Luiz Geraldo Mazza
A fatura da Copel
Todos querem faturar a Copel. Uns agora, como o governo Lerner. Outros depois, como muitos dos contestantes, e que aspiram ao Palácio Iguaçu e se sentem, de certa forma, magnetizados pela tentação da enorme ''bufunfa''. Há, é claro, os sinceros que são patrimonialistas ou acham que é preciso opor resistência às imposições do FMI.
Uns faturam pelas bordas, como se come o mingau quente. Esse é o caso do PSC de Giovani Gionédis, um dos orquestradores do leilão do Banestado e co-autor do compromisso de caucionar as ações da Copel para cobrir a sangria, até hoje não investigada, dos títulos podres que renderam grana para privilegiados.
Gionédis, ora em ofensiva contra a venda da Copel, principalmente depois que Requião acusou o seu escritório de favorecer a RWE, ligada a banco germânico que teria adquirido ações do Banestado, afirma que foi ele quem segurou o edital da licitação junto à Aneel e parece que isso é verdadeiro.
Segurou por quanto tempo? Essa, a verdadeira questão. Pois todos sabem que nas negociações com o FMI para o empréstimo de US$ 15 bilhões destinado a defender o País contra ações especulativas houve referência expressa aos ativos que estavam no disparo da privatização: a Copel e as usinas da Cesp. A tal blindagem tinha essa moeda de troca, no mínimo, pois a dureza dos auditores do FMI é conhecida, bastando ver como agem na Argentina, país com maior tradição de resistência do que o nosso.
No jogo de cena vale tudo: agora que já acabou a fase das mobilizações na rua e as perspectivas de o plebiscito emplacar parecem cada vez mais difíceis, a aposta será no berreiro, mais do que justo, do funcionalismo submetido à dieta de faquir. Por sinal que o auê de anteontem deu de mil a zero na tal passeata dos 10 mil da Copel (e que não reuniu nem 10% do esperado) ao ponto de haver cerca de 15 mil participantes, ainda que engrossado por servidores federais e os disponíveis de sempre, alguns com uniformes do MST.
A briga pela sobrevivência do funcionalismo motiva mais do que a defesa de uma estatal, importante, mas que sempre representou uma casta de marajás para o trabalhador público de um modo geral. Lerner não demitiu funcionários e até se obrigava a fazê-lo se fosse um seguidor rigoroso do modelo de austeridade como se viu com Mário Covas, em São Paulo, que botou na rua mais de 130 mil e nem por isso deixou de ser reeleito. Lerner apelou pra tudo, inclusive para o escabroso ''acordo branco'' com o PSDB e que aparenta ter de ligação com Jairo Gianotto e a turma do Paolicchi, de Maringá, tantas são as convergências.
O que o governo argumenta é que só terá dinheiro com a venda da Copel e a capitalização da Previdência. Com isso devolve aos funcionários o dilema que ele próprio vive com o caixa que ajudou a estourar. Todos beliscam a Copel e se fosse uma bailarina ela já estaria com edemas por todo o corpo, pior do que marafona de bordel de estrada, daqueles de lâmpada colorida.
BIZARRICE
Hora dos reféns: de um lado o governo sob sequestro do FMI e da Lei de Responsabilidade Fiscal e de outro os servidores estaduais dominados pela inflação maquiada e pelo arrocho de quase sete anos. É um cabo-de-guerra
AXIOMA Afinal, se o governo vende os seus melhores ativos, como ficam os passivos? Está aí uma questão seriíssima para uma pesquisa de opinião. Há, é claro, o caso genuíno do passivo oculto.
GLOSA Tudo é maquiado no governo FHC e por isso é que os empresários se habilitaram a maquiar produtos. Se a inflação é maquiada, dá para colocar sob suspeição qualquer indicador oficial.
EPIGRAMA A classe política em maioria lembra, em suas ações, malandro de parque. Acredita-se sutil na dissimulação e na malícia, mas é grosseira, visível demais, para acreditar-se camuflada como militar em guerra.
Muito deles quando falam em ética visam amaciar a intenção do golpe e quando se referem à transparência certamente é porque desejam esconder alguma coisa.
SPRAY Um raciocínio correto: a questão da venda da Copel deve ser tratada na instância judicial. Na administrativa, a Aneel; a notificação e interpelação feita por Giovani Gionédis surtiu efeito. - Se a Aneel ratificar o edital ou modificá-lo para que fique nos trinques, Gionédis pode se transformar no maximuquirana deste governo, indo para a fase judicial e em vara federal, o que por sua vez, pode ensejar conflito de jurisdição interminável. - Prova de que o governo não ouve o ''staff'' jurídico adequado que seria a Procuradoria-Geral, o que responde por inúmeras hesitações como no caso da Lei de Incentivos com o recuo havido. - No front político é inútil insistir em delírios como o do plebiscito que o governo combaterá com maioria e se não a obtiver, em certa circunstância, com o exercício da obstrução parlamentar. - A concentração dos funcionários, embora não ideologizada como a arregimentação a favor do projeto de iniciativa popular que bloquearia a venda da Copel, foi superior em tudo: em número, resistência e vibração. - A batalha final será no Judiciário.
FOLCLORE Gionédis vai ser o ''calo'' de Lerner na questão da Copel. E por isso já está sendo apelidado de Giovani Joanete.
CROMO Papagaios invadiram Curitiba e dissimulados nas manchas verdes falam tanto e com mais procedência do que políticos no parlamento.
AFORÍSTICO Outra de cabo-de-esquadra da Prefeitura de Curitiba: furaram de novo a ordem da lista dos precatórios.
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