Nada pelo coletivo


Pensar, até na hora das coligações, nas vantagens pessoais, é uma regra das nossas práticas políticas. Lula, apoiando a agricultura familiar, o que é menos oneroso do que se ligar ao primitivismo do MST, defendeu aqui a tese de que o partido, até pelos resultados obtidos no pleito municipal, deve acumular energia com a candidatura própria. Ele raciocina que essa é a melhor forma de alavancar o seu projeto presidencial. Colocando a sua eleição como prioridade, Lula dificulta a formação de uma frente oposicionista ainda no primeiro turno para esmagar o governo e conseguiu com a sua intervenção que o governo se assanhasse e comemorasse. Até o Rafael Greca se acha em condições de disputar.
É o mesmo caso de Alvaro Dias que, estando num partido nacional, pretendia que esse se subordinasse ao seu interesse e ao do seu grupo, desconsiderando que FHC se constitui na figura maior do partido e está em plena ofensiva para fazer o seu sucessor, se possível com a mesma aliança que o elegeu, mas de saída com os elos da corrente ligados ao PFL. Está aí uma das dificuldades de fazer valer a existência de partidos nacionais e de qualquer dispositivo legal que trate, por exemplo, de fidelidade gremial.
Aspirações coletivas, que deveriam aflorar normalmente da coesão partidária e irrigar todo o território nacional, perdem para as de caráter individual. Nesse aspecto, Roberto Requião parece ter revisto sua postura anterior de notória adesão ao individualismo, embora com um dado a seu favor: o de ter se mantido num só partido, o PMDB, enquanto Alvaro Dias, por exemplo, passeava pelo PST, PP, PSDB, depois de longo tempo no MDB e PMDB. É que o senador busca abrir o leque das opções no partido e atrai figuras como as de Jayme Canet Júnior e Reinhold Stephanes, o pai.
Só um completo idiota, tomado pela soberba, há de subestimar o grupo que está no poder. Os mais lúcidos da oposição, e dentre eles o senador Osmar Dias, entendem como indispensável a aliança no primeiro turno para não correr risco.
Da mesma forma que FHC recuperou alguns pontinhos nas pesquisas (e o Ciro Gomes afundou na insistência de bater no presidente com a mesma fúria com que o Max Rosenmann se perdeu por aqui como candidato do PMDB a prefeito da Capital), isso poderá mudar muito, não apenas em favor do situacionismo nacional como do local.
Vejamos alguns fatores locais: a venda da Copel e suas consequências, a liberação do ICMS represado das empresas multinacionais e das brasileiras beneficiadas pelos incentivos fiscais, injetando recursos no Tesouro, e a melhora do quadro geral. De repente, um cenário de recuperação (e de euforia, alimentado pelo marketing, o forte dessa turma) pinta por aí e o grupo emplaca, pela teimosia da oposição, o terceiro mandato consecutivo.
AXIOMA
Entre os dois barbudos no qual você acredita: no Lula ou no Osmar? Toda a imprensa nacional que registrou o esforço da cúpula do PT para atrair o senador paranaense e agora o presidenciável, em passagem por São Mateus do Sul, nega. Nada como um dito chistoso na terra do xisto pirobetuminoso

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BIZARRICE
A revitalização do bairro Rebouças, em Curitiba, é bem possível que registre um ato de Mecenas com a cessão de um moinho, pertencente a Salomão Soiffer, para um pólo cinematográfico da Fucucu. Enfim teremos nosso Mindlin.
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GLOSA Se os agropecuaristas andam na pior, não se pode dizer o mesmo da sua entidade de cúpula, a FAEP, que vive a imitar o Lerner em viagens pelo mundo. E agora ainda arrastam um trem da alegria de deputados num desses folguedos.
EPIGRAMA Qual a diferença, por exemplo, entre Lula e Churchill, Tony Blair e Tony Garcia e o Hermas Brandão e Santiago Dantas? As semelhanças certamente são mais fáceis de detectar do que as sutis diferenças. Pela analogia se chega facilmente à noção dos nossos avanços políticos.
SPRAY Não é apenas o Lula que faz gol contra quando pretende resolver a questão da fome com uma sobretaxa nas refeições ou apoiando greve de PMs. O Fórum Contra a Venda da Copel deu um vexame ontem no Legislativo com a demagogia de acender velas no recinto, manobra rechaçada por Hermas Brandão, o presidente da Casa, e que merece todos os elogios. - Essa turma vai conseguir o impossível: ‘‘Virar’’ a tendência majoritária da população pela manutenção da Copel. Já fracassaram na passeata dos 10 mil, que deu menos de mil. - O Poder Legislativo já deu um exemplo anterior de cortejamento aos movimentos de massa quando permitiu, demagogicamente, que fosse ocupado por professores em greve e por militantes da CUT. Brandão, ontem, não deu colher de chá ao circo até porque velas acesas podem servir para atos de fé e também para incêndios. - Solução do caso Copel é uma só: no Judiciário. As de caráter político o governo ganha, como se sabe. - Se os funcionários ativos e inativos da Copel comprarem ações da empresa, com descontos, vai dar a impressão de que são favoráveis ao leilão. Maioria é contra, mas o negócio é bom assim mesmo.
FOLCLORE Antes de cair, Collor pediu que não o deixassem só. Lerner prefere ficar mal acompanhado.
CROMO No latifúndio do meu sonho, a posseira permanente é um bem de raiz, onírico é verdade, nada táctil.
AFORÍSTICO O anarquismo nasce do cansaço de governo.
- O conteúdo desta coluna não reflete necessariamente a opinião do jornal.

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