Em dez governadores, Lerner pode até ser a luz no fim do túnel por causa do brilho da ‘‘lanterninha’’ que carrega na condição de último lugar. Possível é que se o teste fosse com 27 governadores, ainda figurasse entre os últimos. Pode-se argumentar que o momento não é bom para quem está no poder, já que a população, irada, com a falta de esperanças, municiada de informações sobre a roubalheira do setor público, transforme a sua impotência e perplexidade em algo parecido com desejo de linchamento. É um dado psicossocial da maior valia que se pode apreender no cotidiano. Por exemplo: quando se fala na ‘‘jaula’’ de Almirante Tamandaré e no contêiner de Fazenda Rio Grande transformados em cadeia, a maioria da população despreza os argumentos dos defensores de direitos humanos em função da paranóia que a domina em relação à violência.
Ainda ontem, preocupado com essa histeria coletiva, alimentada também pelos coleguinhas da reportagem policial radiofônica (não se viu no devido tempo nenhum deles sequer presumir que o crime organizado aqui se instalara e cuja visibilidade estava na ação dos desmanches de veículos e roubo de cargas) que jogam no emocional e contra a marginalidade e fazem apologia às avessas do anti-herói, cautelosos, todavia, com o sistema, lembrei que o Direito Penal foi concebido como protetor dos criminosos, como queria Pedro Dorado Montero. Da mesma forma que ONGs e movimentos cívicos defendem o meio ambiente ou os direitos humanos, às vezes isolando aspectos da realidade e até extrapolando, a concepção doutrinária do Direito Criminal se funda basicamente na recomposição da ordem jurídica violada pela recuperação e reintegração do delinquente e não naquela visão primitiva da Pena de Talião do ‘‘olho por olho, dente por dente’’, da vingança, enfim.
O fato é que os governantes estão no pelourinho, o que amacia um pouco o mau desempenho do nosso governador e a queda do prefeito Taniguchi. Mas Lerner, que sempre apareceu no ‘‘podium’’, da medalha de ouro à de bronze, é o último lugar, o décimo. Valeria lembrar aqui o ironista e cínico Mencken que assim falava sobre os Dez Mandamentos com humor ácido: ‘‘Digam o que quiserem sobre os Dez Mandamentos. Devemo-nos dar por felizes por eles não passarem de dez.’’
Igualmente é um consolo para Lerner o fato de serem listados apenas dez.
AXIOMA
Vejam como são as coisas: agora estão dizendo que o presidente do Senado é uma carta fora do Barbalho

BIZARRICE O jogador Mauro Silva, da Seleção Brasileira, ‘‘amarelou’’ com medo da guerrilha da Colômbia e tirou o time. Como a mala foi antes que o craque para a Espanha, no aeroporto daquele país houve a pergunta frequente: ‘‘Bem, a mala já veio. E o mala, afinal, quando retorna?’’
GLOSA Antes se dizia que o melhor meio de evitar cadeias seria erigir escolas. Isso já era: o entorno das escolas, principalmente as da periferia, é tomado pelas gangues juvenis e o narcotráfico. Soa ridículo ouvir educadores que ignoram esse fato raciocinando como se estivessem tratando de metafísica. As escolas, cercadas pela marginalidade, e a falta de cadeias – tanto que se improvisa contêiner e ‘‘jaula’’ em seu lugar – traduzem o quadro de perplexidade que vivemos. Enquanto isso, o governo viaja.
EPIGRAMA A carpa capim come a alga azul, esta desprende uma toxina que leva o peixe bruscamente a saltar e a engolir borboletas, libélulas e o besouro da haste longa, que se alimenta de formigas. Como o besouro desaparece, a formiga passa a ocupar todos os espaços próximos à represa e a atacar fazendas, deixando os entomologistas tomados de horror por não saberem o que fazer com o inseto destruidor porque há impedimento de lançar defensivos na área. E também com temor de outra guerra biológica desastrada.
E para quem estiver reclamando da água com gosto de fungo e cheiro de BHC, o lembrete bíblico: ‘‘Jamais diga desta água não beberei.’’
CONTÊINER O cientista político e jornalista Eduardo Schneider supõe viável o governador, com sua criatividade, transformar, com as devidas adaptações, a cadeia-contêiner numa solução em escala apoiada pelo Banco Mundial e talvez garantindo mais um prêmio a Lerner e, é claro, mais uma viagem.
ESTATUTO Vem aí nova tensão dialética entre dois direitos: o do fim social da propriedade e o direito de propriedade, quase sempre conflitantes no campo e na cidade, embora os populistas de carteirinha, com a arte da prestidigitação notória, entenderem que é fácil acomodar valores em conflito. É o tal do Estatuto da Cidade que vai provocar necessariamente a Justiça.
No passado mais remoto, do Direito Romano, o proprietário tinha o direito de usar, fruir e abusar (‘‘jus uttendi, fruendi e abuttendi’’) da propriedade. Mas não é fácil como imaginam os simplificadores. Haja vista para o que se dá no campo com o MST, apesar de termos o usucapião ‘‘pro labore’’ desde 1946. A resistência fundiária está aí e a desordem institucionalizada.
FOLCLORE Requião chama Alvaro de ‘‘tchutchuca’’ e este assina a CPI. Agora disse que a aliança PTB-PPS é o Ferreirinha no comando da Coluna Prestes. Resta saber se terá efeitos como aquela.
CROMO Da gasosa de framboesa o menino diz beber a cor.
AFORÍSTICO A saudade dos viajantes oficiais prova que a ausência, em certos casos, é mais frutuosa que a presença.
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