Um canal de controle



Claro que a oposição vai tentar inflingir o máximo de desgastes ao governo em função do leilão da Copel: uma enxurrada de recursos judiciais virá por certo, e ao lado deles as dramatizações em entrevistas e discursos, promessa de uma CPI nacional. Se os partidos que defenderam a proposta popular sabiam que era difícil emplacar a proibição, eles deveriam ter em mente as alternativas para manter a luta ante a consumação de uma derrota, apesar de apertada, bem previsível.

Depois de queimar os cartuchos das impugnações e recursos e das ações políticas (discursos candentes no Senado e Câmara Federal, dentre eles), caberia estabelecer alguma forma de controle desses recursos que advirão da venda da Copel, saber se efetivamente haverá a drenagem de 70% para a tão decantada capitalização do Fundo de Previdência e que eliminará por certo um nó ou, mais do que isso, um ponto de estrangulamento das finanças públicas e acompanhar o fluxo dessa grana, para quais compartimentos afluirá.

Em Londrina, sugeriram que houvesse esse canal no caso da sinistra venda das ações da Sercomtel para a Copel e pelo jeito não funcionou. Tanto que até hoje se conhece apenas uma pequena parte do ''iceberg'' de lama que aluiu a gestão de Antonio Belinati e o levou à cassação, por obra e graça mais da sociedade organizada do que por qualquer outro motivo, sem deixar, é claro, de reconhecer a vigilância do Ministério Público.

Conforme o ágio da venda e que deve ser altíssimo até pela importância do ativo, um dos melhores do País haverá dinheiro demais, algo aí em torno de uns R$ 4 milhões a R$ 5 bilhões, feito o desconto dos 70% da Previdência. E essa cornucópia pública tem que ser vigiada com o máximo rigor até pelas trampolinagens feitas exemplarmente no Banestado, isso sem falar nos Jogos da Safadeza.

A luta não terminou, e mesmo que se consuma aquilo que parece inevitável no leilão da ''jóia da coroa'', o papel da sociedade é exigir transparência e com ela o acompanhamento das aplicações desses recursos. É o mínimo que a exigência elementar de civilidade está a impor a todos.




BIZARRICE

O PM batia com tanta força no manifestante, que dava a impressão de que o fazia com o governo que não acata as suas demandas



AXIOMA Terminada a votação no Legislativo, com a vitória do governo, a bancada situacionista foi comemorar no Palácio Iguaçu. Os da base aliada que deixaram o governo eram os subversivos opostos aos subservientes.



GLOSA A cada agito em Curitiba, agora vai ser preciso um esquema especial para isolar os punks. Eles são muito radicais para serem enfrentados com piadas como aquela de que a maneira de afastá-los é usar um desodorante, como se faz com uma cruz com o Drácula.



EPIGRAMA A produção avícola com o governo Lerner vai aumentar. O ovo que atingiu o secretário Lubomir Ficinski e o deputado Duílio Genari pode ser apenas o sinal de um ciclo e um estilo de manifestação. A coincidência é que um foi ovocionado em Toledo, e outro é da região, e foi atingido pelo objeto oblongo calcário na Boca Maldita.



SPRAY Surpreendente o número de jovens da Academia da Polícia Militar que foram mobilizados para ações dissuasórias e de repressão no Centro Cívico. - Raramente um desses alunos é casado, razão pela qual não precisa se entender com a esposa que apronta novas manifestações. Muitos PMs, logo depois de esvaziado o espaço da celebração, faziam fila nos orelhões para comunicar às esposas que estavam bem. - Mais de 75% dos PMs mobilizados eram de alunos da academia, o que não deixa de ser temerário, embora boa parte deles possa ter uma boa base de adestramento. - Muitos dos 600 alunos da academia ainda permaneciam pela manhã no Centro Cívico e se valeram dos ''Ligeirinhos'' para deixar o local. - O uso massivo dos alunos da academia não deixa de constituir-se num sinal grave dos problemas de recrutamento e de efetivo. Nem todos estão preparados convenientemente para ações de ''abafa'' como as havidas em torno dos carros de som. - Quem pensa que a imagem da polícia batendo em estudantes e demais manifestantes vai ter o mesmo rendimento daquelas contra o magistério no governo Alvaro Dias (1988) se engana: o público em maioria repele agressão, mas também não aceita baderna como a da invasão da Assembléia ou apedrejamento do Palácio da Justiça. - Uma coisa, porém, é clara: Lerner e seus auxiliares vão ter grandes dificuldades quando aparecerem em público, mesmo em Curitiba, da qual o governador é um dos seus mitos. - Muito boa a iniciativa de cortar o monopólio das carteirinhas de estudantes. Se UNE e UBES dependem de concessões do gênero para sobreviver é porque já nascem na cultura do mais aberto fisiologismo. A alegada desmobilização não tem qualquer fundamento. Se confiam na mística das entidades, é fácil obter recursos no meio da própria massa estudantil, principalmente das escolas públicas e gratuitas.



FOLCLORE Um setor palaciano, diante das vaias no Teatro Guaíra e manifestações hostis no interior, está sugerindo que o governador do Estado se valha de carro blindado para os seus movimentos no Paraná. O aparato é menos supérfluo do que muitas coisas como os 500 cargos em comissão, as mais de 20 secretarias e sacadas como a dos Jogos da Safadeza.



CROMO Você vinha do mar, quando a calmaria pintava o horizonte, adornada de hipocampos e anêmonas; as medusas urticantes não a magoavam. E por isso você se fazia mito dominando o cenário.



AFORÍSTICO O PSDB postiço do Paraná lembra o PDT laranja anti-Brizola que ajudou a eleger Requião. Será que como farsa a história aí se repete?



- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

mockup