Sou noveleiro, e daquela das 9 da Globo raramente perco um capítulo. Não resisto, porém, à curiosidade de saber o que vai acontecer na sequência e por isso dou uma olhada nas capas das revistinhas da área, o que mostra, pela tiragem das publicações, que o virtual é o universo dominante do brasileiro. Tenho um pacto com minha mulher de não aprofundar essas antecipações, mas por vezes o espírito de molecagem transborda e dou um recadinho sobre capítulos futuros. É o único futuro previsível neste País em que o realismo fantástico é o factual, o jornalismo daqui dando banhos em García Marquez, Cortazar, Llosa, Borges.
A trama anterior, ‘‘Laços de família’’, nos fez aceitar como normal a garota de programa, burguesa, classe média média, embora o ponto culminante fosse, como exemplo até para o mundo real, o da portadora de leucemia. Na de agora, ‘‘Porto dos Milagres’’, geléia geral de Jorge Amado e baianices, já absorvemos como normalidade a também burguesa Socorrinho, quase ninfômana, louca para, apesar de casada, querer viver as emoções do bordel.
Como produto da indústria cultural, a novela, segundo a justificativa corriqueira, projetaria os desejos mais íntimos das pessoas, dando-lhes a fantasia que não conseguem articular, mas que estaria em algum porão do subconsciente. E com ela o recheio dos anúncios de produtos de toucador para deixar todos mais sedutores.
Dentro em pouco, para atender a demanda ‘‘segmentada’’, acabam fazendo uma com o time da terceira idade, despertando nossas vovós para tramas eróticas e com a venda de meia-calça, espartilho (que tal a volta da cintura de vespa?), pois afinal o direito à sexualidade, dimensão-chave do ser humano, não pode ter bloqueios de faixa etária ou preconceitos. Por sinal que um dos filmes mais comoventes do cinema nacional foi ‘‘Chuvas de Verão’’, de Carlos Diegues, com um Romeu (Jofre Soares) e uma Julieta (Miriam Pires), gerontocráticos, setentões.
A escala de valores dos folhetins eletrônicos seria expressão da realidade, projeção do que está para ocorrer ou interação de tudo isso?
ANTECIPAÇÃO Estávamos, estudantes do último ano de Direito, em 1954, em viagem a Floripa. Logo na chegada do Estreito havia uma fila monstruosa para ver o filme ‘‘O Cangaceiro’’ que já havia passado em Curitiba. Pusemos a cara pra fora do ônibus e gritamos em coro: ‘‘O mocinho morre no fim.’’
É mais ou menos esse tipo de perfídia que dá para armar, a melhor delas obra do inesquecível Alvino Cruz, o Esmaga, figura popular de Curitiba. Eu vou ao teatro com minha mulher assistir no Guaíra ‘‘Otelo’’ de Shakespeare com Paulo Autran no papel título, Adolfo Celli na direção e Tônia Carrero como Desdêmona.
A trama se desenvolve e o Esmaga, que era funcionário do teatro, pega uma poltrona e começa a dizer o que iria acontecer e bem ao seu estilo: o Iago, interpretado magistralmente por Felipe Wagner, que ele dizia ser mais fofoqueiro que o Anfrísio Siqueira, iria intrigar o casal de tal forma que o negro, carregado de ciúmes, mataria a loira.
Chamei alguém do teatro para tirar o Esmaga dali. Removido do local, já que parecia o homem do ‘‘ponto’’ no relato do que se dava no palco, ele reaparece no fim, vitorioso, com a cena de violência e tragédia, põe a carantonha no meio do veludo da cortina de saída e diz, glorioso: ‘‘Eu não falei?’’
NA TELEVISÃO Na Praça da Alegria, programa tradicional da tevê, ainda no tempo do Manoel da Nóbrega, havia um esquete em que o Walter D’Ávila começava a falar de um livro que estava começando a ler. O interlocutor, no diálogo, ia recompondo a trama e o D’Ávila, irritado, entregava-lhe o livro, revoltado, pois, ao conhecer-lhe o resumo, havia perdido a graça de dar continuidade à leitura. Era um quadro riquíssimo que o histrionismo de D’Ávila tornava impagável.
DUAS ORFÃS Outra situação muito comum nos tempos em que o cinema era algo como uma catedral do lazer. Passou um filme, em Curitiba, no Cine Marabá, dramalhão mexicano, com o título ‘‘As Duas Órfãs’’. Há um momento em que um cidadão, ao desespero, bate numa porta para que o atendam. A cena é melodramática e aí um gaiato, oculto na escuridão, resolve participar. O ator grita ‘‘Maria, abra la puerta’’ e o cafajeste grita em portunhol ‘‘No puedo. Estoi a cagaire.’’
Bastava molecagem do gênero para que nos dias subsequentes um novo bandido se dispusesse a repetir o saque de mau gosto. Havia um deles, que era um tremendo brigador, que nas sessões de faroeste, pegava-se no pau por causa das maiores bobagens. Ele viu a cena e fumava no cinema, acobertado pela escuridão, sem perceber que o guarda civil o observava querendo apanhá-lo em flagrante. Quando fez a gracinha, o guarda o apanhou numa gravata e também acabou dando a sua contribuição naquele ‘‘happening’’ com a frase sentenciosa: ‘‘Pois é, mas agora ele vai evacuar lá fora. Já está evacuado!’’
CHEIRO RUIM Uma das sacanagens comuns de estudantes era abrir vidros de ácido sulfídrico no interior do cinema, o que tornava o ambiente irrespirável com o odor de ovo podre. Havia, também, a diversão da cafajestice, dos que soltavam traques, puns imensos pelo ruído. Numa sessão no Cine Palácio, em que havia até frizas e para descompensar um ‘‘puleiro’’ ocupado pela ralé e que era o ingresso mais barato (balcão) houve um desses ‘‘morteiros’’ que levou o público ao espanto. Na saída, o autor da proeza, um eslavo enorme, com o maior orgulho, identificava-se diante de um companheiro: ‘‘Que pum que eu di!’’
No Circo Queirolo, o palhaço Chic-Chic entrava em cena e o público o chamava de careca. Com um movimento de boca, sem falar, ele replicava: ‘‘É a mãe!’’
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