Luiz Geraldo Mazza
Um pouco de filosofia
Pressionado pelas falanges do governo e da oposição, o deputado Litro quase virou cálice, como o daquela música do Chico Buarque, levado à UTI do Hospital Vita e mergulhado numa ambivalência a lembrar o príncipe Hamlet, caveira de Yurik à mão, a declamar o ''ser ou não ser''. Após ouvir a banda de música oficial e resistir, o quanto pôde, à persuasão do senador Alvaro Dias com aquela empostação de ''espíquer'' de novela radiofônica (esclareça-se que ele o foi, quando mais moço, um bom ator no Norte), o Litro ficou à beira de um infarto. E tudo tinha começado antes quando, após longa correria, não conseguiu desvencilhar-se do meirinho que vinha citá-lo em dois processos.
''Ser ou não ser. Eis a questão.'' Assim são os primeiros versos do solilóquio do príncipe atormentado de Elsinor (Dinamarca). Um dos meus mestres de Filosofia raciocinava com aquele rigor dos escolásticos que ''ser e não ser ao mesmo tempo é que não se pode ser'', abismado em paradigmas epistemológicos e mergulhos na ontologia. Pois dá para imaginar o drama não apenas do Litro, mas do próprio Aparecido Custódio da Silva, amedrontado com a hipótese de ser desconvocado e substituído pelo Nelson Justus, o que o exporia a processo movido por seus assessores da Câmara Municipal, acusando-o de haver ficado com a parte do leão dos seus ganhos, já que perderia a imunidade.
Quem também viveu seu momento de Hamlet foi o presidente Hermas Brandão. Teve em suas mãos, com o voto de minerva, a oportunidade de mostrar que é a favor do projeto de iniciativa popular no adiamento da matéria por 90 dias, que, convenhamos, faria um bem enorme a todos. E votou contra, daí porque, para amenizar a sua própria situação, admitiu, junto aos estudantes invasores da Assembléia Legislativa, que se pintasse um empate ontem votaria pelo projeto proibitivo. É mais um convite à reflexão filosófica quanto à autenticidade dos raciocínios para não falar da lógica, agredida durante toda a sessão circense de quase dois dias e que teve a sua continuidade ontem com o bloqueio da PM no Legislativo e quase levou deputados a pedirem habeas-corpus no Tribunal de Justiça para entrar no Plenarinho.
Pior do que a mediocridade do Legislativo é a pobreza e a incompetência do Executivo em sua postura tediosa diante de tudo, ouvindo assessores que mais parecem, por seu acacianismo, com esses manequins de alfaiataria. O Legislativo corre mais riscos com o adiamento da matéria para segunda-feira e de repente quem acaba numa UTI é o próprio governador ou um dos seus inúteis auxiliares, autores indiretos dessa obra máxima de ''non sense'' que daria um balé bufo premiado.
BIZARRICE
O deputado Orlando Pessuti, no meio do conflito, entre oposição e situação na madrugada, caiu da vertical para a horizontal e manteve o cigarro aceso na boca. Isso não o classifica, embora provavelmente pense isso de si mesmo, como ''mocinho'' que no faroeste clássico brigava sem derrubar o chapéu
AXIOMA Até segunda-feira, a oposição vai comemorar como vitória o adiamento da votação do projeto que proíbe a venda da Copel. Tal qual fez no andamento da votação do pleito em Curitiba quando entronizou Vanhoni antes do tempo. Como a torcida atleticana, é preciso comemorar qualquer batalha, já que o destino da guerra ou do campeonato a Deus pertence, como lecionava Armando Falcão.
GLOSA Uma ilegalidade flagrante ontem no Palácio Legislativo: os cães ferozes da PM não usavam focinheira, como determina a Lei Municipal.
EPIGRAMA Prejuízos no Plenário da Assembléia não foram tão grandes quanto o imaginara Hermas Brandão. Com a limpeza geral ficou faltando acertar a fiação. Resta agora chamar para o serviço o cabo Luis Antonio Jordão, que entende do riscado e entregou a história dos grampos no gabinete do governador.
SPRAY A pauta da sessão de hoje do Órgão Especial do TJ é rica: dos 40 feitos, 27 deles adiados, há sete em que a Paraná Previdência é ré, litisconsorte ou autora. - Há três pedidos de intervenção federal no Paraná e outros nas cidades de Borrazópolis, Grandes Rios, Bom Sucesso, Reserva e Três Barras do Paraná. O tema é invariável: não pagamento de precatórios. - Há também uma denúncia-crime do Ministério Público, originário da Comarca de Pato Branco, contra o secretário-chefe da Casa Civil, Alceni Guerra, decorrente de um procedimento de caráter administrativo. Com ele estão denunciados Milton José Steffens e Paulo Roberto Barela. - Cinco Ações Diretas de Inconstitucionalidade (Adin) constam da pauta e vários mandados de segurança em disputa de cartórios. - Ato preliminar da intervenção no PSDB regional e expulsão de Alvaro Dias e seguidores: pela instrução 0004/1 a direção nacional cancelou as convenções municipais de amanhã, prorrogou o mandato dos diretórios por 90 dias e o relator do processo que pediu a dissolução do tucanato regional (autor: Basílio Vilani) é o Madeira, aquele que pede defenestração do senador paranaense. Hauly não quis se dar por citado e pode arrumar mais encrenca.
FOLCLORE 1 Estudantes invasores deixaram um enigma ao desenharem um enorme porco nas paredes. Como parecia referir-se a gordos, a oposição também chiou.
FOLCLORE 2 Deputados numa encruzilhada entre a boca rica da Copel e a alegria mordômica da viagem européia patrocinada pela Faep.
CROMO Quando Curitiba era mais fria ouvíamos o urro do leão do Passeio.
AFORÍSTICO Neivo Beraldin se queixava que um PM estava armado no plenário e que isso contraria o regimento. Mas o regimento do miliciano é outro: pode ser de cavalaria, infantaria, intendência.
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