Um capataz, nada mais



A classe política se mantém atuante porque aposta na esperança do povo, e quanto mais quimérica melhor. Por exemplo: que perspectivas um Lula (para não dizer qualquer outro como essa versão menos autêntica de Collor que é Ciro Gomes) poderia oferecer de alternativa para não fazer o papel de capataz do FMI e dos interesses transnacionais no Brasil? Nenhuma. No entanto, ainda que não defina a forma, o PT sugere ter essa fórmula, o que não é verdade, com o que mantém o povo na fantasia de que pode se constituir em alternativa ao que aí está. Nesse aspecto, a despeito da porra-louquice, o PSTU é mais verdadeiro.

Na discussão desse tema emocional e ideologizado, que é o leilão da Copel, mais do que decidido na intimidade do governo federal e nas suas tratativas junto ao FMI para a blindagem antiespeculativa visível no empréstimo de US$ 15 bilhões, ninguém examina essa questão chave: qual o campo de manobra possível, já que em política o ''desejável'' não passa de um delírio, que o governo FHC disporia? Pouquíssimo. As privatizações não baixaram a febre do paciente, não reduziram a dívida (ao contrário, a elevaram) tanto interna quanto externa. Esse é o ''estrangulamento-chave'' do País, bem identificado na sua fragilidade externa.

Oposicionistas e de certa forma nem governistas entram nessa discussão: preferem fingir, para o público, que comandam os acontecimentos e não que são por eles comandados. Como diz o dístico de São Paulo ''Ducco, non duccor'', o que em latim, vertido em carioquês da malandragem, significa ''estou na área e no ataque, não na defesa'' ou ainda ''conduzo, não sou conduzido''. Nas relações modernas no contexto globalizado é um delírio e a soberania soa como apelo à retórica por não ter qualquer compatibilidade com o mundo real.

Pois o Lula veio com a algaravia de que vai reestatizar estatais, copiando a bravata dos senadores paranaenses no caso da energia. Mais oportunismo para mexer com o caldeirão passional criado pela venda da Copel. Há uma esperança de impedir a transa neste governo: criar dificuldades no Judiciário sob a forma de embargos, nulidades e agora também na Justiça Federal, já que os ''advisers'' que modelam a venda criaram obrigações novas como a de exigir investimentos em 20% em geração, o que implicará em redução do preço mínimo. Outra hipótese bem remota seria emplacar, o que é difícil, o plebiscito. Este liquidaria a parada com máxima rapidez e eficiência, por causa da extrema emoção e da claramente escassa informação.



BIZARRICE

Aí o político da terra foi dizendo que não tinha dinheiro em paraísos fiscais como a Ilha de Jersey, mas pessoalmente lembrava, pelo porte atlético, um Durock Jersey, o leitão tipo carne





AXIOMA Bastou haver a crise gastrentérica nos jogadores do Coritiba para que se culpasse, injustamente, a Sanepar. Cada vez ela é menos culpada pelo simples fato de ser menos consumida por causa do cheiro e do gosto. Já é uma vantagem como quando se libera o gás de cozinha e o cheiro o denuncia.



GLOSA Nunca um governo teve tantos dos seus agentes sob denúncia e até mesmo julgamento no Judiciário. Agora é a vez do Alceni Guerra, acusado de haver superfaturado obras como prefeito de Pato Branco. Dá para imaginar se alguém do estilo Alvaro Dias e Requião suceder o time que está aí.

Historicamente, Requião foi menos festeiro com moralidade pública e denúncia do que Alvaro, que fez um carnaval em cima do governo Richa que o havia apoiado e não provou nada de concreto, inclusive nas sortidas no Banco del Parana e a história dos cisnes negros. Lerner substituiu Requião, primeiro na prefeitura e depois no Palácio Iguaçu e não fez guerra de nervos nessa linha. A questão das ''diárias-frias'' vinha da gestão Mário Pereira.



EPIGRAMA A prefeitura se deteve diante de um ninho de tiriva para não derrubar um álamo. Aqui, bem perto do jornal, permitiu a construção de um espigão no lugar em que estava a secular Fábrica de Pianos Essenfelder. O pio da tiriva, poético, foi mais artístico que o som fantasma que ainda se ouve na antiga fábrica e que era instituída como unidade de preservação histórica.



SPRAY Quanto mais se estreita o cronograma da venda da Copel, fica mais nítido que o front correto é o do Judiciário. - Agora há outro fator que afeta o êxito de qualquer iniciativa em torno de saídas como a do plebiscito. O governo já reorganizou a base aliada e a diferença já não é de um voto, mas de pelo menos três a favor do situacionismo. - Ontem a Cemig pulou fora. Aliás era, de fato, uma ''estranha no ninho'', ainda que se aceite participação de estatais como a gigante francesa. - O ingresso da Cemig permitiu o acesso a informações que podem alimentar esforços oposicionistas por parte especialmente da bancada senatorial do Paraná. - Oposição não tem os 28 votos necessários para aprovar o plebiscito. - A cada momento surgem informações sobre negócios internos da Copel e ontem se falava muito num contrato feito com a Xerox.



FOLCLORE Em política tudo é possível: o ex-partidão, hoje PPS, ter figuras como o Amadeo Geara, o Marcos Isfer que permite ao partido ter uma célula no Country Club. Também socialistas (PSB) como Beto Richa, Alvaro e Pimentel dão idéia da distância entre filologia e semântica num mundo político.



CROMO No mistério da beleza da papoula é possível embevecer-se sem lembrar que dela se extrai o ópio.



AFORÍSTICO Se o governo é intolerante quando se acha fraco politicamente dá para imaginar a quantas irá com um pouco da sua soberba residual.



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