O ex-secretário da Fazenda Giovani Gionédis, até outro dia o ‘‘czar’’ da equipe de Jaime Lerner e que hoje estende a sua influência na gestão Cassio Taniguchi, transformou-se em crítico da administração, acusando-a de armar um golpe contra os municípios na retenção do Fundo de Participação (FPM). Tenta, com isso, o proselitismo difícil no Partido Social Cristão (PSC), cujo símbolo, aquele peixe estilizado da fase mais heróica do cristianismo, acaba exibindo, como se vê, mais a condição de ‘‘ex-peixinhos’’ do sistema do que figuras iluminadas à disposição do martírio e da luta nas catacumbas.
Quem é um dos responsáveis pelo quadro de falência e desmanche patrimonial do Paraná se não o dirigente do PSC? A secura, que aí está, já existia quando ele tudo orquestrava na condição de secretário da Fazenda. Nem todas as pessoas que rompem são, por exemplo, como Itamar Franco ou Ciro Gomes em relação a FHC. É possível afastar-se, mudar de partido, sem bloquear o passado. E isso o ex-secretário não está fazendo.
Para fins de disseminação da imagem partidária, Gionédis tenta aparecer como o porta-voz dos municípios à beira de mais um trambique oficial: o da compensação de dívidas municipais com precatórios, efetivamente uma sacanagem. Na crise que eles estão enfrentando, o alarme é uma convocação para mobilizar-se. Prefeitos estão mais preocupados é com a grana que iria para a Secretaria de Desenvolvimento Urbano com a apropriação de parte dos recursos da Carteira de Fomento do que com um jogo de braço dessa ordem.
Eles querem o setor mais produtivo para os municípios (apesar das trombadas com o Tribunal de Contas e das denúncias de prática de irregularidades, que é aquela secretaria, em função do que se fez no Paraná Cidade, via BID, e pode desenvolver no Paraná Urbano) do que bola dividida para a excitação da torcida.
A conjuntura desoladora, que aí está, presente em algumas surpresas com a da empresa que cobra dívidas municipais do Banestado como aquela de Maringá, tem a marca digital do ex-secretário, que parece arrependido não do que fez, mas de haver se ligado a Jaime Lerner, objeto hoje de sua hostilidade e contra quem ameaça ir até o Judiciário em defesa dos municípios.
Nada, porém, mais saudável do que uma contradição – e quanto mais for acirrada, melhor. Os municípios dispensam tutela e já estão agindo na defesa dos seus legítimos interesses e contra mais um ato espoliativo, o que não invalida o ato do ex-secretário, hoje magnetizado por uma boa causa.
AXIOMA
Se os funcionários estaduais pudessem mudar de banco (Banestado-Itaú) eles o fariam com máxima brevidade e pelo medo de sofrerem retiradas não autorizadas de suas contas, como já vem acontecendo
BIZARRICE A metade da bancada do PDT na Câmara Municipal deixou o partido: saiu Ângelo da Farmácia e o Jorge Bernardi vai ao exercício de solidão.
GLOSA Um dos acompanhantes de Lerner, marinheiro de primeira viagem, tem agora motivos de sobra para admirar o chefe diante do que viu na Europa: arquitetos e engenheiros de vários países plagiam o governador há séculos.
EPIGRAMA Impressionados com o aspecto de cromo de calendário das Vilas Rurais, os norte-americanos ficaram tão entusiasmados que decidiram importar bóias-frias da América Latina para adotarem a proposta paranaense.
SPRAY O governo estadual precisa de um ‘‘descarrego’’ urgente: ora é jaula em Almirante Tamandaré e contêiner em Fazenda Rio Grande operando como cadeia; ora a Fundação Getúlio Vargas dando estatísticas negativas sobre a pobreza ou o Ibope mostrando a queda do governador. Agora o Tribunal de Justiça determinou que o governo deixe de aplicar redutor em salário de aposentado. - Do jeito que está, só haverá saída satisfatória se chover água benta por aqui. - José Álvaro Carneiro, delegado das ONGs ambientalistas, está lembrando que é impossível em 12 meses resolver o problema do aterro sanitário da Caximba, cujo limite de vida útil termina em 2002. - Denuncia a hipótese de soluções temporárias (os contêineres e a jaula também são) como de um aterro que já estaria arrendado para acomodar as coisas e também saídas luminosas, como a dos franceses, que tratam de incineração do lixo para gerar energia. - Também grupos argentinos se encontram na praça recolhendo dados para habilitação em provável concorrência. - Espera-se que surta efeito a passagem, hoje por Paranaguá, do ministro do Tribunal Superior do Trabalho, Gelson de Azevedo, em ação mediadora junto a estivadores, empresários e o Comitê Gestor de Mão-de-Obra do Porto. - Cada hora uma explicação sobre causas e formas de corrigir os efeitos das ressacas no Litoral. Basta ver o que Piçarras (SC) fez e que conseguiu recuperar quase 100 metros de praia.
FOLCLORE Segundo governo (Lupion, Ney, FHC) é sempre pior do que o primeiro. Segundo Candinho (o da revista), Lerner é exceção, pois os dois são ruins.
CROMO Que fim levou o folguedo sazonado dos piás? Tempo de pião, bilboquê, bolinha de gude, raia e pandorga, Bento que Bento frade, passa anel, pedrinha do céu, barra-barra manteiga, ‘‘fui passear no jardim celeste, geroflê, geroflᒒ, e ‘‘qual delas vós quereis? Matatiro, tirorô’’. Como o Rosebud de Orson Welles em ‘‘Cidadão Kane’’, tudo se dilui no tempo.
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