O chute na sambiquira



Querem um conselho? Não façam o leilão da Copel em Curitiba. Vamos assistir àquelas cenas degradantes das primeiras privatizações com militantes do PSTU dando pontapés na sambiquira de executivos e corretores ou até engravatados inocentes que passarem pelas proximidades com pastinhas 007. O ganho em prestígio da Bolsa de Valores da terra e com as comissões auferidas não compensaria pelo vexame que obteria facilmente repercussão internacional.
Outro conselho, este ao governador: não saia por aí, como se fosse no seu tempo de prefeitura, quando podia andar de pedalinho no Passeio Público, tomar caipirinha no Bar do Pasquale, tirar sambinha de caixa de fósforo junto com nosso querido Nireu Teixeira ou contar, com muita graça, anedota de polaco. Já havia levado um aviso no Guairão, aquela vaia ''bocca chiusa'' que causou tanto constrangimento e foi, todo faceiro, assinar convênio ontem em Arapongas e acabou praticamente tocado pela multidão. Pelo jeito isso vai virar um esporte de mau gosto, um ''happening'', que, apesar de pouco civilizado, faz parte dos riscos dos que entram na via tortuosa da política.
O que não dá para suportar é ver figuras como Giovani Gionédis, que foi o dono do cofre do sistema e que articulou as primeiras medidas para privatizar a Copel, querendo ''beliscar'' com avidez o tema da estatal para exercício de inútil proselitismo. Ou ainda tentarem sugerir que Hermas Brandão é uma espécie de estadista do terceiro milênio dissimulando neutralidade em relação ao governo quando com ele sempre esteve, mesmo depois de afastado da pasta da Agricultura por causa de irregularidades em contratos de adequação de estradas rurais. Os méritos inegáveis, que possam advir das ações de um e de outro, o primeiro contestando o edital que acabou não saindo, o segundo obtendo liminar relativa ao caucionamento das ações da Copel (a tropelia dos precatórios) pelo Itaú, não elidem essa realidade: como baixou o nível de nossa política!
Para quem se habituou a ter figuras como Munhoz da Rocha, Accioly Filho, Ney Braga, Parigot de Souza, José Hosken de Novaes, entre contemporâneos, é duro conformar-se com a safra que aí está. Uma safra sáfara, desértica.


BIZARRICE


Atenção: o estadista de hoje pode ser o Jader Barbalho de amanhã.
Assim se deu aqui no Paraná com Leon Perez e no Brasil com Collor


AXIOMA Qual o voluntariado mais fácil de montar: um em defesa do governador ou para hostilizá-lo? A resposta bem dada, sem prevenções, a essa pergunta é mais eficaz do que qualquer Ibope ou DataFolha.

GLOSA Será que só os deputados estaduais de Minas são marajás com ganhos de mais de R$ 60 mil? Nesse assunto, os daqui permanecem sempre unidos com aquele tradicional ''olho de pedir pão'' para causar pena nos outros. E como o PT daqui perdeu o hábito de entrar nesse tipo de batalha (o que não ocorria com o Pedro Tonelli e o Doutor Rosinha) vai prevalecer a caixa-preta, hermética, mais misteriosa do que a bolsa de Pandora.

EPIGRAMA De elmo e armação metálica, o governador e os seus secretários poderiam andar livremente por aí protegidos de apupos e de ovos. Dava ontem, em Arapongas, para fazer uma reflexão: imaginem se o prefeito fosse aquele político sereno e equilibrado como ninguém, o Waldyr Pugliesi. De qualquer forma, não deixa de ser uma generosa compensação.

SPRAY Como pioneiro em pesquisa de opinião pública, o Ibope é substantivado tal qual a Brahma entre as cervejas. - Por favor, garçom, me dá aí uma Brahma da Antárctica! A expressão é aplicável a quem deseja conhecer como foi afinal o ibope do DataFolha ou do Gallup. - Pois apesar de toda essa força nominal, andam confrontando o Ibope contratado pelo PSDB e que deu Alvaro Dias com grande vantagem na cabeça com o da ''Experience'', acertado com o PMDB, que mostrou Requião, pelo menos em Curitiba, na frente. - O ''Experience'' é de propriedade de Bruno Lopes, que durante anos gerenciou em Curitiba o Ibope e por isso é até hoje chamado de ''Bruno do Ibope''. - Quando uma pesquisa é contratada para medir credibilidade e sai contra os interesses do cliente ela, obviamente, é guardada a sete chaves. No Palácio Iguaçu deve haver centenas delas. - Prova, porém, de que o governo estadual não está nem aí com esse tipo de preocupação foi o fato de ter aparecido em rede de televisão para falar sobre a Copel. Deveria esperar, ao menos, a poeira assentar. E, vejam bem, o desempenho do governador não foi mal; ao contrário, saiu-se bem. Só que o tema está passionalizado demais. - Outra prova de que subestima a sua impopularidade deu para perceber ontem ao não criar salvaguardas eficazes para evitar o recuo em Arapongas diante da hostilidade da massa. Isso contamina, tal qual no faroeste o pistoleiro famoso é desafiado por outros até chegar a sua vez.

FOLCLORE Seria terrível se agora a cada deslocamento do governador, mesmo para fora do País Nova York, Roma ou Paris a ''colônia'' paranaense decidisse apupá-lo, seguindo a onda local.

CROMO Ela, com porte de águia, está no símbolo do Paraná: a harpya. Só que suas garras rompem as cascas frágeis, por causa dos defensivos químicos, dos ovos que choca. Esperança é a reprodução em cativeiro.

AFORÍSTICO Nunca se viu tamanha sincronia na incompetência entre governo e oposição. Quanto mais buscam identidade mais se parecem iguais.


- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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