O governo está anunciando que vai abrir os protocolos. E faz isso em meio a intensa propaganda por todos os meios de comunicação, mas adotando um ritmo bem ao jeito de Lerner, quer para a sua ‘‘reflexão política’’ com mais capítulos do que ‘‘A Indomada’’, quer para os feitos até agora secretos de sua gestão. Tudo o que está contando nos anúncios é velho, mas adota a técnica da meia verdade ao não clarear, por exemplo, que os 4 anos de isenção do ICMS são prorrogáveis.
Age no melhor estilo de Hitchcok, fazendo suspense com o óbvio. Lembra em tudo um strip-tease dissimulado em que a bailarina finge que vai tirar todas as peças do vestuário a começar das luvas e que acaba mostrando apenas o joelho. Se isso ocorresse numa casa de espetáculos daria revolução e bronca do consumidor no Procon.
Ao demorar, de forma deliberada, na entrega dos pedidos do Banco Central sobre a situação financeira, balancetes, prestação de contas aprovada, mostrou, de forma clara, que havia percebido o desgaste dos senadores Osmar Dias e Roberto Requião e que tiraria partido da desídia para acentuar a sua condição de vítima de uma traição. Levou dois meses para entregar documentos que qualquer administração minimamente organizada faria em menos de uma semana.
O governador está consciente de que o divisor de águas na eleição vai ser esse -á a chegada dos investimentos e o peso das concessões feitas. Como a mudança beneficia Lerner, aos seus adversários não há outra opção senão a de mostrar os efeitos perversos desse novo ciclo econômico e a impossibilidade de ele dar respostas a problemas imediatos como o desemprego, como se vê na Grande Curitiba nessa taxa delinquente de 14,4% e referente ao mês de março.
A rigor, o governo não precisa detalhar os protocolos antes que os demais estados o façam. Percebe-se, pois, que está manipulando o tema a seu bel prazer.
BIZARRICE Luis Carlos Romanelli, deputado hoje sem teto (porque não tem aquelas casinhas da família para entregar aos eleitores), diz que as tais pesquisas favoráveis ao governador devem ter sido feitas no Instituto Jaime Lerner. Só que a do Requião, dita em Brasília, de que tem 60% das preferências no Paraná (e na qual embarcou até o Carlos Chagas), o Roma não atribuiu a uma reunião de família do interessado.
SPRAY Voltemos à empulhação do último anúncio do governo sobre os protocolos e que repete a mentira de que dois terços dos investimentos vão para o interior e apenas um terço para a Região Metropolitana. Vejamos em indústria mecânica o que acontece: são R$ 519 milhões e meio de inversões, dos quais três fora da Grande Curitiba.- São eles o da Trutzchler em Ponta Grossa, de R$ 13 milhões; o da Tormec (R$ 10 milhões) de Cornélio Procópio e o da Indusfrio e Special Inox (de R$ 1 milhão) em Londrina.- Vejamos os demais, todos da Grã Curitiba: o maior é o da Eletrolux, de R$ 150 milhões, em Fazenda Rio Grande; o da New Holand (R$ 80 milhões) em Curitiba; o da Refripar-Electrolux (R$ 20 milhões) em Curitiba; o da Denso (R$ 50 milhões), Dana Corporation (R$ 15 milhões) e da Detroit (R$ 130 milhões) também em Curitiba.- Campina Grande do Sul leva os R$ 17 milhões da Orbis Mertig, Pinhais os R$ 4 milhões da Munters; São José e Quatro Barras os R$ 22 milhões da Bertrand Faure e assim por diante.- A lista de outros gêneros industriais repete o processo como se vê na de material elétrico e de comunicações que de um total de R$ 92,2 milhões só tem uma referência a Londrina da Endroid Indústria Eletrônica de R$ 1 milhão. O resto é da Região Metropolitana, a saber Equitel (R$ 53 milhões), Furukawa (R$ 20,5 milhões), Equitel e Tecpar (R$ 3 milhões), todos na Capital.- E é por essa incapacidade de dizer a verdade (explicar, por exemplo, que os chamados fatores locacionais favorecem Curitiba) que o governo vai se enrolar politicamente num tema que não sabe enfrentar: o dos desequilíbrios regionais internos.- A ABA-ABIPEME, que faz classificações sócio-econômicas, cometeu um equívoco na que fez recentemente sobre a Grã Curitiba ao dizer que tem 2 milhões 135 mil 700 pessoas. Está por fora e, como o governo, não enxergou a avalanche migratória.- Segundo o painel da ABIPEME, que mede padrão de vida pelo número de bens e eletrodomésticos ou título universitário, Curitiba tem só um 1% na classe A1 cuja renda média mensal seria de R$ 5.584.- No outro extremo da pirâmide teríamos 6% de classe E, com ganhos de R$ 229,99. Feita a nova divisão com números atualizados, a renda cairia porque a população aumentou.- Quem tem três banheiros em casa ganha mais pontos e vale a pena lembrar o que Millôr Fernandes disse: ‘‘O sujeito leva a vida inteira para ter três banheiros e quando o consegue está urinando no carpê.’
NIETZCHE O vereador Jorge Samek, a respeito do anúncio do governo sobre os protocolos, citou uma frase do filósofo Nietzche: ‘‘O governo mente em todas as línguas de bem e de mal. Fale o que quer, ele mente.’
FOLCLORE Ainda a respeito dos protocolos e desses investimentos que estariam em maioria no interior (para a ótica mendaz do governo, prevendo a onda que isso provocará no próximo pleito, tal qual se deu na disputa municipal) o que se pode dizer é que a mentira tem perna curta e o mentiroso nariz comprido.
CROMO E de repente dá saudades daquele amor do tempo em que a gente lia ‘‘A Moreninha’’ e o coração disparava em namorar à traição a normalista. Essa carga não é dos nossos dias e o meu sonho é que retorne na sensibilidade dos meus netos.
AFORÍSTICO Mas que papelão o lançamento dos ‘‘Jogos da Natureza’’ no Rio! É algo que envergonha e constrange. É a caipirice travestida de malandra.

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