Um ''furo'' pedagógico



A repórter Carmem Murara, desta Folha, obteve um furo espetacular e que abre, pelo menos em parte, o ''livro negro'' do leilão da Copel e até indica elementos do edital ao revelar a separação das áreas verdes das usinas do processo de privatização. Depois daquele outro feito que mostrou a avaliação de auditoria alternativa no sentido de que o patrimônio da Copel vale pelo menos três vezes mais do que o parâmetro mínimo pretendido oficialmente, estamos dando contribuições efetivas para abrir o que está fechado e que tem todas as características de mais uma dentre tantas patologias deste governo.

Prova-se com esses dois elementos jornalísticos, sem falar nos editoriais, um traço aventureiro e, sobretudo, de extremo açodamento, pois não é possível que só agora se negocie junto aos ''advisers'', questões como a da separação dessas áreas verdes para futura exploração turística. E há uma usina em particular, a primeira das importantes construídas pela Copel, a de Capivari-Cachoeira, que, afora sua área de abrangência em plena Mata Atlântica e que se estende do planalto à vertente oceânica, é relevante reservação de água potável para Curitiba e Região Metropolitana, sempre considerada em muitos dos estudos estratégicos sobre o assunto ao lado de outras hipóteses como a de captar as águas de baixo comprometimento do Rio da Várzea, também distante.

Dá para imaginar uma situação incrível: haver necessidade dessa água, ainda mais depois da barbárie da Barragem do Iraí, e o governo ter que pedir penico à multinacional que assumir a Copel para dar de beber ao maior pólo urbano do Paraná. Claro que trazer essa água da bacia de acumulação até as estações de tratamento teria um custo imenso, quem sabe ainda aumentado com o pagamento de pedágio na BR-116 que certamente haverá dentro em pouco.

Esses desdobramentos vão dando uma idéia do atropelo que marca a privatização da Copel e, especialmente, a compulsão, equivalente à ''febre do ouro'' que ataca garimpeiros e faiscadores, que toma conta do Palácio Iguaçu em sua paranóia para acertar as contas públicas que desmontou em menos de seis anos e para tentar, no desespero, reverter o processo eleitoral que ora o condena.



BIZARRICE

Se a Federação da Agricultura fosse sincera em sua posição contra a venda da Copel não inventaria esse ''trem da alegria'' para levar os deputados à Europa, e faria da resistência ao leilão a sua prioridade maior





AXIOMA Caso a Adma (Kássia Kiss) da novela ''Porto dos Milagres'' viesse a Curitiba e tomasse água, morreria envenenada por auto-sugestão. Mais apta do que uma Lucrécia Bórgia, já envenenou quatro personagens.


GLOSA Ingo Hubert, presidente da Copel, não poderia, no entender de juristas e especialistas em Direito Constitucional, acumular a sua posição com a de secretário da Fazenda. O acúmulo, além de tudo, é o cúmulo, já que subordina todo o setor financeiro ao propósito do leilão da estatal.



EPIGRAMA Se o Al Gore, que é ligado a ações de ONGs no litoral paranaense, é a favor da internacionalização da Amazônia, dá para imaginar as boas intenções que tem relativamente ao Paraná e o seu ''distanciamento'' relativamente à cupidez imperialista.



SPRAY Da tribuna do Senado, Requião acusou o ex-secretário da Fazenda, Giovani Gionédis, de estar comprando parlamentares para que votem pela privatização da Copel em favor da germânica RWE. - Gionédis replicou sugerindo que Requião está retaliando para evitar-lhe a candidatura. Má informação compensada com outra, mais ridícula. - O escritório Pereira-Gionédis não tem cliente interessado no leilão da Copel, conforme o presidente do PSC, que se declara contra a privatização e que isso é questão fechada em seu partido. - E agora essa da ausência de condições mínimas, sob o aspecto jurídico e dimensionamento fundiário, dos condomínios Vilas Rurais? É mais um vexame dos criativos. O pior é que tentam transformar os núcleos em urbanos o que os submeteria ao rigor de tributos intoleráveis como o IPTU. - Nosso governo estadual está, cada vez mais, com a cara da Seleção Brasileira. Faz um ''panamá'' de negócios e joga pior do que o escrete panamenho. - De hoje até terça-feira, guerra de informações (e contra-informação) no caso Copel. Todos estão anunciando vitória, mas em blefe coletivo inexiste pôquer. - Sérgio Prosdócimo informa que a Refripar jamais negociou benefícios para instalar-se em Fazenda Rio Grande e que isso se deu quando a Electrolux assumiu o lugar da empresa paranaense e foi contemplada com área naquele município. - Só falta depois do ''panamá'' que vai ser a venda da Copel surgir outro com a entrega a amigos do rei para a exploração do turismo ecológico (na Região Metropolitana, se falarmos da água, é escatológico) o entorno verde das usinas hidrelétricas.



FOLCLORE O Brasil hoje perde para a Argentina até em questões conjugais. Dona Marta, prefeita da segunda maior cidade da América Latina, já separada do senador Suplicy, deve casar com o assessor argentino.



CROMO Da página branca de Mallarmé à tela cinza do computador o embrião invisível, mas pulsante, do poema.



AFORÍSTICO De estado terminal, com o plasma da Copel, o governo Lerner acaba com saúde de vaca premiada.



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