Só virtudes na Copel



Pelas declarações de amor à Copel dá a impressão que a nossa maior e melhor empresa pública não tem defeitos. No entanto e é a oposição que mais a está vangloriando ela sempre foi um instrumento político fortíssimo do poder e tanto que se tornou imperioso lançar aquela campanha dos ''postes de madeira'' para tentar a derrubada, no governo Richa, de alguns dos seus radicalismos em matéria de padrões de construção e viabilizar a eletrificação rural. Quem comandou essa resistência foi justamente Nelton Friederich, então secretário do Interior e a cuja pasta a estatal estava subordinada.

Especialmente no regime militar a empresa operou como QG, até por deter os quadros de excelência em campos multidisciplinares, de ações políticas e no preparo de programas de governo. Alguns dos seus funcionários sofreram discriminação de tal ordem, quando do governo do PMDB, que acabaram demitidos e só retornaram com a vitória na Justiça Trabalhista e que obrigou o Poder Público a indenizá-los.

Como as estatais brasileiras, a Copel detinha um poder estamental fortíssimo e era para os nossos padrões o que a Petrobras é para o País com a vantagem de não ter expostas as suas deficiências em crimes ambientais, por exemplo. Um dos seus grandes momentos políticos foi na gestão Alvaro Dias, em que este acabou denunciando a formação de cartel de barrageiras na licitação da Usina de Segredo. O fato é que a CR Almeida, alijada daquele processo, embora obtivesse na Justiça Federal a adjudicação da obra, primeiramente do canal de desvio, acabou, agora no governo Lerner, recebendo R$ 90 milhões num acordo sob o fundamento de que perderia a demanda na Justiça.

A Copel perseguiu algumas fantasias como a da reversão do Rio Negro, idéia de sua figura máxima, Parigot de Souza, e que, se colocada hoje em discussão, seria massacrada pelos ambientalistas e a facção dos ecochatos. Só esse fato é a prova de que a Copel, como a Petrobras, jamais se abriu ao debate e por isso mesmo uma cultura tecnocrática a domina. Uma das suas limitações cruciais está na circunstância de ter se ligado apenas à hidroenergia, apesar de ter vivido os dois choques do petróleo que deveriam mudar seus rumos.

A maior prova de que a Copel se fecha autarquicamente é o fato de os seus quadros, os do passado e da atualidade, terem tido escassa participação nos debates sobre a sua privatização, quando a rotina do seu funcionamento criara na corporação aquele senso de engajamento radical. Os menos convencidos da defesa da companhia foram exatamente os seus próprios quadros, o que é no mínimo melancólico. Isso jamais ocorreria com a Petrobras e muito menos com o Banco do Brasil, essas sim expressões apropriadas à ocupação orgânica do aparelho do Estado, de que tratava Gramsci, como etapa necessária do processo.



AXIOMA

Pacote ético no Parlamento é o que se pode chamar de contradição em termos, de antinomia




BIZARRICE Alvaro Dias é muito mais autêntico que Jaime Lerner: vestiu um boné de sua candidatura ao Senado e a do outro ao governo. O Lerner, não. A foto, que é desta Folha, corre o Paraná inteiro. Aliás, o Requião costuma pautar as ações de Alvaro Dias. Chamou-o de ''tchutchuca'' e ele assinou a CPI. Prometeu reestatizar a Copel e Alvaro entrou na dele. Requião o pautou também na derrota em 94 ao abandoná-lo para eleger-se senador.



GLOSA Governo ético é aquele que cumpre acordos pré-eleitorais. Por exemplo: indicar quem assume os jogos eletrônicos (bingos, caça-níqueis) e quem cuida dos desmanches, isso na parte alternativa. Um loteamento que só cuidasse da parte formal, institucional, não seria honesto.



EPIGRAMA Ontem, no Legislativo, dava a impressão de que a Casa tinha sido tomada por uma epidemia de Parkinsson. Havia quem tremesse tanto que a sessão, pode-se dizer, foi tremenda.



SPRAY Todos estão cansados de saber que a Copel, há muito, está privatizada e que o leilão visa apenas transferir os 31% das ações. - Para testar sinceridade é muito simples: é só ver os deputados que foram contra a venda e que a aprovaram dois anos passados, e também os que fizeram reverter a CPI da Copel-Sercomtel e que agora por motivos estranhos viraram oposicionistas. - Quem tem memória lembra que uma epígrafe comum marcava a entrega de recursos do BNDES para acertar problemas do caixa estadual: ''Antecipação de Recursos para Fins de Privatização''. - Quer dizer: faltou atenção dos oposicionistas e um melhor monitoramento do processo. A larga diferença, favorável ao governo em 1998, apenas revela que as fricções na base aliada geraram formas incontroláveis de oportunismo. O que tem de pefelista usando jargão marxista é de estarrecer. - Fim do mês tem bate-chapa no Sindsaúde: a situação indica Elaine Rodella e a oposição um trabalhador (Jerônimo) de Londrina. - O médico Paulo Maciel lança dia 17, 19 horas, na Livraria Dario Veloso, o livro ''A revolução da Medicina''.



FOLCLORE Uma outra briga na base aliada empolga: a relativa ao domínio dos jogos eletrônicos e dos assuntos da G-Tech e da Racimec. Não é, portanto, só o caso Copel que dá a impressão de Baile da Ilha Fiscal e de ''Os últimos dias de Pompéia''. O governador Jaime Lerner pode repetir, tal qual FHC, o conceito de Luís XIV: ''Depois de mim, o dilúvio.''



CROMO De você guardo mais o sabor doce-amargo do Campari do que a suavidade ou o calor dos vinhos delicados ou densos.



AFORÍSTICO Conquistas se obtém por etapas, mas também a tapas, como se viu.



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