Uma batalha perdida?


Não é apenas a determinação do presidente da Assembléia Legislativa, Hermas Brandão, de colocar a matéria mais relevante do momento, o projeto que proíbe a venda Copel, no início da próxima semana, que indica esvaziamento do arsenal oposicionista. Há um outro fator e esse de natureza geopolítica, externa: para obter os US$ 15 bilhões do FMI para ‘‘blindagem preventiva’’ do mercado na hipótese de ações especulativas, o governo brasileiro relacionou as estatais que estão na bica para leilão, dentre elas a Cesp e a Copel.
Excluiu acertadamente, e esse ato de prudência se justifica, pelas bravatas do governador mineiro que já usou até a mobilização da PM para sugerir atos de resistência, a Hidrelétrica de Furnas. Com isso, FHC deu a dimensão devida aos estragos que Itamar poderia fazer com a fragilidade das forças de oposição no caso paranaense, em que pese o fato de mais de 70% da população ser contrária à privatização da Copel.
Nossa oposição é tão fraca que deixou em primeiro lugar passar o projeto autorizatório, inconstitucional porque a iniciativa para a alienação de patrimônio deve ser necessariamente de competência exclusiva do Executivo e nem chiou na época, dois anos passados.
Em segundo lugar, agarra-se num tipo de encenação – placar indicando os que votam a favor e contra tentando reprisar a experiência das ‘‘Diretas, jᒒ e que não impediu que os inimigos da eleição levassem a melhor na parada e ainda por cima fossem reeleitos – que não leva a lugar algum. A passeata dos 10 mil, longamente elaborada, não reuniu mil e mostrou seu caráter oportunista quando petistas vaiaram o senador Alvaro Dias no final melancólico do comício no Centro Cívico.
No lado positivo há a comemorar o amplo leque de organizações, mais de 400, que se engajaram, e o sucesso da campanha de assinaturas, mas aí terminam os méritos do ‘‘front’’ político. A energia acumulada, que se valeu das cisões na base aliada em troca de interesses não atendidos, ainda é insuficiente. Também as promessas dos senadores Alvaro Dias e Requião de reestatizarem a Copel não enganam ninguém e, o que é pior, não minam a confiança dos que concorrerão ao leilão, prova de que o Ibope de ambos têm, na perspectiva dos compradores, valor inercial, equivalente a zero.
O caminho é um só, o Judiciário: insistir num caso de competência que não pode ser delegada como o da iniciativa do Executivo, questionar a formatação, erros formais de editais e comunicados e aprofundar a guerra em cima do preço mínimo. Aí se pode obter prazo que nem a Igreja e o arcebispo conseguiram.
Lerner está ao largo no oceano, perto do afogamento: a Copel é a bóia que irá salvá-lo e revitalizá-lo em curtíssimo prazo.


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BIZARRICE
Autoridades da Igreja foram novamente ontem pela manhã defender a Copel no Legislativo. Do jeito que a coisa está, nem o papa obteria sucesso. Talvez, quem sabe, Jesus. O desembargador Jesus Sarrão, por exemplo
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AXIOMA Ao governo não interessa desaprovar as contas de Requião porque isso reduziria o número de candidatos de oposição com a inelegibilidade. Quantos mais, melhor. Para o situacionismo, é claro. Péssimo para a oposição.
GLOSA Outro que corre risco de inelegibilidade é o Alceni Guerra, cujas contas como prefeito de Pato Branco foram rejeitadas. Por sinal que foi quem melhor explanou as razões da venda da Copel, ontem no Canal 4.
EPIGRAMA Segundo fontes oficiais, o governo concluiu 11.500 empreendimentos. Isso foi relatado anteontem em função do relatório do Tribunal de Contas que diz haver 928 obras estaduais inacabadas. Prova de que Lerner, tido como artista em marketing, não sabe se comunicar, apesar da dinheirama que gastou. O investimento nessas obras foi de R$ 1,4 bilhão. Como a venda da Copel vai dar, na pior das hipóteses, com o preço mínimo lá embaixo, uma reserva superior a R$ 3 bilhões, dá para imaginar o carnaval que se fará em 399 municípios. É isso, mais do que a perda patrimonial, que excita a oposição. Até porque a Copel não é mais do Estado por deter pouco mais de 30% do patrimônio.
SPRAY Lerner é lento para decidir, mas nem por isso sábio. Empurra com a barriga o caso da Procuradoria-Geral. A instituição, com sinais visíveis de acefalia, fica prejudicada com a permanência de Joel Coimbra. - Um novo ofício foi encaminhado ontem pela presidente da Associação dos Procuradores a Lerner acentuando a delicadeza da situação. - Mas igualmente lenta para decidir é a Comissão de Ética do PSDB nacional: anteontem era para ser julgada a expulsão de Alvaro Dias e a provável intervenção no Paraná. Mais uma vez o tópico foi retirado da pauta. - Prova da competência inegável de Alvaro Dias ainda que encarando um cenário totalmente adverso. Se houvesse isso com Lerner seria como naquela desastrada tentativa de ingresso entre os tucanos.
FOLCLORE Um psicólogo justificou os alambrados do Centro Cívico. É um dado subliminar a manifestantes com aquelas grades sugerindo um prisão. Semana que vem vai funcionar de novo na hora de votar o não à venda da Copel.
CROMO Essas algas azuis da Represa do Iraí quando vistas no microscópio são majestosas: nesse universo é possível desvendar belezas na podridão.
AFORÍSTICO Panamá não é apenas a seleção que andou por aqui. É algo cabível, na acepção de negócios fáceis, ao que acontece no Brasil e no Paraná.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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