Democracia nos clubes



O Clube Curitibano, tangido pela onda da participação em assembléia gigante, com milhares de associados, quórum superior ao das decisões sindicais para greve e outras formas de mobilização, decidiu impor à diretoria que restabelecesse a mensalidade de R$ 75, que pretendia reajustar, e a submeteu a auditorias e até a possíveis revisões contratuais envolvendo a atual e a gestão anterior.
Claro que há o risco do ''assembleísmo'', a discurseira especialmente dos que não têm compromisso com a realidade e se valem do ''frisson'' dessas reuniões para impor os seus pontos de vista. Entre essa hipótese lastimável, centrada no império da demagogia, e o imobilismo, é preferível o agito porque ele significa o empenho da massa associada em partilhar o poder.
O Clube Curitibano tem um dos maiores orçamentos do Paraná, superior pelo menos ao de 280 municípios, lastreado em sua expressão patrimonial cada vez mais em expansão (projeta-se junto à área de golfe, uma das maiores do País, um complexo para desportos aquáticos). E as suas eleições são renhidas, mobilizadoras, como se deu na mais recente. Um dos dirigentes que mais contribuíram para a fase atual foi Luiz Gonzaga da Motta Ribeiro, autor de uma gestão revolucionária, mas que em função do decidido em assembléia fica sujeito ao crivo das investigações.
Há muito tempo se fala em participação no governo, sindicatos e entidades estudantis e até no universo empresarial. A tradição de autoritarismo permeia todo esse complexo, bastando ver a minoria tirânica que ocupa a UNE, ou os nichos das entidades patronais, peleguíssimas, como forma de expressão direta do que ocorre na administração pública.
Episódios como os da mobilização cívica em Londrina e Maringá e agora no caso específico da venda da Copel mostram que as maiorias silenciosas vão ter daqui para a frente com o que se preocupar. Pode ser que se trate de momento atípico e que de repente isso passe. Vamos curtir enquanto é tempo, esperando que tal processo irrigue as instituições. As vaias discretas a Lerner no Teatro Guaíra e agora, sábado passado, no cinema do Cristal Plaza são indicativos sérios. Ele foi ver o ''Moulin Rouge'' e ficou ''vermelho'' de encabulado.


AXIOMA

Se o número de carros roubados em Curitiba do ano passado para cá já aumentou em 25%, que utilidade teve a passagem da CPI da Câmara Federal sobre o Crime Organizado e que derrubou a cúpula da Polícia Civil?

BIZARRICE Na guerra se usa camuflagem para que tropas regulares ou as da guerrilha se movimentem no matagal. O governo paranaense, valendo-se dessa lição das Forças Armadas, deveria recomendar o uso de roupas amarelo-ovo para os seus componentes. Seria uma forma de irritar os opositores que se veriam impelidos a gastar mais ovos para obter efeitos visuais apropriados.

Um que poderia dar orientação seria o Laércio Faustino Cardoso, o Frangovo, uma espécie de Carvalhinho no complexo granjeiro.



GLOSA Lerner entrou no cinema na hora em que apagou a luz. Aí um assistente gritou ''A Copel é nossa!'' e seguiram-se aplausos não se sabe se ao nosso governador ou à palavra de ordem. E também algumas discretas vaias. Esse é um dos ônus do governo; o bônus é ter ilusão de poder, que a alguns faz bem e a outros acabrunha e deprime.



EPIGRAMA Com a maquiagem de produtos, que transformam a dúzia de ovos em dez, será que o Litro, aquele, o deputado famoso, caiu em mililitros e caminha para apenas uma garrafa?



STRIKE Quando se fala no caso do PSDB, muitos recordam do havido com o PDT em 90: entre as vítimas da confusão de horário eleitoral dividido entre o partido e a dissidência estão Richa, Scalco (seu vice), Amadeu Geara, Tadeu França, Nelton Friedrich, Hélio Duque, Maurício Fruet, Deni Schwartz, isso no campo federal; e no estadual, Haroldo Ferreira, Paulo Furiatti, Acir Mezzadri e Waldyr Pugliesi. Um strike para ninguém botar defeito, derrubando PDT, PSDB e PMDB. Um dos que ajudaram a montar a confusão foi José Carlos Mendes, que lembra a circunstância de Hélio Duque ter sido indicado para interventor por Brizola naquele caso e agora no PSDB sofrer ameaça igual.


SPRAY Para evitar que se dissipe o interesse em torno do tema Copel, a oposição programa uma guerra psicológica em cima dos deputados situacionistas na base das vigílias, do massacre pela Internet etc. Tudo para validar o plebiscito. - Pretende-se levar às universidades a necessidade da consulta popular em debates e conferências e enquadrá-la como uma das formas de democracia direta. - Tanto os casos da telefonia (e dos grampos, que já deu tanto caldo) como o das patologias da Sanepar mostraram ontem que a Copel ainda é o que agrega. - Mais realistas entendem que a luta deve ser travada no Judiciário e inclusive no campo federal. Há quem ache que a consulta do governo estadual a Anel facilita essa variedade de instância. - O engarrafamento de quatro horas ontem na BR-116 mostra a quantas anda a nossa circulação tão elogiada no marketing. O bloqueio se estendeu pelas artérias urbanas. Calamidade pública.


FOLCLORE Macaco Simão disse que FHC é também produto maquiado. Ora, bem pior do que ele a maior parte dos nossos políticos. Ver os que comeram no cocho e agora posam de oposicionistas é de provocar uma Sete Quedas de vômito.


CROMO ''Almofadas de veludo o céu parece, as estrelas alfinetes prateados'' Essa é do cancioneiro popular brasilis, gongorismo no auge.


AFORÍSTICO Ironia seria um prefeito querer a venda da Copel para ter, enfim, a sua fonte luminosa na praça principal.


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