Se não bastasse o fato de o Paraná ser uma sociedade desigual – conforme os últimos levantamentos do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), o pior no Sul do País e o sétimo em nível nacional – temos a desigualdade nos direitos de manifestação, como se vê nesse péssimo exemplo dos privilégios concedidos às mulheres dos PMs que fecham ruas e quartéis como se estivessem num happening.
A sensação visceral que se tem desses episódios, muito diversos daqueles verificados na Bahia, Pernambuco e Alagoas, é o de que a autoridade inexiste. Se naqueles eventos havia um absurdo, o da greve em si e o do uso das armas para demonstrações com militares encapuzados, neste o mimetismo é mais grave porque confere às esposas dos milicianos um privilégio a que nenhuma categoria pode ter acesso, o de servir de escudo a uma chantagem, apesar do suposto direito que as reivindicantes teriam na tal gratificação a que só uma minoria teve acesso, o que também envolve uma lesão à igualdade.
Que o governador não controla a área de Segurança é fato sabido. Tanto que se viu impelido, após a passagem da CPI Nacional (a estadual, ‘‘fria’’ não vale) por aqui, a desmontar a cúpula da Polícia Civil, do titular da secretaria aos ocupantes da hierarquia superior. É verdade que a PM se saiu menos arranhada do que a área civil naquelas investigações, o que não significa que tenha sido impermeável aos manipuladores da área, assentados no Legislativo, e que dirigiram a queima dos coronéis Bortolini e Mainguê.
Os rebelados alegam que o governo prometeu atender à PM depois do primeiro agito marcado pela pressão das mulheres dos militares. O secretário José Tavares nega a existência formal desse compromisso, uma vez que o governo está condicionado à camisa de força da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) e ele, como porta-voz, não seria leviano de prometer o impossível. Os atos de rebelião e motim estão aí para mostrar a inutilidade de ficar levando para o terreno da retórica um assunto que está colocado, desde logo, no campo da força.
A essa altura, providências jurídicas como a óbvia declaração da ilegalidade do movimento ou aplicação de multas de R$ 100 mil ao dia para as entidades que representam as manifestantes (e as demais que envolvem a corporação nada têm a ver com esses fatos?) são inócuas. Tudo isso prova apenas que não temos por aqui algo que se possa chamar de governo, cujo temor pânico é acontecer com ele aquilo que se deu com Alvaro Dias na tensão com os professores em 1988 e que tanto o ajudou a eleger-se. Seria um caso de justiça poética.
BIZARRICE
O governador e Dona Fani foram ao Teatro Guaíra ver Bibi Ferreira interpretar Amália Rodrigues, rainha do fado. A experiência virou um fardo: o casal foi vaiado, o que não é atitude aceitável porque grosseira, deseducada e que até serve de ‘‘background’’ para a baderna ensaiada no motim da PM
AXIOMA Homem público levar vaia é o risco. Tem acontecido com FHC, Covas foi agredido porque teve peito de enfrentar a escumalha. Getúlio, que como mito dá de 10 a zero em qualquer dos seus sucessores, foi vaiado pela elite no Jockey Club e pelo proletariado no Pacaembu. Não é consolo, mas dá pra lembrar.
GLOSA Alvaro Dias foi vaiado no fim da passeata dos 10 mil (apresentação do projeto de iniciativa popular para manter a Copel) e que reuniu menos de mil no Centro Cívico; teve que suportar as professoras de costas em comícios.
Lerner foi peitado por um empresário londrinense no Aeroporto de Cascavel, vaiado na inauguração da Arena da Baixada junto com Cassio Taniguchi (os dois são coxas e isso de repente justifica a indelicadeza na perspectiva selvagem das torcidas) e também em Paranavaí.
EPIGRAMA É de concordar-se, por essas e por outras, que há sadomasoquismo demais em buscar o poder, no exercício do qual devem existir compensações que vão muito além da simples vaidade ou ilusão de imortalidade.
SPRAY A idéia do palanque comum para Alvaro e Osmar Dias, o primeiro no PSB e o segundo no PDT, está abortada por Brizola, que não admite alianças que ajudem o Garotinho. - O recado foi dado, mas a teimosia persiste como de resto se dá entre os tucanos regionais que não perceberam que a aliança PSDB-PFL é chave para o esquema situacionista e que isso fica acima das idiossincrasias de caráter suburbano. - Uma hipótese de reparação é a imaginária retirada por Alvaro Dias da assinatura pedindo a CPI da Corrupção, mas o ônus seria tão forte para ele quanto para o partido. - O presidente nacional, José Anibal, já está no Brasil e hoje às 14h30 reúne o diretório nacional que examina se deve decretar intervenção no Espírito Santo e no Paraná. - Pelas sondagens, conforme a prioridade de FHC, a figura da terra com mais condições de poder ganhar o pleito aqui e alavancar o candidato do PSDB-PFL seria Cassio Taniguchi, já na condição de ‘‘tucano’’. - Esse raciocínio persiste em todas as unidades federativas: no Rio Grande do Sul, por exemplo, Antonio Brito seria ainda o nome mais forte no PSDB já que no PMDB perderia espaço para Pedro Simon. Como ensinava Drummond de Andrade: ‘‘Enquanto o poeta estadual discute com o poeta municipal, o poeta federal tira ouro do nariz.’’
FOLCLORE Depois da vaia, sábado, no Guairão, dá para concluir que o fado para político pode ser uma aliteração com troca de sílabas.
CROMO A hemoptise de Chopin no teclado do piano, metáfora mórbida.
AFORÍSTICO Intervir na PM separaria maridos das respectivas esposas?
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