Os pássaros e as galinhas



Tenta-se criar um clima de suspense na votação de hoje do projeto que proíbe a venda da Copel. A atmosfera tem tudo de artificial e parece, que por mais incrível, todos os lados dos ''contra'' aos ''a favor'' passando por aqueles da bancada imponderável do ''antes pelo contrário'' mentem e dissimulam uma força que não possuem. O ''background'' de um Legislativo interesseiro, que conseguiu a proeza de reverter a CPI do caso Copel-Sercomtel, é apropriado a todo o tipo de especulador e vendilhão. O ''caixa'' está estourado e há ainda promessas oficiais de votações anteriores até hoje não cumpridas.

Remete-se, pois, esse clima, para o cenário de suspense de um Hitchcock em ''Os Pássaros''. Desconfia-se, no entanto, tão inverossíveis as versões em voga, que o quadro estaria mais apropriado para um simulacro daquela obra prima do cinema que poderia denominar-se ''As Galinhas'' que sabidamente voam com dificuldade, mas que teriam em comum com alguns personagens a volúpia de comer, garantida pelo poder triturador da moela.

O governo está determinado e ''só pensa naquilo'': a venda da Copel, o quanto antes, para viabilizar, segundo seus argumentos, o sistema previdenciário que, de fato, está ''quebrado'', mas que, com uma injeção de R$ 5,5 bilhões, anularia seu déficit operacional e faria com que o orçamento dispusesse de mais de R$ 100 milhões ao mês para investimentos. Isso sem falar no saldo do leilão, o denominado ''ágio'', que se calcula elevado por causa da insistência do vendedor em dar um preço mínimo fora da realidade.

Apesar do grande número de obras, pequenas e médias principalmente, nas quais investiu menos de R$ 1,4 bilhão, em mais de seis anos, o final da gestão Lerner disporia de um valor de três a quatro vezes superior, num cronograma restrito de dez meses, que daria um ''carnaval'' de eventos em época eleitoral com atendimento de demandas negociais nada desprezíveis.

Um setor oposicionista se volta mais para esse dado, o da cooptação pelo volume de dinheiro em obras, do que por uma questão doutrinária ou de amor esparramado à empresa pública. E até uma ala maliciosa acredita de tal forma que pode ganhar a eleição que já imagina assumir esse ônus-bônus de vender a jóia da coroa em seu proveito, daí querer ganhar tempo. Dá para compreender também porque o governo se dispõe ao sacrifício da popularidade (o desgaste promovido pela venda) para botar a mão nessa bufunfa.





EPIGRAMA

Tanto a oposição como o situacionismo contam com o ovo no fim da galinha na questão da Copel. Haja, porém, o que houver, o cenário será bem apropriado: igual a um pau de galinheiro

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