Mais breu do que brio


Estamos em pleno apagão e ele se deu, com todas as evidências, ontem na Assembléia Legislativa quando um acordo secreto – e que dá bem a medida da sordidez da prática política e razão para a hostilidade do povo a essa fauna que trabalha como ninguém pela ditadura, ainda que de forma aparentemente indireta – garantiu a aprovação das contas dos governos Requião, Mário Pereira e Lerner. Assim, houve um escambo, o regime de troca primitivo, entre os Jogos Mundiais da Safadeza do robusto governador e a epidemia das diárias frias do seu antípoda, o homem do PMDB que abomina os políticos que mudam de partido, mas festeja o ingresso do ex-pefelista Reinhold Stephanes, na sua tchurma.
Houve certamente uma compensação entre o alegado superfaturamento dos helicópteros e as safadezas monumentais da Banestado Leasing, esquisitices do Banco del Parana, o vendedor de cachorro-quente que movimentava R$ 1 milhão por dia, e as trampolinagens da Corretora com os precatórios.
No meio do breu, embora não tenha havido a referida matéria-prima com a acepção argentária – mas no sentido de ausência de luz, o ecossistema do Conde Drácula – faltou brio e todos acabaram ratificando as proverbiais concessões do Tribunal de Contas que aponta falhas isoladas nos seus relatórios dos governos (até hoje só um teve contas rejeitadas, o de Haroldo León Perez, porque tinha sido cassado e fizera críticas ácidas àquela Corte), aprovando, no entanto, o registro prévio da documentação oficial, como sempre o faz. O episódio em si desmantela o moralismo safado e adiposo da moda, quando todos os Macunaímas deste País posam de Catão na terra, de varões de Plutarco.
Ora, a política só tem sentido quando ao consenso se opõe o dissenso, quando ao poder descendente do governo se contrapõe o ascendente da oposição ou da sociedade organizada, como ensina Norberto Bobbio. E nesse jogo de verticalidades se trabalha pela referência horizontal, a maioria.
Dá nojo, engulhos, ânsia de vômito ver essa gente posando olimpicamente de porta-vozes da moralidade e das massas oprimidas quando são os seus mais sistemáticos manipuladores. A Assembléia Legislativa perde todos os dias uma oportunidade de ouro para um testemunho de democracia das mais atuantes. Esse episódio de ontem é mais sórdido, por seu sentido de barganha, de acerto, de aproximação de interesses, do que o recuo havido na questão da CPI Copel-Sercomtel, no qual sempre ficou a presunção de moeda de troca das mais tilintantes. O pacto havido neste 7 de agosto, o mês tido como do desgosto, é pior porque se tratou do acordo das cumplicidades, da falta de caráter, da macunaimização do parlamento.
Houve, enfim, mais breu do que brio e só faltou um baile de confraternização.


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BIZARRICE
De uma coisa todos podem estar certos: com o ingresso de Stephanes no PMDB melhorou, consideravelmente, o QI do conjunto
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AXIOMA Requião está certo em atrair Paulo Pimentel também para o PMDB. Além da sua inegável rede eleitoral, o ex-governador detém rede de comunicação que, aliás, trata o senador com simpatia.
GLOSA Sobre a quebra de isolamento, como se dá com o PMDB do neo-requianismo, Leonel Brizola costumava comparar: ‘‘Levamos um caminhão basculante de abóboras e com algumas laranjas no meio, no sacolejar do veículo elas vão se ajustando. Mas o importante é que eu controlo a direção, na boléia.’’
EPIGRAMA Ridícula a promessa de reestatização da Copel, que Alvaro Dias chupou de Requião com o detalhe do registro em cartório, o que a torna mais risível. Se ao menos tivesse o condão de inibir os participantes ao leilão vá lá, mas os grupos que o disputarão não dão a menor bola para essas encenações. Essa empresa, a Copel, jóia da coroa, tem mais apelo do que unidades da Cesp.
Já disse e repito: o front é o judicial, a cena política não convence. Dá pra discutir tudo desde a formação ao preço mínimo bem como a origem ilegal da autorização da venda que deveria partir exclusivamente do Executivo.
SPRAY Mais um capítulo da novela do PSDB regional será encenado hoje e é bem possível que a intervenção saia antes do que imaginam os interessados em manter o domínio ‘‘laranja’’ do partido contra a direção nacional. - Ainda anteontem dirigentes nacionais estiveram no Rio Grande do Sul na busca de bases logísticas para ganhar o pleito com a dupla PSDB-PFL se não der para levar o PMDB junto: a sedução é em cima de Antonio Brito, que vai bem nas pesquisas, e que poderia tucanar, já que Pedro Simon exerce poderes nada desprezíveis na agremiação. - Dirigentes regionais do PSDB continuam olhando a questão nacional como subsidiária da local, daí o intento de montarem um cavalo de Tróia para respaldo ao alvarismo. - Há uma articulação nacional bem definida para alavancar o situacionismo federal, ao qual o senador Alvaro Dias nunca foi fiel, posto que não se possa dizer o mesmo de Hauly, muito leal na condição de vice-líder na Câmara Federal, o que até poderia salvá-lo.
FOLCLORE O PSDB do Paraná, segundo os mais realistas, pode perfeitamente se coligar com o PFL. E a prova disso é que na reeleição de Lerner o acordo branco funcionou normalmente, tanto que Alvaro Dias, apesar de eleito, tem muita semelhança com os biônicos do período militar. Para eleger-se, Lerner não hesitou em arriscar-se a ter toda a bancada senatorial na oposição.
CROMO Agora a transição dos ipês-roxos para os amarelos na primavera temporã.
AFORÍSTICO Como é possível refletir sobre política sem tomar Engov?
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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