O anti-herói em alta



Nunca, na história recente do Brasil, o anti-herói esteve tão em evidência como se deu ontem no sequestro de Silvio Santos pelo jovem Fernando Dutra Pinto, autor de façanhas incríveis e rocambolescas como a de fugir de um prédio com as artes do homem-aranha depois de matar dois policiais e ferir outro. Os meios de comunicação de massa ficaram hibernados, as câmeras em especial, diante da mansão do empresário e dono da SBT desde o início da manhã até pouco antes das 3 da tarde.
Ficou patente a ousadia e a excepcional inteligência do bandido, que até então não tinha antecedentes criminais graves, o que dá bem a idéia das guerrilhas urbanas que ainda teremos de enfrentar e a disparidade de condições entre um sistema de segurança esclerosado, minado pela incompetência e a corrupção e o baixo-astral da política, e a criatividade daqueles que estão dispostos a tudo. Da mesma forma que o Poder Público não tem segurança, quando se vê um Jaime Lerner atônito diante de manifestações de hostilidade, percebe-se que o Poder Privado, o dos ricos em especial, está ''lascado''.
Se o crime organizado já a todos espanta com as rebeliões nos presídios e sua articulação externa com narcotráfico, roubo de cargas e carros, desmanches, dá para imaginar o que está por vir com frações alternativas, o que poderia estar ocorrendo no caso do sequestro de Patrícia Abravanel e da gangue autora da façanha. Não é o governo apenas o refém da violência, mas toda a sociedade. Pela expressão popular da vítima, dono da segunda maior rede de tevê do País, com quem a comunidade tem relações de aberta empatia, é de esperar-se que haja um sentido de maior participação das pessoas na identificação do banditismo em todas as suas formas.


EPIGRAMA


Quando a realidade virtual invade a real dá problemas como o do assassinato de Daniela Perez. E agora, essa novela de audiência máxima com Silvio Santos


CRIME E POBREZA Basta daquele vitimalismo que tenta estabelecer uma sincronia entre pobreza e o crime. Se no passado recente, o cineasta Cayate, que se especializou no filão dos filmes de criminalística, lançou o antológico ''Somos Todos Assassinos'' com o pretexto de evidenciar as causas sociais e coletivas da criminalidade, está na hora de mudarmos o enfoque para o de que hoje somos todos, sem exceção, reféns de todas as violências, em função do afrouxamento cultural em nome da liberdade e da permissividade, o que dá fundamentação doutrinária, das mais sólidas, para o drama em que vivemos e que somos levados a aceitar pela banalização do vale tudo.
Num país de estratificação social perversa como o nosso, e dominado pela anomia com as instituições em frangalhos e a evidência de que a corrupção compensa, é de imaginar-se quantos anti-heróis brotaram no caldo de cultura do episódio de ontem que tanto serviu à cupidez da sociedade do espetáculo e que dominou as atenções de toda a massa de telespectadores.
Impossível não captar a inteligência incomum do criminoso, sua visão até de logística e a coragem excepcional revelada, e de outro lado a ausência mínima de senso tanto da polícia quanto do empresário Silvio Santos em dar bandeira para que o delinquente chegasse ao cúmulo do lugar-comum de voltar ao local do crime. Se alguém for entrar na SBT vai encontrar mil barreiras e imposições de crachá de variadas cores. Na casa de Silvio Santos, ele pulou o muro.


BIZARRICE O jornalista Ricardo Prefeito é um elegante no sarro. Referindo-se ao encontro de Clinton, o ator Hopkins e o governador em Foz do Iguaçu, ele disse tratar-se de um simpósio do canibalismo. O ex-presidente comedor de estagiárias, o Hopkins (Annibal) comedor de carne humana e Jaime Lerner um dos mais legítimos comedor de estatais.


AXIOMA Nunca se viu no Brasil tamanha vassalagem à sociedade do espetáculo como no sequestro de Silvio Santos: tudo o que pode haver de errado em matéria de cautelas num caso dessa delicadeza foi cometido. Até o governador Geraldo Alckmin lá esteve quando os manuais ensinam que deve haver unidade de comando e jamais o peso da hierarquia vertical que lá se encontrava e que tinha todo o jeito de uma dessas assembléias estudantis ou decisões no governo Lerner. E se o sequestrador saísse atirando, como agir com tanta autoridade no pedaço?


GLOSA Algumas pessoas lembrando que no filme ''Matrix'' um ator numa fuga faz exatamente o arrojado papel de homem-aranha exercitado pelo sequestrador Fernando Dutra Pinto na saída do edifício após matar dois policiais.


FOLCLORE Se o governo começar a dar importância a discretas vaias no escurinho do cinema contra Lerner ou a apupos ridículo pelo número de participantes como o de Foz do Iguaçu, seus áulicos, de repente, vão sugerir que esses casos são mais graves do que o do sequestro de Silvio Santos. Como exageram nos supostos feitos do governo desejarão fazê-lo com a medida das hostilidades. Para um governo que já foi apanhado em histórias como a dos ''grampos'' não pega nada bem.


CROMO Olhava a televisão congelada com seu tremido mortal, a reportagem do sequestro em todos os canais, quando, pelo menos numa sala um colibri parou no espaço diante do vídeo com sua arte bailarina.


AFRÍSTICO A Diretran antes dava avisos e só no terceiro multava. Agora vai multar na primeira, diretíssima. É antecipação alegórica do que acontecerá com Jaime Lerner: ganhou duas vezes, na terceira cai na certa.


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