Luiz Geraldo Mazza
Se o prefeito de Curitiba Cassio Taniguchi tivesse alguém no seu secretariado (ou seria sectariado?) como o Miguel Salomão, titular do Planejamento do Estado, haveria certamente um repique em cima do IBGE, contestando que Curitiba fosse a campeoníssima da pobreza entre 1996 e 99, com uma variação no número de indigentes da ordem anual de 14,89%. O referencial é da Região Metropolitana como um todo, a maior privilegiada dos investimentos industriais.
Temia-se, com alguma razão, que a concentração no eixo Curitiba-Ponta Grossa acentuasse os desníveis regionais que já não são pequenos. O que aconteceu foi um boom migratório campo-cidade, primeiro em função dos sedimentos das lavagens cerebrais de Lerner (e aí se inclui Requião que em sua gestão, em rede estadual, anunciava que Curitiba tinha a comida e o transporte mais baratos, que havia acesso a escolas e áreas para moradia na urbanização das invasões) e mais recentemente com o triunfalismo decorrente da vinda não apenas das montadoras, e malha produtiva como dos demais investimentos.
Pela sinistrose, confirma-se uma das características do desenvolvimento recente que não atende a questão do emprego e, sim, a da tecnologia e do capital intensivo fortemente induzida por dinheiro público na sociedade com a Renault, por exemplo, hoje diluída e reduzida a pó de traque, sem falar na prorrogação do ICMS num momento de aguda carência em matéria social. A promessa de gerar emprego, sabidamente uma fantasia (como aquela de que a Cidade Industrial geraria 400 mil postos, diretos e indiretos), está desmistificada bem como o agravamento da demanda social com a pressão migratória.
Se a Grande Curitiba vai mal, o conjunto paranaense também não desfruta uma posição muito confortável, sétimo do ranking, com 20,88% de indigentes, levando, como sempre, uma tunda do Rio Grande do Sul com 16,76%, e em especial de Santa Catarina, segunda melhor classificada do País com 14,40%. Não há como colorir esses dados, mas certamente viajar para o exterior não é a forma lógica de enfrentá-los ou de olvidá-los.
BIZARRICE
O DataFolha deu Lerner em penúltimo lugar, mas a revista Veja fez a correção: ele está em último, atrás do Olívio Dutra, que depois dessa é chamado de Alívio. Mas Lerner, de certa forma, é o nono, na condição de avô
AXIOMA Enquanto no Oriente Médio explodem três carros-bomba por dia, o Brasil manda para a pacífica e ordeira Colômbia o time-bomba (ou seria caso de meia-bomba?) do ayatolá Felipão. Essa é do anarco-esportista Elísio Marques.
GLOSA Maioria esmagadora dos ouvintes da CBN, certamente sob o furor da violência e da paranóia, manifestou-se revoltada com a reação do pessoal dos direitos humanos contra o uso de contêineres como prisão. No mundo há prisões, em países bem mais civilizados que o Brasil, que usam instalações de aço, muito semelhantes aos cofres de carga. Se houver aeração e luz adequadas, bem como recursos sanitários, elas acabam sendo bem melhores do que as celas das delegacias e de penitenciárias.
EPIGRAMA Em Campo Mourão havia, domingo, mais buracos que carneiro. Aliás, saiu tudo bem para Rubens Bueno, ex-prefeito e candidato a governador pelo PPS. Se o PTB roer a corda do apoio (que o senador Roberto Freire defendeu no Programa Roda-Viva da TV Cultura ontem) aí os que ficam no buraco são Ciro Gomes e o Rubens. Aí o Batatinha vai ser chamado de lobo mau com pele de carneiro.
SPRAY O próprio Alceni Guerra, chefe da Casa Civil, admitiu em entrevista que seria inevitável, neste segundo semestre, tensões com PMs e professores. - É, de fato, incontornável, ainda mais com o agravamento das relações com a APP no caso das eleições diretas e o não cumprimento, como sempre, das promessas do governo que em dois meses, prazo já vencido, acertaria com os milicianos as suas reivindicações. - Afora tudo isso, a greve da PM em Pernambuco e na Bahia ajuda a adensar o caldo de cultura. Se ela se estender acaba chegando em Porto dos Milagres na novela da Globo. - O momento não está muito favorável ao governo estadual (o municipal também entra na dança): somos o terceiro pólo de Aids no Sul, damos uma goleada em pobreza conforme o IBGE e ontem na Globo houve a reportagem das pessoas que saem em grupo em Curitiba para prevenir assaltos. Este ano já houve, em relação a 2000, aumento de 10% em assaltos. - No exterior, ninguém (pois lá como aqui Lerner fica ilhado por um oceano de áulicos) ousa contar essas notícias ao governante em férias.
FOLCLORE O PCB (ainda existe, apesar do que o senador Roberto Freire disse na TV Cultura ontem no Roda-Viva) manda dez integrantes do Paraná a um encontro sindical em Santos neste fim de semana. Diz-se que a militância do partido, Expedito Rocha à frente, é tão reduzida quanto a torcida do Pinheiros e cabe numa van. Se guardar a empatia do time hidro-esmeraldino mantém a sua utopia, agora não mais como uma vã (não a van) esperança.
CROMO Vi a Flores na TV Globo e a achei como uma rosa agressiva. De perto é só pétalas. Se há espinhos, só podem ser sedosos.
AFORÍSTICO A cada viagem ao exterior, o nosso governante mais lembra o Barão de Munchausen, pois na volta reúne os aldeões para mitificar os seus feitos que na origem jamais passaram de fantasia.
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