Todos os governos mentem. O atual não foge à regra. Mente com um advérbio de modo, constantemente, frequentemente. Suas mentiras, ainda quando bem intencionadas, como os mitos eregidos sobre Curitiba (que provocaram, aliás, a avalanche migratória que aí está a desafiar os deslumbrados adeptos do triunfalismo a qualquer custo), são aquilo que Marx dizia da religião, ‘‘ópio do povo’’ porque embotam, anestesiam, induzem ao conformismo. Subversão contra a democracia verdadeira e não a formal, aquela da ‘‘paz dos cemitérios’’.
Um estudo do Ipardes relativo a março-abril sobre o perfil dos investimentos industriais do Paraná entre janeiro de 95 a abril de 97, detalhando as inversões, mostrava que 70,23% deles se localizam na Região Metropolitana e 29,77% no restante do território. Pois num anúncio recente em que se propala a incrível cifra de 480 mil empregos, o governo, a essa altura com o nariz maior do que o de Cyrano de Bergerac, afirma que ‘‘das 600 empresas que hoje investem 9 bilhões de dólares em nosso Estado, dois terços instalam-se no interior e apenas um terço na Região Metropolitana de Curitiba.’ O terço que o governo precisa é um daqueles de reza para um ato de contrição para livrar-se do pecado reincidente.
E vai continuar mentindo como quando falava de uma transformação que ninguém via pela circunstância elementar da inexistência de obras. É o ideário forte de Goebbels, aquele que ensinou que a mentira, repetida à exaustão, acaba se transformando em ‘‘verdade’’. Na Curitiba ecológica tivemos, anos passados, em uma enchente, nada menos de 300 casos de leptospirose. No Paraná equilibrado nós temos a carga maior de investimentos, aqueles mais dinâmicos e com efeitos multiplicadores, ou na Grande Curitiba ou no eixo que vai até Ponta Grossa, como se viu na série de protocolos assinados nesta semana pelo governador.
BIZARRICE A encenação do encontro entre Lerner e Emília, sob as bençãos do Richelieu disponível, o guru Aníbal Khury, não apara as arestas e nem resolve os problemas decorrentes das hostilidades e do desprezo à regra três do governador. Pelo jeito o temor palaciano é que Emília, assumindo o governo, faça como outro londrinense, o jurista José Hosken de Novaes, que agiu como um magistrado nas eleições ao substituir Ney Braga. Hosken é alguém que só deu lições de austeridade e humildade no governo. Cansei de vê-lo dispensar o motorista e levar às costas, como se fosse um Sísifo, as mercadorias compradas no supermercado. E deixou uma frase cortante sobre o que poderia fazer como vice-governador: ‘‘Recolher-me à minha insignificância.’ Era uma ironia educativa como as de Sócrates.
VIVACIDADE Ao tentar a aproximação entre Lerner e Emília, Aníbal Khury também joga no seu projeto: se vier a desincompatibilização e a londrinense aceitar a vice ou o Senado, como foi sugerido, quem assume o governo é justamente o guru. E dizer-se que deita e especialmente que rola já é redundância.
SPRAY A juíza de Loanda, se insistir em medidas duras para obrigar o governo a despejar invasores de terras no Noroeste, acaba se transformando numa Denise Frossard, aquela que enquadrou os bicheiros no Rio.- Desemprego na Grande Curitiba em torno de 14,4% da população economicamente ativa ou até 15% não é novidade. Trata-se de uma situação permanente, endêmica, em função do inchaço da periferia e das migrações que lembram a vasão de um rio da miséria.- Mais uma observação dos técnicos do Ipardes sobre a estrutura industrial do estado: ‘‘Observa-se a consolidação de um perfil de produção dotado de maior complexidade tecnológica, com menor potencial de criação de empregos por unidade de capital investido e mais concentrado geograficamente.’ Análise Conjuntural, de março/abril, volume 19, página 16.- De Lerner para cá, o modelo de gestão financeira do Paraná sofreu abalo: em 95 72,78% dos dispêndios eram com pessoal nas chamadas receitas correntes. Já relativamente à receita líquida, o número saltava para 102,03%. Em 96, chegou a 73,60% no primeiro indicador e a 112,42% no segundo. Dá para imaginar como está agora. Tanto que a provisão para o 13% já foi retirada da conta bloqueada no Banco do Brasil. Adeus último sinal de austeridade.- Antonina voltou a acreditar no porto e na sua influência econômica e social na região. Movimentou no ano passado 720 mil e 652 toneladas quando, em 95, mal chegara a 42 mil toneladas. Além da Flutrans (do grupo holandês IBHS) virá em breve o nove terminal da Ponta do Félix.- Governo continua irritado, mas até agora não deu resposta a uma afirmação de Álvaro Dias na CBN, no sentido de que nos primeiros cinco anos do milênio haverá uma sobra de 20 milhões de veículos sem mercado se todos os projetos de implantação e expansão da indústria automotiva forem tocados.-
FOLCLORE O jornalista Geraldo Bolda é apaixonado da ecologia. Mais da prática do que do discurso. Tanto que fez uma casa nas imediações de Porto de Cima com respeito rigoroso às características da região. Mas gosta de montanhismo e agora domina o assunto porque da primeira vez se perdeu no Marumbi e ligou, com o celular, para o Henrique Schmidlin, o Vitamina, que, diante da perfeita descrição do ponto em que se encontrava, foi orientando Bolda a sair do sufoco.
CROMO Na praia o relincho do cavalo marinho, entre sargaços e anêmonas, é o som discordante no marulhar que se ouve no caramujo.
AFORÍSTICO Quanto mais se conhece os homens públicos, maior fica a admiração pelas mulheres públicas.

mockup