Luiz Geraldo Mazza
Em ciência política discute-se o tema sobre o que deve prevalecer, se o governo dos homens ou o governo das leis. É um dos capítulos da obra de Norberto Bobbio, O futuro da democracia, e a realidade indicaria a necessidade de compor o ideal do império da lei com o dos heróis de traço carlyleano que marcam o exercício da política. Em ordens mutantes, como a em que vivemos, fica difícil deixar de reconhecer a legitimidade das chamadas ações informais e até do direito alternativo.
Uma outra questão também polêmica é a da prevalência do agente político sobre o partido, o que, aliás, irriga o momento brasileiro e paranaense. Tivéssemos um mínimo de consistência em nossas agremiações e a chamada fidelidade poderia ser cobrada com a maior naturalidade. Os partidos existem para a próxima eleição e não para o exercício permanente ou a próxima geração.
Cria-se assim uma espécie de situação pirandelliana, aquela da peça teatral Seis personagens em busca de um autor. Temos aqui legendas à procura de agentes políticos. É o caso do PFL atrás do Jaime Lerner e que já conseguiu arrebanhar o Aníbal Khury. É também a situação específica de Requião, cuja ausência no Paraná anula o PMDB. Como de resto, em nível nacional, ocorre com Lula relativamente ao PT, apesar da soberba dos xiitas.
O personalismo é uma tradição brasileira. Getúlio Vargas era mais do que os dois partidos que criou, o PSD e o PTB, e que foram a caricatura, ajustada aos nossos figurinos (paupérrimos, é claro), da frente popular, a rigor a fúria do populismo que durante boa parte de nossa história foi o meio de cultura possível para regular os nossos conflitos. Nenhum dos líderes recentes - aí incluídos os do PMDB no poder - teve a força de um Ney Braga ou mesmo de um Moysés Lupion. Lerner tenta ser esta figuração pós-moderna, mas lhe faltam condições essenciais ao exercício da liderança: energia e determinação.
Ney Braga viabilizou um partido no Paraná, o PDC, do qual era uma expressão nacional. Lerner não conseguiu fazer isso com o PDT, posto que fizesse da regional do Paraná a maior do País, com 111 prefeitos (28% do total paranaense), e com o maior número de votos do Brasil com 888.079. Como Ney, Lerner investiu na política de alianças com o PTB (54 prefeitos) e PFL (36) e parte do PSDB, que lhe foi hostil através da cúpula dos sem-votos.
O PDT é um PTB alternativo, oposto ao de Ivete Vargas apoiada por Golbery; o PFL é um PDS encabulado e que se ligou em Tancredo, dando as costas a Maluf para ficar no poder; o PSDB é o PMDB que se acredita depurado, e o PMDB é o PFL Denorex, tem jeito dele, mas não parece, uma obra-prima também do mimetismo.
E como diria ironicamente o teatrólogo, botando o conceito final nesse tema, já de natureza tão tenso assim é, se vos parece.
BIZARRICE Um deputado do PMDB anda tão fissurado na temática política que, noites passadas, em uma casa de shows, no momento em que o público ululava diante da bailarina, que fazia strip tease, não se conteve e chegando à catarse e ao grito primal, enquanto a rapaziada gritava mostra, mostra e a artista insistia em esconder, gritou: Mostra os protocolos das montadoras.
Os protocolos da atriz foram expostos, mas os do governo ainda não, embora propague o contrário, da mesma forma que diz que faz acontecer e não acontece.
SPRAY Mais evidência dos investimentos dominantes na Grande Curitiba: a Team Robótica será inaugurada, este ano, na Cidade Industrial.- É possível que mais uma montadora, agora a Ford, venha e, se vier, será para a Grã Curitiba.- Vejamos a localização do gênero transporte e investimentos previstos: Volvo, com R$ 150 milhões, e Bonano, R$ 3 milhões, em Curitiba; Chrysler, R$ 315 milhões em Campo Largo; Renault, R$ 760 milhões e Volks-Audi, R$ 800 milhões, em São José dos Pinhais, e mais ainda o Parque Orca (R$ 1 milhão) na mesma cidade.- As relações entre o empresário Mário Celso Petraglia e o governador não estão nos trinques: o presidente afastado do Atlético Paranaense teria recusado uma comenda ao seu ex-aliado. E não foi porque Lerner é coxa branca.- Um fórum sobre mudança da matriz energética vai ser realizado em setembro, segunda quinzena, na Universidade Federal, e um dos pontos mais polêmicos vai ser, sem dúvida, as termelétricas juradas de morte por ecologistas, ambientalistas, ecochatos e biodesagradáveis, como disse o Rafael Greca.- Detalhe: a Copel está dividida na questão. Um dos limites da empresa é o de ter desenvolvido praticamente um único energético: a hidroeletricidade ao ponto de ter virado as costas para a usina de Figueira, a carvão.- Há na empresa um trabalho sobre energia eólica (ventos) que terá sediação em Palmas, com a construção de cataventos.-
FOLCLORE Quando o governador Jaime Lerner resolveu tocar o projeto de Palmas com aproveitamento da energia eólica através de cataventos, alguém, para bajulá-lo certamente, lembrou da figura de Don Quixote. Um não alinhado, no entanto, fez a observação: Pode ser Don Quixote, mas o corpo está bem mais para Sancho Pança.
CROMO O velho polonês persegue uma carpa gigantesca e com a obstinação do Santiago de Hemingway atrás do espadarte. Ando à procura de uma truta arco-íris no rio Claro e não a encontro, mas conto com a compensação do tié sangue e da alma de gato que passaram duas vezes à minha frente.
AFORÍSTICO Político só consegue o silêncio quando sai da vida pública e recolhe-se à privada.





