Luiz Geraldo Mazza
O mais grave nessa manifestação das esposas de policiais militares é que ela engendra uma forma nada sutil de quebra de hierarquia. Transformadas em escudo humano, como os sem-terra fazem com crianças, o que é covardia, levam o agito populista para os quartéis.
O fator-chave do golpe de 64 não foi a deflagração da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, esta uma resposta veemente nas ruas aos comícios das reformas de Jango (tudo trabalhado psicossocialmente pela Guerra Fria, com todos os atores reféns dessas condicionantes) mas a baderna nos quartéis com a demagogia do movimento dos sargentos que já haviam conseguido eleger deputados estaduais e federais e que esgarçavam o tecido institucional. Essa, aliás, sempre uma das fantasias na cabeça dos carbonários de todos os tempos, inclusive dos movimentos que precederam a revolução bolchevique.
Os policiais militares não estão sofrendo a décima parte do que se dá com os demais funcionários públicos do Paraná, estes, sim, há mais de seis anos sem qualquer reajuste. Em 1996, em nome de uma reposição, o governador Jaime Lerner fechou um acordo com a PM de 14 meses e que assegurou, no período, ganho superior a 110% de forma progressiva. Esse foi o fator que ainda coloca a PM daqui em situação superior em matéria de proventos às demais milícias estaduais.
O governo não pode acatar a primeira reivindicação: a de uma espécie de anistia das punições em faltas graves como desobediência e até sabotagem. Até hoje os petroleiros, que fizeram a desastrada queda-de-braço com FHC, pedem isso e nada conseguem. Outra questão: inflexibilidade em torno da multa, já decidida pelo magistrado da Vara da Fazenda Pública, Salvatore Astuti, fixando-a em R$ 100 mil por dia a cada uma das entidades representativas das esposas dos milicianos se elas mantiverem o cerco aos quartéis.
BIZARRICE
Pior, muito pior, do que o governo que temos, é a nossa oposição. A estadual, é claro. A nacional ainda é aceitável. Ao menos tem algum QI
REFLEXÃO Um sistema democrático opera com mecanismos de freios e contra pesos ou, como leciona Norberto Bobbio, ao poder descendente do governo se opõe o poder ascendente da população organizada. Limites estão sendo extrapolados e só os que apostam no caos podem admitir como legítima essa forma de manifestação. Dá para imaginar um incêndio de proporções em Curitiba e as mulheres de bombeiros bloqueando a passagem dos socorros nos quartéis.
Na Bahia, o povo aplaudiu a entrada do Exército para substituir PMs em greve. Da mesma forma, uma greve não pode ser permanente. (Margareth Tatcher, a Dama de Ferro, esclareça-se que a abomino como símbolo, deu uma lição em mineiros que permaneceram um ano paralisados sem lhes dar qualquer compensação ou ganho, um exagero a que se pode chegar com os radicalismos de lado a lado). E ninguém há de querer, até porque não há as menores condições para isso, a intervenção dos milicos. Agora com frouxidão e sem o senso mínimo de autoridade, o governo paranaense em nada contribui para obter a paz social em meio a tensões que ele próprio fabrica.
AXIOMA Quando Onaireves Moura estava com a bola toda fazia almoços no Boi Gordo com 2 mil ou 3 mil pessoas. Ontem, ao lado do Nabib Abi Chedid, para proselitismo no PSD, não reuniu nem 10% desses números. Restaurante, depois dessa, muda de nome para Boi Magro. Parece incrível que com tudo o que acontece no País uma dupla como Chedid e Onaireves ainda tenha vez.
GLOSA Nelson Justus, dos Transportes, quer a reforma administrativa para já. E sugere um projeto mínimo com otimização. Tal seria se fosse pessimização, o que é uma redundância em se tratando deste governo.
EPIGRAMA Se os políticos considerassem que a mosca azul é uma varejeira, aquela capaz de provocar o surgimento do berne, deixariam se seduzir por essa referência para seus vôos eleitorais?
SPRAY Preto no branco: aqui o despejo de óleo na Bacia do Iguaçu, no Rio o do pigmento branco, tudo por culpa da Petrobras. - A frequência dos incidentes é suspeita, dá a impressão de ser planejada e de estar a serviço de um plano para derrubar resistências e criar clima para a privatização. - Não se trata, fique bem claro, de paranóia de nacionalistas e estatizantes com uma visão conspiratória do mundo. Como dizia Hamlet há método demais na loucura. - Aliás, anos passados houve um outro acidente em território paranaense, estrada para Santa Catarina, com derramamento de óleo num rio seguido de incêndio e com acidentes pessoais. - Quebra do oligopólio no transporte em Curitiba pode ter nascido com a liminar da Vara da Fazenda Pública que obriga a URBS a fazer licitação das novas linhas.
FOLCLORE Chapa do Ratinho: Alvaro para presidente, Osmar para governador, Requião para senador. Para quem conseguiu eleger, ao menos, o prefeito da Lapa, Paulo Furiatti, é um salto e tanto. Por enquanto, o apresentador não indica ninguém para a ONU. E vejam bem, até pela frequência em Nova York, Lerner emplacava numa boa. É mais conhecido do que todos os demais. Seria paranismo em overdose.
CROMO O rouxinol se deixando morrer por um espinho no poema de Oscar Wilde: o sangue nas penas da ave canora, uma natureza viva.
AFORÍSTICO Já imaginaram se colar a intenção de pessoas que desejam ser indenizadas pela Sanepar por serem obrigadas a consumir água mineral?
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