Luiz Geraldo Mazza
A tomada da pastilha
A Assembléia Legislativa invadida, o povão pisando nas mesas dos deputados que corriam em busca de proteção, dentre eles o presidente Hermas Brandão (e que produzia uma cena de filme pastelão), parlamentares revelando falta de aprumo físico e caindo de forma ridícula no chão como se posassem para anúncio da cerveja que desce redondo, já que seria impossível imaginá-los como promotores daquela outra que refresca até pensamento. Para alguns, delirantes é claro, aquilo parecia, em tudo, a reedição da Tomada da Bastilha, como aliás os primatas da política normalmente encaram um simples ato de vandalismo como a quebra de um orelhão.
Não é a primeira vez que o Legislativo paranaense se torna alvo desse tipo de selvageria. Ninguém esquece do Rafael Greca, quando oposição, valendo-se da greve dos professores, a exigir que abrissem os portões da Casa que lembravam uma ponte levadiça de castelo medieval; e, na sequência, uma invasão de todas as instalações num dos mais absurdos e demagógicos atos de violência, perpetrado pela concessão da Comissão Executiva que fez isso para mostrar-se boazinha com a massa ululante.
Como a história se repete e como farsa: a greve professoral e a sua dispersão com bombas de efeito moral se deram no governo Alvaro Dias em 88 imagine-se a ironia em plena Constituinte ainda em fermentação e ontem um dos que estavam lá era o senador, que tenta voltar ao Palácio Iguaçu, e que foi pressionar o deputado Litro, tucano chapa branca, o que acabou levando o parlamentar para uma UTI, quase igual a essa que ameaça o governo.
Pessoas que normalmente participam desses eventos que definem como históricos, quando são mais histéricos, acreditam-se no ''olho do furacão'' e na véspera de assumir o poder. Só que isso é passageiro. Coisas mais importantes do que essa, como a passeata dos 100 mil pela morte do estudante Edson no Rio, e aqui em Curitiba a mobilização do prefeito Iberê de Mattos para garantir a posse de Jango em 1961, inclusive fornecendo armas ao povo e convocando voluntários, não tiveram os efeitos imaginados. Os milicos ficaram mais fortes. E no caso do Iberê, este, poucos meses depois, foi candidato a deputado estadual e acabou, com todo aquele frisson das massas, na 8 suplência do PTB.
Dá para imaginar que essa imaginária Tomada da Bastilha, de ontem, depois da ocupação em massa do Palácio Legislativo, não teve sequer o efeito da tomada de uma pastilha de anfetamina. Saindo a venda da Copel, o desgaste de agora do governo poderá transformar-se na alavanca de sua recuperação administrativa, política e financeira. A moral é incurável. Mas o que é a moral para os políticos, salteadores de legendas e oportunistas?
BIZARRICE
Superada a crise, o presidente Hermas Brandão poderia garantir, com verbas públicas, a frequência de deputados a academias para melhorar o seu desempenho físico: no confronto de ontem, alguns caíam de maduros. É bom que vão treinando para a hora em que o eleitor decidir persegui-los. O eleitor nem precisa treinar, pois é movido pela indignação
AXIOMA Quando Alvaro Dias cobrou fidelidade do Spada e do Litro esqueceu que a sua está sendo também avaliada no PSDB nacional. Mas político é assim: seja um petista ou um Alvaro Dias, sempre acha que pode fazer o que nega aos outros.
GLOSA Criticado pelos oposicionistas por sua hesitação crônica, o deputado Sérgio Spada disse da tribuna que não era daqueles que cortam dos dois lados e exclamou de uma forma pérfuro-contundente: ''Eu sou espada!''
EPIGRAMA Qual a medida exata dos nossos deputados: espada ou litro?
SPRAY Filhos de deputados e de secretários de Estado foram aliciados para as manifestações de barbárie no Centro Cívico, mas desaconselhados pelos pais, mesmo quando favoráveis à Copel, à não participação. - A polícia falhou no sistema preventivo e ficou sem ter como agir depois de consumada a derrubada das grades e o pula-catracas coletivo. Se o fizesse haveria sangue. - Resultado: a decisão será tomada em compartimento estreito (Plenarinho) e sem público porque o plenário foi demolido e exige reformas. Uma das diversões dos manifestantes foi urinar no recinto. - Aliás, em 88 houve algo parecido com a invasão da Casa, por vários dias, por obra e graça da Comissão Executiva. - Em todo o episódio ficou manifesta a ausência de visão política do governo que jogou nas costas do deputado Amaral, seu líder, toda a responsabilidade de controle de uma rebelião na base aliada. - Lerner é um incompetente político não apenas por ter perdido maioria folgada de 31 a 22 para chegar ao drama do 27 a 26, mas por não haver sabido conduzir a cartada mais importante de sua carreira e do governo. - Perdeu, entre outras, a batalha da informação: confiou nos gênios do marketing que produziram os anúncios mais estúpidos na pretensão de simplificar assunto complexo como se vender a Copel fosse como transar com produtos de feira. - Nessa quase unanimidade de apoio à não venda da Copel se percebe que o fator emocional a tudo sobrepujou porque o nível de informação das coisas é quase nenhum. Daí porque o tema foi ideologizado.
FOLCLORE Deputados temem perder a viagem a Europa (da Faep) por causa do caso da Copel, hoje mais do que nunca em alta-tensão. Poderiam repetir D. Pedro e subvertê-lo: ''Se é para o bem do Brasil, digam ao povo que eu vou.'' É o ''Dia do Fico'' subvertido, adequado a Macunaíma.
CROMO Até quando o Rio Iguaçu permanecerá sereno em Vila Palmira?
AFORÍSTICO Villani quer intervenção no PSDB local para ''desalvarizá-lo''.
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