Luiz Geraldo Mazza
A autofagia da praça
Há quem condene a propalada autofagia paranaense. Outras a valorizam como um contraponto forte ao conformismo da terra. No encontro da comissão de ética do PSDB nacional, quando foi tratado do caso dos alvaristas do partido, Basílio Villani entregou a lista dos seguidores do senador e Max Rosenmann, colocado em posição oposta, atribuiu tudo que acontecia no Paraná à dupla Richa-Scalco e detalhando interesses negociais de familiares do presidente da Itaipu. - Uma cena adequada aos que aceitam o clichê sociográfico da autofagia.
Joffre Cabral Silva, que revolucionou o futebol paranaense com o Atlético em - 1968 (mais pela mística - do que pelo patrimônio, como se dá com Petraglia) e também com a vida social quer no Clube Curitibano da tradição, quer ao criar o Santa Mônica Clube de Campo, cosmopolita e massivo ao mesmo tempo, era um dos - que mais batiam nessa tecla até por ser vítima desse tipo de contestação. Uma piada clássica do Joffre se voltava para os sinais da heráldica paranaense: apontava para o agricultor que aparecia no dístico, de sega à mão, como alguém preparado para ceifar e cortar a cabeça do primeiro que tentasse aparecer.
Ora a autofagia, tão condenada pelos formalistas e por um tipo de paranismo safado, que se nutre da omissão e até da pilhagem, é uma forma de moderação na cumplicidade, normalmente dominante. Uma lavagem de roupa suja como essa do PSDB nacional tem seu lado saudável como se deu também com o inconformismo de Pedro diante do irmão presidente Fernando Collor, e que rendeu o momento maior da vida política deste País e que abriu caminho para outras como a cassação dos anões do Orçamento e também, mais recentemente, de ACM e Arruda, e que influirá poderosamente no cerco ao Jader Barbalho. Basta lembrar que Geraldo Brindeiro, procurador-geral da República, havia se recusado a emquadrá-lo anteriormente. Belinati e Gianoto, de Londrina e Maringá, cassados, são, sem sombra de dúvida, consequências do mesmo processo.
Assim, pois, a autofagia tem seu lado bom, embora irrite com exageros como o de um curitibano ganhar um Prêmio Nobel - de Ciência e alguém da Boca Maldita fazer a observação de que o referido fazia troca-troca, quando criança, lá nos poços do Rio Barigui como a Volta Funda, o Toco e a Carniça.
ÁGUA Origem da vida, símbolo máximo da depuração pelo batismo, a água é uma referência sobre estágios de civilização. Não há como o governo sair, ao menos em curto prazo, da entalada em que se meteu com o episódio da Barragem do Iraí na Região Metropolitana. Não há como, depois de um exemplo de degradação do meio ambiente desse porte, absolver o governo estadual e aceitar a empulhação de que é um cultor da ecologia.
Há algo pior do que os miasmas que Hamlet detectou na Dinamarca quando se percebe que o cheiro de uma válvula apertada de WC é menos forte do que o da água para beber e para as abluções.
Não é possível aceitar que, a despeito de todas as cautelas preventivas, incluindo o Rima, estejamos com um problema desse porte. A desmoralização é geral e irrestrita. Todos entramos pelo cano, inclusive o tão celebrado macuquinho do brejo.
O ESPETÁCULO De amanhã até o dia 8 haverá coleta e análise da água nas estações de tratamento e em dois pontos da rede de distribuição pela Sanepar. Como já não sabe o que fazer para minorar ou neutralizar o problema que criou, a companhia toma tais providências que dão impressão de movimento e cautela.
Dias passados, uma das concessionárias do pedágio usou os serviços de alpinistas para verificar as condições dos viadutos e obras de arte na 277. Claro que a operação tem a sua utilidade, mas o seu lado externo, ainda mais depois das façanhas do Niclevicz, é mais relevante: a cena, o teatro.
Um dos que lecionaram sobre isso foi Roger Gerard Schatzemberg com a obra O Estado Espetáculo que deu continuidade a um estudo mais filosófico de Guy Debord A Sociedade do Espetáculo, este um reciclador do marxismo. Fácil é perceber no dia a dia essas evidências como o gesto de Guga desenhando o coração (só falta agora um panaca do lernerismo reclamar de plágio) na quadra de Roland Garros, a curvatura do Papa a beijar o solo dos países que visitava quando podia fazê-lo ou o atacante Petras da Tchecoslováquia em 70 fazendo o sinal da cruz junto à bandeira de córner ao fazer o gol contra o Brasil.
Especialistas chamam isso, essa linguagem gestual, de semiologia que guarda o mesmo sentido da Medicina quando aplicado em Comunicação: arte e ciência dos sinais. Por exemplo: um cidadão que, inconformado com o pedágio, na hora em que paga a sua contribuição com as mãos ao alto declara inconformismo.
A BÍBLIA Nem sempre as afirmações bíblicas podem ser usadas com finalidade pedagógica. Ninguém se sairá bem ao afirmar, de forma pastoral, em Curitiba a expressão desta água não beberei!
A Sanepar, por exemplo, quando não estava diante de um problema como esse do Iraí, costumava demonstrar que o seu produto era melhor que água mineral.
E doutrinava que bastava o consumidor colocar um galão de plástico de qualquer marca de água mineral contra o sol para perceber o tom verde das algas. Daí se poderia inferir o anátema: Das algas não falarei. Quem com algas fere com algas será agredido.
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