A folhinha do lernerismo


Lá se foi, definitivamente, a folhinha, muito bem sacada pela arte de Manoel Coelho, que ilustra, na logomarca da cidade e do Paraná, o tal compromisso ecológico. Bastou termos a mídia, e especialmente a da Rede Globo, mais aberta à realidade e aos compromissos com a cidadania e lá se foi por terra a fantasia do ‘‘marketing’’ delinquente: a água que a Região Metropolitana bebe vem de uma cloaca. E não se trata de uma cloaca singela, comum, mas de uma Cloaca Máxima, daquelas a que se referiam os romanos.
Ficou provado aquilo que já disse aqui: um Relatório do Impacto ao Meio Ambiente (Rima), ainda que bem-feito, pode não ser uma solução. Pois esse lixo, essa imundície passou pelo crivo de estudiosos e embora ele tenha alertado para alguns dos riscos, ora evidenciados, jamais se deu a ênfase da dimensão que o problema tem e que sepulta a fantasia ambiental que sustenta o grupo no poder. E a ecologia, que tanto lhes deu votos, tem tudo para derrubá-los com pompa e circunstância muito mais rapidamente do que se possa imaginar.
Que fazer? Lançar essências de O Boticário na água para que tenha o odor pestilento (completado, sinergicamente, pelo sabor de bolor) neutralizado, pagar a água mineral que o curitibano está comprando em substituição àquela da Sanepar ou esperar que o sócio francês, com o ‘‘savoir faire’’ do país de origem, encontre uma saída para o drama que terá efeitos devastadores no pleito eleitoral do ano que vem?
O desmanche patrimonial do Paraná cheira mal. Já deixou um cadáver insepulto no caso do Banestado, com o precedente das roubalheiras da Leasing e das leviandades da Corretora comprando títulos podres e pode, também, como no caso do banco oficial, deixar sequelas terríveis, como maldição bíblica, na questão do audacioso leilão da Copel. Vamos pagar por décadas por aquele dinheiro despendido no saneamento do banco arrombado e podemos imaginar, já para 2002, efeitos deletérios da venda da estatal de energia, se ela for consumada.
A água, fonte de vida e de energia, afogará os leiloeiros politicamente, e o cenário de inferno de Dante já foi enunciado nas panorâmicas e closes da Rede Globo mostrando a sordidez da principal barragem do abastecimento. O áudio e vídeo se completam sensorialmente na torneira aberta.

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GLOSA
Na escola, o rapaz respondia que o autor de ‘‘Os irmãos Karamazov’’ era Dostoievski. O professor quis saber o prenome e o aluno disse ‘‘Fedor’’. O mestre retrucou que era ‘‘Fédor’’. Aí o rapaz explicou: ‘‘Era. Porque agora é Fedor mesmo, pois acabo de tomar água da torneira’’
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BIZARRICE Alvaro Dias acredita mais no futuro do Paraná do que o próprio Jaime Lerner. Tanto que está falando em reestatizar a Copel. Ora, se admite que terá dinheiro para recomprar a estatal de energia é porque sabe que a arrecadação futura, o ICMS represado das empresas beneficiadas por incentivos fiscais, será um cornucópia sem fim de dinheiro.
AXIOMA A ‘‘desalvarização’’ do PSDB paranaense foi proposta por Basílio Villani na comissão de ética nacional. Deu a ficha de todos. Houve o repique de Max Rosenmann entregando interesses negociais de Euclides Scalco e familiares. Uma sacada bem paranaense na prática da autofagia. A orelha do Euclides deve estar, como nunca, ‘‘vermelhíssima’’. De ponta a ponta.
EPIGRAMA As ações da Sanepar só irão subir quando as algas baixarem.
SPRAY Durante algum tempo, uma parte da Universidade Federal, especialmente no setor de Engenharia e Arquitetura, era inteiramente complacente com idéias e ações do lernerismo. Isso mudou: tanto que o doutorado sobre ‘‘Meio Ambiente e Desenvolvimento’’ tem acolhido teses em maioria negadoras dos mitos sobre o assunto na Capital e no Estado. - Uma tese recente de Tânia Miranda afirma, com dados rigorosos, que a bacia hidrográfica de Curitiba (Iguaçu e tributários) está morta. Ela frisa que nem os propalados projetos do Prosan e Paraná San conseguirão evitar a irreversibilidade da situação. - Pessimismo para ninguém botar defeito, pois a despoluição do Rio Tâmisa, em Londres, parecia ser impossível e aconteceu. - O fato ocorrido no Iraí coloca mal a nossa engenharia sanitária e os nossos ambientalistas que afinal se encarregaram do Rima. Bastou um pouco de democracia, com as imagens da TV Globo, para que a farsa publicitária fosse desmascarada e a população tivesse noção das dimensões da tragédia. - Os esgotos do Hospital Adauto Botelho caíam na represa e não eram tratados. Já os do Hospital Colônia São Roque (para hansenianos) são tratados há décadas. - Uma empresa química nas imediações da bacia de acumulação (de água, algas e outros detritos) lança embalagens usadas e rejeitos nas margens do Iraí. - Irritações por conta da audiência pública da Copel: do governo por causa das 38 perguntas de algibeira do Giovani Gionédis e do escritório deste pelo fato de a procuradora, que coordenava os trabalhos, tratá-lo como dirigente do PCC e não do PSC. - Na Procuradoria-Geral, irritação quanto ao fato de o governador manter-se indeciso na substituição de Joel Coimbra e havia especulação em torno de novas irregularidades.
FOLCLORE E se chovesse água benta sobre o Iraí, ela depuraria o rio?
CROMO Borboletas amarelas ziguezagueiam no Rio do Testo e contemplando-as acabo de perder beliscadas de lambaris de rabo vermelho e de um amarelão.
AFORÍSTICO Há quem acredite que o Paraná dispensa SNI e equivalentes pela prática generalizada de denúncias de uns contra os outros. Seria uma espécie de autogestão generalizada não imaginada sequer pelos anarquistas.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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