Direito à obstrução



Na tradição parlamentar universal está consagrado o direito à obstrução e ele foi exercido, em toda plenitude, no caso do projeto de iniciativa popular que impede o leilão de nossa maior empresa, dentre as públicas e privadas, a Copel. O sismógrafo das tendências é que mostrava, na oscilação das posições, a quem caberia o exercício da obstrução parlamentar: mais vezes, por certo, à oposição, mas igualmente, em alguns momentos, o situacionismo dela se serviu.

A história dos parlamentos está cheia de exemplos do gênero e uma das mais heróicas se deu na Itália, com oradores de oposição se revezando, em discursos intermináveis, por vários dias, contra mudanças na legislação eleitoral e que privilegiariam a aliança governista. Um festival de retórica, discursos candentes e, é claro, os exageros teatrais com a minoria posando de estóica no martírio pela causa da democracia.

Tanto o governo como a oposição pouco fizeram para que, no caso específico da Copel diante do novo modelo energético e a pressão do FMI (a nossa empresa de energia foi citada expressamente junto com as unidades da Cesp como moeda de troca, em termos de ajuste à filosofia cosmopolita, no encaminhamento do empréstimo de US$ 15 bilhões para ''blindagem'' antiespeculativa), tivéssemos um pouco mais de razão do que de emoção, fato predominante também no plebiscito da Sercomtel anteontem em Londrina. Um amontoado de clichês, de lado a lado, marcou ontem a algaravia parlamentar a pretexto de encaminhamento de votação.

Nossas forças políticas não se esforçaram em momento algum para romper com a simplificação do maniqueísmo, a redução radical ao choque entre o Bem e o Mal, e ao contrário nele surfaram. De qualquer forma esse estilo de atuar não impediu que se visse no conflito um pouco da vitalidade democrática perdida no dia a dia das deserções da classe política, merecedoras da repulsa da maioria.

Como é que menos de três anos passados, o mesmo tema passou com larga maioria no Parlamento paranaense? Essa a indagação abismal que mostra a incompetência oficial.



BIZARRICE

Terminada a batalha da Copel, teremos a retomada do movimento das esposas dos PMs, a greve dos professores e a pressão do funcionalismo que há seis anos não obtém reajuste salarial. Entre uma crise e outra haverá, por certo, uma nova viagem de Lerner ao exterior







AXIOMA Um setor oposicionista apostou outra vez na invasão da Assembléia e nos confrontos abertos com a polícia: para ele, braços, pernas, costelas e cabeças quebradas funcionariam como aqueles ''ex-votos'' das capelinhas milagrosas.



GLOSA A diferença entre personagens da novela ''Porto dos Milagres'' e os da nossa política é clara: aqueles só pensam naquilo (trepar ou empatar) e os daqui só pensam naquilo também (vender a Copel ou bloqueá-la), o que não deixa de ter igualmente uma certa conotação erótica.



EPIGRAMA Vejam como o mundo mudou: pretende-se forçar o Ministério da Saúde a impedir que os amantes de ''A Presença de Anita'' continuem a fumar. O fumo é o intervalo entre as furunfadas. Se tirar a baforada, uma antes outra depois, teremos apenas sexo multimodal, que faria do ''Kama Sutra'' uma infantilidade.



SPRAY O governo foi de uma incompetência radical no caso Copel: perdeu, em duas semanas, a folgada maioria que detinha para votar a matéria. - Subestimou as forças de oposição como a representada pelas federações da Agricultura e da Indústria, OAB, CNBB, e não percebeu que quanto mais o processo se prolongava mais energia acumulava nas forças contrárias à privatização. - Acusado de derrama de dinheiro para acertar a base parlamentar, o governo fazia os desmentidos até que ''pintou'' uma fita de vídeo em que, segundo a oposição, aparece o deputado Chico Noroeste assediado pela grana oficial. - A cada momento um lance emocionante, mais paixão na fogueira, enquanto na praça do Centro Cívico prosseguia a discurseira de cima dos carros de som. - A batalha da informação foi perdida pelo governo e uma de suas agências, na Internet, produzia entrevista em que o Jaime Lerner não era o gaguejante de sempre, mas um clone articulado verbalmente, o que é sabidamente postiço. - Aliás, ontem pela manhã, na CBN Curitiba, Lerner teve desastrada presença numa entrevista em que tentou desqualificar os senadores de oposição (essa bancada só existe por sua incompetência e oportunismo ao firmar o acordo branco com Alvaro Dias) e foi repelido na sequência e chamado de mentiroso ao declarar que os irmãos Dias e Roberto Requião impediram que a Copel operasse como empresa-espelho da Eletrobras. - Nem tudo, porém, é divergência: hoje às 20 horas, no anfiteatro do 7º andar do Hospital de Clínicas, 178 paranaenses de todas as correntes políticas atualmente em conflito se unem em torno da diretoria da Associação Amigos do HC sob o comando de Fernando Miranda. A solidariedade aí é imperativa.



FOLCLORE Quando o choque entre manifestantes e a PM parecia inevitável, ontem no entorno da Assembléia Legislativa, um ''terrorista'' declarou que os bombeiros viriam lançar água da Barragem do Rio Iraí na multidão. O efeito, dizem os gozadores, foi maior do que bomba de gás lacrimogêneo.



CROMO Cerejeiras em flor mostram seus tons na hora da passagem da festa dos ipês-roxos para o amarelo-ouro.



AFORÍSTICO Basta olhar as cenas circenses em torno do caso Copel para se entender por que os políticos cada vez têm menos credibilidade e se afundam na mais transbordada das cafonices.



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