Luiz Geraldo Mazza
Do sonho ao pesadelo
O presidente da República tem um projeto, no qual se atira com ênfase maior: manter a aliança que o elegeu no governo, apesar das vantagens momentâneas da oposição nas pesquisas. É obstinado, energético, não um entediado como Lerner que se mostra um apático em tudo.
O grupo de Alvaro Dias tem uma obsessão: a de voltar, a qualquer custo, ao Palácio Iguaçu, o que é legítimo, mas com o estilo de sempre na base do personalismo, como agiu no PMDB, quando candidato presidencial, e, saindo em último lugar, não respeitou a decisão da convenção, recusando-se a apoiar o vencedor, Ulysses Guimarães. Se não apoiou um símbolo como esse, dá para imaginar o que faria se o escolhido agora fosse um Serra ou Malan. No momento, ele se vale do seu grupo para minar a estratégia presidencial, localmente.
Pode ser que o presidente tenha um pesadelo, mas pode ocorrer com outro lado. Alvaro ganhou um mandato de senador, quase biônico, protegido por um acordo branco feito com Lerner, evidência da forma como encara a política. Aliás, tanto ele quanto Lerner que desejava todas as garantias para vencer, ainda que estivesse dando por um troco em cima de Requião que o esnobara em 94.
Com as ações do PSDB local em defesa de um militante já em processo de expulsão, comprova-se materialmente tudo o que a direção nacional suspeitava que se tramava aqui. O próprio Alvaro está achando que se repete agora o que houve em 90 com a dissidência estabelecida no PDT, e que o favoreceu e por extensão a Requião, quando Brizola interveio em favor de Lerner e botou o Hélio Duque como interventor. Se Hélio levar a pior de novo como naquela vez poder-se-á dizer que quem com intervenção fere com uma intervenção pode ser ferido.
OVO Quem nasceu antes: o ovo ou a galinha? Falar dessa dúvida metafísica é algo que desde anteontem não se deve propor ao diligente secretário do Desenvolvimento Urbano, Lubomir Ficinski, que foi ''ovocionado'' em Toledo. Uma figura, hoje mítica no Brasil, Mário Covas, passou por essa.
Lubomir declarou na hora que a mancha da sua roupa sai na lavanderia, mas não poderia dizer o mesmo do ato dos estudantes que o apuparam. A inutilidade da agressão é inócua como o delicado revide verbal. Na invasão do Legislativo, a oposição transformou um ato de selvageria em heroísmo dos estudantes.
PARANÓIA O deputado Luis Carlos Martins (PSL), declarou na Rádio CBN de Curitiba que as galerias no Legislativo deveriam ser protegidas com vidro à prova de bala. Aí um ouvinte sugeriu que se fizesse um ''papamóvel'' para o deputado, o que impediria os seus leitores e ouvintes de dar-lhe ''um beijo no coração.''
Quem vai precisar de ''papamóvel'' urgentemente é Lerner, que já foi apupado em vários municípios e até no Teatro Guaíra, aí pela elite. E os secretários, que fizerem o ''regra 3'' em seu favor, correm o risco de constrangimentos como o sofrido por Lubomir. A primeira vaia e o primeiro ovo são como a sarna: basta começar para coçar.
PM, O ALVO Uma coisa que a Polícia Militar deveria aprender de uma vez por todas é a de ser cautelosa com os políticos de um modo geral. Eles sempre a usaram, tirando o corpo na hora em que ela é obrigada a agir, como se viu com Alvaro Dias em 1988, quando a PM, evitando a invasão do Palácio, dissolveu o agito dos professores em greve com bombas de efeito moral. Alvaro jogou toda a responsabilidade na PM. Todavia, não pôde evitar o desgaste pela exploração que Lerner faria do tema em sua campanha. Os políticos (Ricardo Chab e Aníbal Khury) derrubaram o comandante do Policiamento da Capital, Honório Bortolini, o que levou de arrastão, em ato solidário, o comandante Mainguê.
Agora os políticos novamente tiram o seu da curva, afastando o coronel Aramis Serpa, comandante do Policiamento da Capital, que agiu com correção no cerco ao Legislativo. Aí se unem os macunaímas da situação e oposição, inclusive os desastrados deputados que fingiram não saber que a entrada era pela lateral para ganhar a atenção da mídia e faturar um pouquinho mais de emoção.
Os PMs, que, por imposição do dever, viram-se obrigados ainda recentemente a remover esposas de colegas do bloqueio aos quartéis são usados, de forma a mais sórdida, por essa gente sem ética e com a qual o governo concorda. Nojo.
LATINÓRIO Um advogado que havia acabado de lustrar seu sapato por um desses engraxates ambulantes, foi procurado pelo mesmo profissional pela segunda vez no mesmo dia, com uma diferença de minutos. Fazendo graça, ele usou o brocardo latino ''Non bis in idem'', regra jurídica de que não se pode julgar o mesmo feito mais de uma vez. Surpreendentemente veio a resposta por parte do lustrador de sapatos: ''Alea jacta est'' ''a sorte está lançada''.
Com a crise que anda por aí e com o excesso de bacharéis no mercado, um deles pode se habilitar a essas artes. Mais forte seria se dissesse com a máxima entonação ''Res sic stantibus'' e por aí a fora.
DECLINAÇÃO Por falar em latim, lembro do professor João Mazzarotto a ensinar a primeira declinação ''Rosa-Rosae-Rose-Rosam-Rosa-Rosa''. E nós aqui no jornal que temos Rosana e Rosane como decliná-las?
HIDROVIA Vem aí mais um argumento para mexer com a venda da Copel: o alegado compromisso, ainda do tempo da Bacia Paraná-Uruguai, lá por 1958, do chamado uso múltiplo do Iguaçu. O projeto está elaborado e como peça pirandelliana à espera de um deputado que o assine. Um ônus a mais para a vencedora do leilão.
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