi, pois a imagem praticamente congelada operava como contraponto ao fluir das palavras de repórteres, analistas e entrevistados, o que no caso da Globo, tão ciosa do seu ''padrão'', operava como heresia negando, sobretudo, o caráter cinemático, de movimento, daquele meio de comunicação. Aí se comprova o sentido que MacLhuan deu ao conceito: o meio é a mensagem.

Dentro em pouco vamos ter um plebiscito no estilo ''Você Decide'' com o vilão da novela ''Porto dos Milagres'', o prefeito Félix Guerreiro, interpretado por Antonio Fagundes, para ver se o público quer que ele se eleja governador da Bahia, a despeito de sua canalhice orgânica. Ora, o personagem traz a visão do que é o político (a generalidade é aí colocada para ressaltar que o arquétipo cabe na maioria esmagadora deles) e dos seus exercícios de mais astúcia e corrupção do que de talento.

Anteriormente a Globo já produziu na série ''O Bem-Amado'' a figura forte do coronel Odorico Paraguaçu do universo ficcional de Sucupira e que sempre levava a melhor com o público pela empatia produzida, a despeito de suas práticas bem primárias de cortejamento da patuléia. O que se dava, na realidade, com figuras como Adhemar de Barros, Jânio Quadros e aqui no Paraná classicamente com Belinati por sua inegável aura de populista militante.

Paraguaçu revertia processos de impopularidade com uma rapidez jamais imaginável num Lerner de estilo lento e sem elegância (isso para lembrar do Ademir da Guia, o gênio do futebol, em que a beleza e precisão dos gestos era confundida com lentidão). Era um mosaico de estilos, cabível na galeria dos nossos estereótipos de um Juscelino dançarino, a ganhar eleitoras ciciando-lhes aos ouvidos, a um Collor, telenovelesco, meio Rambo, meio diplomata cafona com seu portunhol.

Se os quase 40 milhões de telespectadores aprovarem a eleição de Guerreiro terão, na verdade, consagrado o estilo de política que se faz no Brasil. O reencontro, enfim, com outro ícone ficcional, Macunaíma, herói sem caráter, do genial Mario de Andrade.



RUBINHO Rubinho Ferreira andou hospitalizado, o que não o impediu de manter viva a sua sacola de maldades: sugeriu que manifestantes treinassem arremesso do ovo em parques de Curitiba e, maliciosamente, que um dos processados de Foz do Iguaçu o teria sido, enquadrado em injúria e difamação, por haver chamado o governador de competente e criterioso. Se na convalescença está assim, imaginem quando receber alta.



COPEL Ironia das ironias é o fato de a Copel uma das caixas-pretas de governo desde a sua fundação e que se tornou mais fechada no regime militar estar somente agora sendo devassada. Foi preciso cair na UTI para que se conhecesse a sua complicada anatomia.



POLÍTICOS Não há sordidez maior do que ouvir político falando em ética (é só dar uma olhada na tramitação da agenda na Câmara Federal) quando esse tipo de atividade se mostra, por seu caráter pragmático, ''aético''. Referências à transparência, que todos fazem, visa impedir que o opaco passe ao estágio de translúcido. O luminoso, nem pensar. Mas aquilo é dito com uma convicção que nem os pastores, dos mais habilitados, conseguem transmitir.

Decidem tudo sozinhos ou então em círculos restritos, mas na retórica, com um ar penoso de martírio, dizem ter ''ouvido as bases''. Vamos de novo à citação constante de Talleyrand: ''A palavra foi dada ao homem para dissimular-lhe o pensamento.'' Poderia estar se referindo a todos os homens, mas especialmente ao ''animal político'' a que se referia Aristóteles, o estagirita.



APELIDO Paranaguá, apesar da mudança de sua população nas últimas décadas, continua forte no hábito de apelidar pessoas. Um defeito num dos olhos no Francisco Deliberador, político de Ibiporã, que dirigiu o Porto, lhe deu o apodo de ''Olho de Garoupa''. A um policial que tinha uma perna mais curta do que a outra e andava em descompasso chamaram de ''Tá Fundo// Tá Raso// Tá Fundo// Tá Raso//'' Por causa do cabelo ruivo e o rosto avermelhado, o prefeito Mário Roque já foi chamado de ''Tampa de Vidro de Mercúrio Cromo'' e de ''Arroto de Fanta''.


No tempo de criança eu ouvia falar num tal de ''Feijão Cavalo''. Não sabia de quem se tratava, mas num dia, ao fazer compras no Mercado na Rua da Praia, eu o encontrei a meio caminho de uma ladeira e explodi na risada diante daquele senhor que lembrava feijão cavalo ou semente de caju.

Quando o Brasil perdeu a Copa em 50, eu passeava por Paranaguá e escrevi artigo no jornal da cidade criticando o desinteresse das pessoas para criar o curso superior no município e a depressão por causa do futebol. Quando fui à Praça Fernando Amaro bater o papo do meio-dia, o Chiquito Louco (nunca soube o seu nome, o que aliás é mistério comum por lá a tal ponto que sugeri uma lista telefônica só com apelidos), botou olho na roupa que eu vestia, caroá com listas horizontais e tascou: ''O que você acha disso, Calça de Caderno de Linguagem?''



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